Paulo Henrique Arantes avatar

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

450 artigos

HOME > blog

O grandioso Leão XIV diante do minúsculo Donald Trump

Críticas de Leão XIV expõem a retórica belicista de Trump e reforçam o papel da Igreja na defesa de valores humanistas diante de conflitos globais

O grandioso Leão XIV diante do minúsculo Donald Trump (Foto: Reuters)

Donald Trump está em queda livre. Em pouco tempo, não lhe restará sombra de apoio no mundo. Simpatia já não há, ou nunca houve, salvo aproximações pragmáticas para fins geopolíticos. A fatura da insanidade e da imensurável vaidade lhe será cobrada externa e internamente, pois o povo americano vem pagando, no dia a dia, o preço de sua loucura. A figura é, de fato, repugnante, alguém que mente sem pudor, que enxerga um mundo subjugado pelo poderio bélico dos Estados Unidos. Porém, o curso da guerra contra o Irã desconstrói a ficção da invencibilidade americana.

Dentre tantas atitudes ridículas, ofender o Papa situa-se no ápice. Posar de Jesus Cristo dá-lhe o lustro da patetice. Trump talvez tenha cometido sua maior asneira retórica, batendo no muro inquebrantável erguido por Leão XIV. Além de corajoso, o Pontífice é inteligente. “O mundo de hoje sofre sob a ação de um punhado de tiranos, que exploram povos inteiros, desviam recursos e justificam o poder com discursos religiosos ou nacionalistas”, discursou Leão XIV em Bamenda, Camarões. E completou: “Não podemos aceitar que o dinheiro das nações seja gasto em armas, enquanto crianças ficam sem educação e famílias sem assistência”.

Antes, o Papa sentenciara: “Não tenho medo de nenhum governo. A missão da Igreja é proclamar o Evangelho, mesmo quando isso contraria os poderosos”.

Há poucos dias, destacamos, neste espaço, as diferenças entre os papas Francisco e Leão XIV. Observamos que o segundo é menos carismático e histriônico, mas igualmente comprometido com os valores humanistas, liderando uma Igreja atuante contra as injustiças e as crueldades. Salientamos que, mesmo em estilo contido, o Papa americano age fortemente para que cessem as guerras. A forma como respondeu a Donald Trump, contudo, nos faz rever a avaliação. Leão XIV domina o verbo e sabe bater duro.

Eis mais um recado direto ao mandatário americano, aspirante a imperador global: “A guerra nasce frequentemente da ilusão de onipotência — da crença de que um líder pode impor sua vontade ao mundo”.

Os católicos progressistas podem se orgulhar de Leão XIV. Sobre o conflito na Palestina, o Papa tanto cobrou a libertação dos reféns israelenses quanto condenou o sofrimento imposto à população de Gaza. Paralelamente, alertou para o crescimento do armamento dos países e pediu mudança de paradigma: uma segurança global baseada em confiança, justiça e fraternidade.

Mais uma vez, vale lembrar o que foi dito por Leão XIV, ao invocar o Livro de Isaías no Domingo de Ramos: “Quando estendeis as mãos, escondo de vós os meus olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue”. Como é sabido, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, recorrera a argumentações religiosas ou à linguagem de “guerra santa” para explicar o ataque ao Irã. As contrapartes fanáticas também não serão atendidas em seus apelos aos céus.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.