O grande mentecapto

Nem a personagem Geraldo Viramundo, protagonista de “O grande mentecapto”, romance do escritor brasileiro Fernando Sabino, seria capaz de fazer uma aposta tão fora da realidade, quanto a que faz o presidente Jair Bolsonaro

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Nem a personagem Geraldo Viramundo, protagonista de “O grande mentecapto”, romance do escritor brasileiro Fernando Sabino, seria capaz de fazer uma aposta tão fora da realidade, quanto a que faz o presidente Jair Bolsonaro, diante de uma pandemia que assusta o mundo inteiro. Assim como o atual presidente, Viramundo era um menino que costumava agir impulsivamente e demonstrar uma coragem irresponsável. Foi com o seu jeito metido a valente e o seu espírito aventureiro, características que costumam pontuar as declarações do atual mandatário do país, que o menino Geraldo apostou com os seus amigos que faria o trem parar fora da estação. E fez.

A façanha de Geraldo Viramundo, que se pôs de braços abertos no meio dos trilhos da linha férrea, fazendo uma enorme locomotiva frear bruscamente a poucos metros de seu corpo, se espalhou por toda a cidade de Rio Acima. Por pura obra do acaso, sua petulância infantil foi perdoada por Deus e pela habilidade do Maquinista, que não permitiram que o trem passasse por cima dele. Porém, a falta de juízo de Viramundo serviu de inspiração para Pingolinha, seu colega de escola, que depois de algum tempo resolveu imitá-lo, e decidiu que também faria o trem parar. Não teve a mesma sorte. Ou o maquinista não era tão habilidoso quanto o outro, ou Deus o quis fazer de exemplo, para que outros moleques não cometessem mais a mesma loucura.

Após o sepultamento do menino Pingolinha, toda a cidade se revoltou contra Geraldo Viramundo e sua família, passando a lhes fazer ameaças. Eles o culpavam pela morte de Pingolinha, dizendo que o seu mal exemplo, havia motivado a tragédia que vitimou fatalmente o seu colega de escola. Rejeitado por toda a cidade, Viramundo passou a viver isolado socialmente por um tempo. Mais adiante, se envolveu em outra histórias confusas e fantasiosas, que, cada vez mais, evidenciavam a sua estupidez. Chegou até a ser eleito político, depois de fazer um discurso inflamado que impressionou uma multidão. Mas, logo depois foi preso e obrigado a servir o Exército. Onde, provavelmente, planejou explodir bombas dentro do quartel onde estava alocado. Esse último grifo é meu.

Desde criança, ouço dizer que Deus protege os malucos. Hoje, eu rezo para que isso realmente seja verdade. Afinal, parece que temos um Geraldo Viramundo na presidência da república. Um governante que aposta no improvável e joga com a sorte. A sua, e a de mais 210 milhões de brasileiros. Enquanto o mundo inteiro decide entrar em quarentena, nosso mentecapto, digo, nosso presidente, nos aconselha o contrário. Quando todos consideram o corona vírus letal, ele enxerga apenas como uma “gripezinha”, que não resiste ao seu “histórico de atleta”. As flexões de braço, que ele costumava fazer durante a campanha, não o deixam mentir. Trata-se mesmo de um grande ex atleta.

O seu último pronunciamento foi uma afronta ao mundo civilizado. Bolsonaro disse que devemos voltar à normalidade, como se nada estivesse acontecendo. Questionou o porquê de as escolas estarem fechadas, porque, segundo ele, as crianças não correm o risco de contrair o vírus. Mais uma vez, relativizou a morte de idosos e de pessoas que fazem parte do grupo de risco, justificando que a economia não pode parar por causa dessas possíveis perdas. Um show de irresponsabilidade. Assim como Viramundo, Jair Bolsonaro se colocou de braços abertos sobre os trilhos da linha férrea, incentivando milhões de “Pingolinhas” a fazerem o mesmo que ele. E eu já ouço a maria fumaça apitando...

A questão, é que não estamos num romance de Fernando Sabino e Bolsonaro não é um Viramundo qualquer. Ele é um chefe de estado, que, neste momento de crise global, não pode se comportar feito um Dom Quixote que perdeu a razão após uma overdose de literatura militar, onde os heróis das mesmas são ditadores sanguinários, que atentaram contra a vida humana quando estiveram no poder. Nosso presidente precisa assumir, de fato, o comando do país que ele se propôs a governar. Sua postura não condiz com a liturgia do cargo, uma vez que ele, além de não respeitar seus opositores, não cuida do bem estar de seus concidadãos. Está sendo imprudente, negligente e imperito no exercício de sua função.

Como, diante de uma pandemia de escala global, quem deveria transmitir segurança ao povo, entrega nas mãos de Deus a capacitação dos cientistas e a responsabilidade de restabelecer a ordem no pais? Confesso que ao final do pronunciamento, fiquei esperando o Sérgio Malandro aparecer e gritar: “Ié Ié”. Mas, infelizmente, não era uma pegadinha. Tudo que ouvimos era real e absurdamente inacreditável. Bolsonaro insiste em assumir os riscos de uma tragédia sem precedentes no país. Dobrou a aposta e está certo de que o trem vai parar, só porque ele assim o quer. Abriu os braços no meio da pandemia, bateu no peito e desafiou o vírus a obedecê-lo. Espero que outros não sigam o seu exemplo. Porque, o último que tentou andar na linha com um mentecapto, o trem passou por cima.

Assim como na fictícia cidade de Rio Acima, o Brasil não o perdoará se o pior acontecer. 

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247