O futebol “moderno” destruiu o Botafogo

O Botafogo é indubitavelmente um dos times que mais contribuiram para o desenvolvimento do futebol brasileiro como o melhor do mundo. Mas hoje o que vale é o balcão de negócios

Garrincha, o "Anjo das Pernas Tortas"
Garrincha, o "Anjo das Pernas Tortas" (Foto: Reprodução)
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Por Juca Simonard

O futebol “moderno” se caracteriza principalmente pelo maior controle dos capitalistas sobre o esporte, esvaziando seu caráter popular e cultural para transformá-lo apenas num balcão de negócios bilionários para os empresários internacionais e nacionais. Para isso, é necessário uma verdadeira destruição das formas mais legítimas do esporte, um intenso controle sobre os “resultados” e a formação de um monopólio dentro do setor.

Assim, enquanto os grandes estádios populares, como o Maracanã e o Pacaembu, vão sendo reduzidos e/ou privatizados e os ingressos vão ficando mais caros, as torcidas organizadas vão sendo brutalmente reprimidas e proibidas - num processo de retirar o escasso poder do povo no controle do esporte. 

A perseguição às torcidas, muitas vezes anunciada como luta contra a “violência”, nos últimos anos, foi fundamental para a “modernização” do futebol brasileiro. Foi através disso que os capitalistas conseguiram um maior controle sobre as competições. São as torcidas que pressionam os cartolas contra os absurdos das federações e de seus juízes e, do ponto de vista dos clubes, contra as lambanças realizadas pelos dirigentes - em sua maioria, parasitas que prejudicam os times.

Este futebol “moderno” é para transformar uma das maiores expressões da cultura operária e negra do Brasil em um mero mercado lucrativo. Uma transformação que favorece o fortalecimento dos monopólios, como pode ser observado na Europa, onde - quando muito - três times alternam entre si a vitória nas ligas nacionais. 

No Brasil, um processo semelhante (porém não tão agravado) vem ocorrendo desde a imposição dos pontos corridos no Campeonato Brasileiro. Esta tese é comprovada por um simples cálculo matemático. Desde que este modelo foi implantado, em 2003, em 17 edições, apenas sete times foram campeões brasileiros (Cruzeiro, Santos, Corinthians, São Paulo, Flamengo, Fluminense e Palmeiras).

Pegando as últimas 17 edições do torneio antes dos pontos corridos, percebe-se a diferença: 11 times ganharam. Dentre estes, seis que nunca ganharam a competição no novo modelo: Sport, Bahia, Botafogo, Grêmio, Vasco e Athletico Paranaense. Quatro destes estão fora do eixo Rio-São Paulo e dois não são dos “12 grandes”. (Lembrando que este cálculo foi feito até 1987, e dois anos antes, em 1985, o Coritiba foi campeão).

Percebe-se bem que o novo modelo de competição favorece a formação de monopólios, algo que expressa o maior controle dos capitalistas sobre o futebol, como ocorre na Europa. Junto a isso, surge a utilização do Vídeo Arrumador de Resultados (VAR) no Brasileirão, que em nome de combater os erros de arbitragem, comete os maiores absurdos para favorecer ou prejudicar quem os cartolas mandantes do futebol brasileiro quiserem.

Destruição dos gigantes do futebol brasileiro

Com seu histórico de brigas com as federações, tendo sido expulso da federação carioca em 1911 e 1990, o Botafogo está sendo destruído pelo futebol dos capitalistas. Na verdade, a briga política é um fator secundário neste cenário. O monopólio no futebol fez com que, na briga entre Rio e São Paulo pelo controle da federação nacional, apenas alguns dos grandes times dos respectivos estados fossem favorecidos. 

O Rio, destruído economicamente pela política imperialista, consegue se impor apenas através do Flamengo (enquanto Botafogo, Vasco e Fluminense vão sendo cada vez mais afastados). Mas isso data de muito tempo. Em São Paulo, onde este processo ocorreu depois pela força da economia capitalista paulista, a influência na federação está cada vez mais concentrada em Corinthians e Palmeiras (deixando de lado Santos e São Paulo, que em relação aos times cariocas ainda estão em melhor situação).

Ainda, chama atenção que dentre os setes vencedores dos pontos corridos, pelo menos dois estão sendo prejudicados constantemente pelos erros de arbitragem e pela sabotagem capitalista, Cruzeiro e São Paulo - para não mencionar os que nunca ganharam no novo modelo, onde os absurdos são ainda maiores.

O primeiro, após sucessivas vitórias na Copa do Brasil e dois Campeonatos Brasileiros seguidos, foi alvo de uma intensa campanha de destruição, ao estilo da Lava Jato, e hoje enfrenta o pesadelo de comemorar seu centenário na Série B, sem conseguir subir de volta à elite do futebol nacional. Já o segundo vive uma situação problemática nos campeonatos paulistas, que não ganha desde 2005.

Estes dois exemplos de times que conquistaram grandes competições nos últimos 20 anos revelam o problema, que naturalmente está bem mais em baixo. O Vasco, entre 2008 e 2015, foi rebaixado três vezes, enquanto o Botafogo pode enfrentar seu terceiro rebaixamento este ano.

