O governo vai bem. E o PT?
Ao longo deste século, nos governos Lula e Dilma, o partido assumiu grandes responsabilidades políticas, ocupando muitos cargos e responsabilidades
É histórica a circunstância — desde a própria Revolução Soviética — em que, quando um partido assume o governo, tende a se debilitar como partido, pela sangria de quadros que passam a ocupar postos importantes no governo.
O mesmo ocorre com o PT. Ao longo deste século, nos governos Lula e Dilma, o partido assumiu grandes responsabilidades políticas, ocupando muitos cargos e responsabilidades, não apenas em nível nacional, mas também no plano estadual.
Não há dúvida de que poucos quadros de grande trajetória no partido se dedicam hoje prioritariamente ao PT, ainda que mantenham vínculos fortes com a legenda. O caso mais destacado é, talvez, o de Zé Dirceu, um dos quadros de maior destaque na história do PT, mas que se concentra mais nas atividades políticas nacionais, situação plenamente compreensível diante dos desafios que o partido enfrenta em nível nacional.
Há, porém, tarefas que deveriam ser específicas do PT e que o partido tem dificuldade de assumir. No entanto, os maiores desafios são estratégicos. Entre eles, o primeiro é a circunstância de que, com a provável reeleição de Lula e mesmo com sua eventual possibilidade de indicar seu sucessor, o PT tem a oportunidade e a responsabilidade histórica de elaborar um projeto estratégico, de longo prazo, para o futuro do Brasil. Que país queremos, para além da resistência contra o neoliberalismo? Como passamos do antineoliberalismo ao pós-neoliberalismo?
Para essa tarefa, é fundamental a mobilização da intelectualidade do pensamento crítico, grande parte da qual integra o partido ou se identifica com ele. Mas até aqui não se vê um trabalho específico forte do partido nessa direção. Não se trata de delegar responsabilidades aos intelectuais, mas de contar com eles para, em interação com o partido e com suas propostas estratégicas, encarar os grandes temas teóricos, nos quais os intelectuais têm papel fundamental.
Seria provavelmente o caso de convocar um evento voltado aos intelectuais para um debate que aborde os temas fundamentais de ordem teórica, abrindo a discussão sobre o futuro do Brasil com grande participação da intelectualidade. No sentido amplo, aqueles que pensam os temas teóricos, independentemente de sua atividade, deveriam ser convocados, especialmente as novas gerações.
Sem um avanço nesse plano, corremos o risco de perder essa oportunidade histórica que temos pela frente, com a possibilidade de estarmos na direção política do país por um período relativamente longo. O desafio é grande, mas, ao mesmo tempo, muito estimulante.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

