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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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O futebol e a guerra: a história se repete?

O silêncio da FIFA em um mundo em chamas

Inglewood, Califórnia, EUA; Bola da Copa do Mundo de Los Angeles de 2026 fotografada durante a inauguração do novo campo de futebol de teste em antecipação ao jogo da Liga das Nações e à Copa do Mundo de 2026 no Estádio SoFi (Foto: Gary A. Vasquez-Imagn Images/File Photo Purchase Licensing Rights viva REUTERS)

Em 1936, a Alemanha nazista sediou os Jogos Olímpicos de Verão. A Europa e o mundo viviam sob as sombras da ascensão do nazifascismo, o mundo assistiu e, em alguma medida, legitimou um espetáculo que antecedeu a anexação da Áustria e a invasão da Polônia culminando com a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Dois anos depois, em 1938, a França recebeu a terceira Copa do Mundo de futebol. A Europa já vivia um clima evidente de pré-guerra. A Guerra Civil Espanhola, com apoio direto do nazismo alemão, impediu a participação da Espanha no torneio.

Um continente em frangalhos e o futebol não passou imune

Em 1934, os nazistas assassinaram o chanceler austríaco Engelbert Dollfuss, numa tentativa de consolidar sua influência na região. Qualquer semelhança com o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro de 2026, não é mera coincidência. 

Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria, resultando no desaparecimento da seleção austríaca, uma das mais fortes da época. Alguns de seus jogadores foram incorporados à equipe alemã, em um gesto que simboliza, no campo esportivo, a violência política daquele período.

Em 1938, a escolha da França como sede também gerou tensões. A expectativa era de um sistema de rodízio entre Europa e América do Sul, o que não se concretizou. O resultado foi o primeiro grande boicote ao ainda jovem torneio. Apenas o Brasil representou o continente sul-americano. O aspecto positivo foi o 3º lugar e o aparecimento de Leônidas da Silva, artilheiro desta edição da Copa e um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro. 

O futebol seguia acontecendo, mas já não era apenas futebol

Quase nove décadas depois, a Copa do Mundo de 2026 será a maior da história, com 48 seleções, e a primeira realizada em três países simultaneamente. Um marco de expansão e consolidação global do esporte. Esta copa reflete também um espelho do nosso tempo.

Duas das três sedes, Canadá e México, convivem com episódios recorrentes de xenofobia e racismo institucionalizados em políticas e discursos do presidente dos EUA, Donald Trump, contra os vizinhos. Ao mesmo tempo, o mundo assiste a uma escalada de tensões internacionais, com ataques militares, conflitos prolongados e crises humanitárias de grande escala contra países árabes, o Irã e América do Sul. 

Ainda assim, a FIFA mantém sua liturgia habitual, como se o futebol pudesse existir em uma dimensão paralela, imune às contradições do mundo.

Não pode. O futebol nunca foi neutro. Em diferentes momentos da história, foi utilizado como instrumento de propaganda, palco de disputas simbólicas e espaço de afirmação de poder. Foi assim na Itália, em 1934; na Argentina, em 1978 e será assim em 2026?

Hoje, ele se apresenta como produto global, regido por interesses econômicos e políticos que, muitas vezes, optam pelo silêncio diante da barbárie. Mas a pergunta que se impõe não é apenas sobre o passado. É sobre o presente.

O Irã participará da Copa de 2026? As tensões geopolíticas permitirão sua presença, de modo seguro, em um torneio sediado, em parte, por um país com o qual mantém relações profundamente hostis, os EUA?

Mais do que isso. Até que ponto o futebol seguirá sendo celebrado como um espetáculo universal enquanto guerras, violações de direitos e mortes seguem sendo tratadas como ruído de fundo? A história não se repete de forma mecânica. Mas ela insiste em nos testar.

E, mais uma vez, o futebol entra em campo em meio à barbárie!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.