Botafogo em crise

No caso do Botafogo, a situação está cada vez mais clara, uma vez que, diante da imensa montanha de problemas, a torcida alvinegra já é conhecida como uma das mais melancólicas do país. O que não faltou neste brasileirão foram arbitragens “polêmicas” contra o Glorioso.

Acredito, entretanto, que essa situação ficou mais claramente expressa em 2007, quando o “Carrossel Alvinegro”, time que tinha tudo para ganhar uma série de competições, terminou o ano sem levantar nenhum troféu. 

O Botafogo, indubitavelmente um dos times que mais contribuiram para o desenvolvimento do futebol brasileiro como o melhor do mundo, não ganha uma competição de importância desde 1995, limitando-se a alguns Campeonatos Cariocas - que passou de um dos torneios mais importantes do Brasil a uma pasmaceira sabotada pela “Federação dos Espertos do Rio de Janeiro (FERJ)”, citando Paulo Autuori.

Carrossel Alvinegro de 2007

Em 2007, o Botafogo mostrou que havia conseguido se reerguer de uma crise vivenciada entre 1999 e 2004, entre um rebaixamento e uma série de quase-rebaixamentos. Após ganhar o Carioca de 2006, o Botafogo iria conquistar o bicampeonato no ano seguinte, não fosse a Federação dos Espertos. Num dos jogos mais fraudados dos últimos tempos, os Espertos conseguiram tirar o título do Carrossel Alvinegro, após um impedimento mal “arbitrado” que daria o gol da vitória para o time e, em sequência, a expulsão absurda de Dodô, o craque do elenco.

Neste mesmo ano, “erros de arbitragem” também impediram o Botafogo de chegar à final da Copa do Brasil, quando foram anulados dois gols legais do time contra o Figueirense na semifinal da competição. 

Em seguida, após diversas rodadas liderando o Campeonato Brasileiro, a CBF arrumou um pretexto para desmoralizar (já altamente desmoralizado pelos prejuízos no Carioca e na Copa) e sabotar o time, tirando Dodô de jogos importantes após ele ser pego no antidoping e suspendendo Túlio Guerreiro, capitão moral do alvinegro, após chute em Leandro em jogo contra o São Paulo.

O caso de Dodô foi semelhante ao de Paolo Guerrero no momento um pouco antes do início da Copa do Mundo de 2018: um caso até hoje sem verdadeiras explicações que foi usado para prejudicar o time. Já o chute de Túlio, mesmo que tenha sido caso de uma suspensão tão grande (o que não acredito que seja), foi a expressão de um time já desmoralizado pelos prejuízos causados pelos cartolas. 

A verdade é que o time foi sendo sabotado para não ganhar nada neste ano, e justamente por isso, na Sul-Americana, totalmente desmoralizado, o time não conseguiu se classificar em um jogo praticamente ganho contra o River Plate.

Apesar disso, essa geração permitiu uma certa retomada do time carioca, que disputou as três finais seguintes do Carioca (sendo finalista por cinco vezes consecutivas, 2006 a 2010) e conseguiu montar vários times bons, quase-campeões, como entre 2010 e 2013.

Nova etapa de crises

Em 2014, o time, porém, entrou numa nova etapa de crises causada pelos dirigentes parasitários do clube. Com contratações sem sentido, onde o clube mais perde do que ganha; controle dos dirigentes sobre os esquemas táticos dos treinadores para fazer jogar atletas sem o mínimo de condições em busca de ganhar uma renda que nunca é revertida pelo bem do clube e nenhum torcedor sabe o que é feito com ela, etc. 

Vende-se jogadores para sanar a dívida, abrindo mão de atletas importantes para conquistar títulos. Todavia, apesar das vendas, a receita do clube é uma caixa-preta e O Glorioso se afunda cada vez mais na crise. 

Com isso, abre-se a possibilidade de privatizar o time com a S/A. Aproveitando-se do desespero dos torcedores, esta medida tem recebido um certo apoio, mas na realidade é uma farsa: a verdadeira crise do alvinegro não é financeira (que existe para a maioria dos clubes brasileiros, inclusive os grandes), mas é ser controlado por uma burocracia parasitária que se aproveita da história da Estrela Solitária para enriquecer. 

Agora, por que isto seria diferente com os capitalistas estrangeiros? Não há nenhum motivo para acreditar na eficiência do clube-empresa. Na realidade, o financiador de fora, como mostra a experiência, vai apenas aproveitar ainda mais para sugar todos os recursos do clube.

A solução não se encontra neste caminho. A segunda ida do time para a segunda divisão deixou claro que a força do clube está em sua torcida, uma das mais aguerridas do Brasil. Foi a torcida que empurrou os medianos elencos de 2015-2016-2017 para a vitória da Série B, a classificação na Libertadores, quando realizou uma ótima campanha, tendo perdido para o campeão do ano, o Grêmio.

Não se deve apostar em sanguessugas. Deve-se fortalecer a torcida e realizar uma campanha política pelo controle dos torcedores sobre o clube.

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