O Forte de Copacabana e os Usos Políticos do Passado

Longe de qualquer neutralidade, pois assim o faz quem decidiu pelo lado mais forte, chamar este processe histórico de "movimento cívico-militar" é recorrer ao passado e utilizar-se deste dessa forma é preocupante. O golpe – que assim deve ser nomeado – não teve nada de cívico e tampouco foi um movimento militar, fora um processo autoritário 

A oportunidade de poder viajar de avião e sentir-se livre, mesmo que por um átimo de tempo, é algo incomensurável. Em minha primeira viagem de avião, fui para a capital do Império brasileiro, isto é, o Rio de Janeiro. Eu e minha companheira visitamos boa parte da cidade: desde o morro da Urca (que tem o significado de Urbanização Carioca, daí estar localizado em uma das partes mais nobres da cidade) até os Arcos da Lapa (localizado no centro da cidade). Nas idas e vindas de dois turistas admirados pela paisagem, decidimos entrar no Forte de Copacabana.

Por ser dia de semana, pagamos seis reais cada ingresso e resolvemos explorar o local.

Caminhamos um bom tempo e entramos no museu do exército, um dos muitos que se encontram espalhados pela cidade que é repleta de estátuas e monumentos históricos. Ali, olhamos com parcimônia cada pedacinho do ambiente que tem a ideia de narrar a construção do exército. A história neste espaço é erigida de forma a enaltecer o papel dos militares, discorrendo desde os tempos coloniais até o período republicano. Olhamos de cima a baixo, visualizamos todas as estátuas, as imagens e todas as narrativas sobre os diferentes acontecimentos, pois o museu é dividido de forma temporal: da época colonial ao passado recente.

Após muitas críticas conversadas de forma impessoal, fomos para a última sala do museu, que continha uma exposição sobre os presidentes militares do Brasil (1889-1985). Tão breve entramos, havia uma placa enorme em que estavam escritas as seguintes frases:

"Após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a nação brasileira foi presidida, em nove momentos distintos, por ilustres Chefes Militares do Exército Brasileiro.

Durantes os anos em que estiveram à frente dos destinos do Brasil, eles souberam, com raro discernimento, interpretar os anseios de ordem e progresso do nosso povo, conduzindo o País com honestidade, dedicação e respeito, alcançando, inclusive, elevados níveis de crescimento econômico.

Em momentos de crise, suas atuações foram decisivas e essenciais para a garantir da paz, da unidade nacional e da democracia".

Após a leitura atenta de cada palavra, a polissemia dos diferentes conceitos e o soco no estomago pelo uso político do passado a favor do exército, tomamos fôlego e decidimos continuar.

Passamos pelas exposições que faziam alusão a Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Hermes Rodrigues da Fonseca e chegamos aos ditadores militares. Neste momento, refletimos: não poderá piorar.

Estávamos errados.

Logo no ditador Marechal Humberto de Alencar Castello Branco que perdurou no poder de 1964 (poucos dias após o golpe civil-militar) até 1967. Em sua descrição constava: "foi um dos principais líderes do Movimento Cívico-Militar". Ao lado, estava a foto do ditador Marechal Arthur da Costa e Silva (1967 – 1969) em que dizia "deu continuidade ao combate à inflação". Mais à frente, na sequência dos ditadores, havia uma foto do ditador General Emílio Garrastazi Médici (1969 – 1974) e no outro lado da sala as fotos dos ditadores General Ernesto Geisel (1974 – 1979) e do General João Batista de Oliveira Figueiredo (1979 – 1985) onde os dizeres sobre seus mandatos fajutos eram tão incoerentes com o que de fato aconteceu quanto aos dois dizeres dos primeiros ditadores.

Longe de qualquer neutralidade, pois assim o faz quem decidiu pelo lado mais forte, chamar este processe histórico de "movimento cívico-militar" é recorrer ao passado e utilizar-se deste dessa forma é preocupante. O golpe – que assim deve ser nomeado – não teve nada de cívico e tampouco foi um movimento militar, fora um processo autoritário com apoio do imperialismo estadunidense e certos setores da sociedade, no contexto da guerra fria, que solapou os direitos sociais, torturou militantes de partidos políticos e não militantes, instaurou a censura, destruiu a economia do país deixando uma inflação absurda ao término deste período sombrio e que esteve imerso em diferentes tipos de corrupção. Além disto, não falar dos diferentes Atos Institucionais que cercearam a participação política no país; da política de segurança nacional em cooperação com os diferentes países da América Latina para manutenção da repressão militar; da autorização promovida pelo ditador Geisel que dava aval para execução de opositores do regime político vigente é algo que deve ser combatido.

Portanto, existe, atualmente, uma necessidade muito grande de confrontar os diferentes usos políticos do passado e tentar, de diferentes formas, fazer com que essas propagandas positivas sobre a noite que durou vinte e um anos sejam confrontadas e desmitificadas, pois, como exposto no cartaz de apresentação da exibição "em tempos de crise" estas ideias autoritárias tendem a crescer e externarem-se. Resistir é preciso!

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