O gabinete do ódio e a promessa não verbalizada

(Foto: Reprodução/TV Globo)
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A frase “vivemos uma crise política” já se transformou num clichê. Muitos colegas de todas as áreas das ciências sociais buscam analisar e compreender o momento. Este texto é parte de um esforço neste sentido, que compartilho com as pessoas do campo democrático e “civilizado”. Este último termo, entre aspas, é de dar arrepios aos colegas dos estudos étnicos e que durante anos analisaram os processos coloniais perpetrados sobre os mais variados grupos indígenas que foram - e continuam sendo – dizimados pelo colonizador em nome da dita “civilização”. No entanto, o termo é empregado aqui como forma de diferenciar as pessoas que continuam com suas faculdades políticas e mentais pautadas pelo bom senso social, daquelas pessoas que hoje acreditam que a Terra é plana, que o novo coronavírus é uma arma comunista, que Jair Bolsonaro é o “messias”, etc. 

A esta altura já percebemos que há um grande fosso que divide o que muitos denominam como a guerra entre a civilização contra a barbárie. Prefiro apontar para o fato que assim como no campo “civilizado” há inúmeras correntes ideológicas, e isso é salutar, no campo da barbárie também. Ao que parece, o chamado bolsonarismo, é uma dessas correntes que está posicionada como ultradireita no espectro político e carrega uma marca clara de sectarismo entre os seus adeptos. Se comporta como seita em tempos de redes sociais, pois há uma direção central que, calculadamente, dissemina desinformação útil para sua causa: o gabinete do ódio, sediado em Brasília e custeado com recursos públicos. Uma aberração digna de regimes de exceção.  

Porém, os elementos estruturais determinantes do “ódio” que aquele gabinete mobiliza estão encravados na história do País. Desde os tempos coloniais o Brasil foi estruturado para uma desigualdade sistêmica, cuja a imobilidade social é corolário. Os filhos e filhas de carpinteiros, pedreiros, marceneiros, costureiras, cozinheiras, etc., seriam, por regra, carpinteiros, pedreiros, marceneiros, costureiras, cozinheiras... Na história recente, a mobilidade social foi tratada como fato extraordinário digno de manchetes e destaques em reportagens e programas televisivos. “O filho de pedreiro que se tornou doutor”. 

Ultimamente estamos nos perguntando – digo “estamos” pois se sua leitura alcançou este parágrafo, significa que compartilhamos a mesma angústia – o que move esta gente que polariza com o conhecimento científico? De onde veio todo este ódio, aparentemente gratuito, às esquerdas e seus signos? Muito embora, os signos atribuídos à esquerda são, geralmente, distorcidos. 

Recorro às obras recentes do sociólogo Jessé Souza para dizer que a fonte de todo o ódio está no acesso à educação formal. O acesso à educação, ou sua falta, são determinantes para a reprodução de classe. E desde tempos coloniais, a aristocracia luso-brasileira que enviava seus filhos para a Europa para voltarem “doutores”, deliberadamente privou as classes subalternas do acesso à formação. A imposição deliberada da ignorância fez – e ao que parece ainda faz – parte do projeto colonial de docilização dos corpos trabalhadores. Isto explica, em certo alcance, uma das grandes mazelas brasileiras do século XX associada ao subdesenvolvimento: o analfabetismo. 

O denominado “gabinete do ódio” é mobilizador do o ódio de classe, talvez o mais antigo dos ódios brasileiros. Suas campanhas de desinformação, intencionalmente direcionadas por algoritmos, tem o objetivo aberto de gerar a ignorância. A ignorância político-social que cega seus seguidores pelo fanatismo. Repetem como mantras as palavras chave que desencadeiam uma espécie de cosmologia própria. 

Ainda não há unanimidade, mas podemos apontar 2013 como o ponto inicial da marcha reacionária da reedição do ódio de classe. Não me refiro ao movimento pelo passe livre e apropriação cidadã das cidades, uma discussão que talvez o Brasil não estivesse ao menos preparado para tamanha complexidade. Me refiro ao que veio na sequência, quando a classe média brasileira foi às ruas – com carrões e espumantes – reivindicar aquilo que não podia verbalizar. Não é que faltavam pautas, é que não podiam, por um certo pudor, falar suas reais reinvindicações! 

Bolsonaro não precisou se apoiar sobre promessas de campanha, apesar de tê-las feito. Não precisou ir aos debates, tampouco precisou falar muito. Quando o fez, à propósito, foi um desastre aos olhos do marketing “civilizado”. Quando prometeu acabar com todos os programas e políticas públicas implementadas pelos governos do Partido dos Trabalhadores, passou a senha. Uma senha àqueles que estavam inebriados pelo ódio de classe ao perceber, tal como no filme de Anna Muylaert “Que horas ela volta”, de 2015, que seus filhos e filhas estavam disputando vagas universitárias e estudando com os filhos de pedreiras, marceneiras, carpinteiras, cozinheiros e costureiros...  

O que marcou a campanha bolsonarista em 2018, e o que move essa legião “fasciolunática” é o ódio de classe prometido de maneira não verbal. A ideia de que tudo voltaria a ser como nos anos 70 do século XX, quando se usava do Terrorismo Estado para garantir a imobilidade social, a abissal desigualdade e os privilégios da classe média. Promessa que não foi dita verbalmente, mas que vem sendo cumprida com sucesso pelos desmontes visíveis na Educação e na Cultura, e muito bem catalisada pelas campanhas do famigerado gabinete do ódio. A personagem Jéssica, do filme, seria subversiva da ordem, da moral e dos bons costumes dos cidadãos de bem nos Anos de Chumbo, tal como são considerados, pelo atual governo e seus seguidores, infames as produções cinematográficas que abordam temáticas semelhante.

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