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O varejo das drogas no Jacarezinho continuará funcionando e cooptando meninos e meninas, no vácuo de políticas públicas que protejam as crianças e jovens das famílias mais empobrecidas, que reduzam os crimes da desigualdade, da miséria e da injustiça social

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Não se sabe nomes, idades, histórias ou o que faziam no momento em que perderam a vida. Sabe-se apenas que são pelo menos 24 pessoas moradoras da Favela do Jacarezinho, palco de um dos mais violentos e letais ataques já realizados pelo governo do estado do Rio de Janeiro contra a população de um de seus territórios. Foi um massacre. 

Uma das vítimas é um jovem negro, cujo corpo aparece em uma foto sentado em uma cadeira de plástico, com o dedo na boca; se foi morto assim, é pouco provável que estivesse em posição de participar de um tiroteio, se foi colocado assim, em uma exibição macabra da força policial, é de uma crueldade selvagem.

A essas pelo menos 24 vítimas civis, se soma o policial civil André Leonardo de Mello Frias, de 48 anos, casado desde 2018 com uma policial civil e que deixa um enteado de 10 anos e a mãe acamada de quem cuidava; André foi atingido por um tiro de fuzil na cabeça, logo no início da ação, quando desmontava uma barricada.

A operação policial atingiu a favela 6 da manhã, mas o Ministério Público só foi comunicado três horas depois, às 9; suspeita-se que o aviso tardio ao MP não passou de uma manobra para escapar da acusação de ilegalidade da ação, por contrariar a norma do STF, que determina que operações nas favelas, durante a periferia, só podem ser realizadas em casos excepcionais, justificados com antecedência para o Ministério.

Segundo a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), a Operação, batizada de Exceptis (do latim exceção), foi necessária para cumprir 21 mandatos de prisão e tirar de circulação “traficantes que vêm aliciando crianças e adolescentes para integrar a facção que domina o território, o CV (Comando Vermelho)”. 

Nenhuma excepcionalidade. Já em 1980, o cineasta Hector Babenco retratava a trágica presença infantil no narcotráfico, no emocionante filme Pixote, a Lei do Mais Fraco, e em 2018, o Observatório de Favelas apontava que 13% da rede de varejo do tráfico contavam com crianças entre 10 e 12 anos. Quanto aos mandados, apenas seis foram cumpridos.

O governo Cláudio Castro segue a cartilha de seu mentor e antecessor Wilson Witzel... e comemora; o subsecretário operacional da Polícia Civil, delegado Rodrigo Oliveira, elogiou a operação, criticou as ONGs e o que chamou de “ativismo judicial” e falou que “a Polícia não vai se furtar de fazer com que a sociedade de bem tenha seu direito de ir e vir garantido”, repetindo o raciocínio e as palavras que Jair Bolsonaro emprega contra as medidas de proteção sanitária na pandemia.

Enquanto isso, o narcotráfico segue inabalável e crescendo, alimentado por décadas de políticas de confronto que têm por alvos pequenos e rapidamente substituíveis chefes do varejo e uma quantidade crescente de inocentes. Os barões do tráfico e os senhores das armas continuarão circulando livremente, protegidos pela deficiência de investigações que nunca vão além do sexto, quinto ou quarto escalão de um negócio que movimenta centenas de bilhões de dólares no mundo e que, no Brasil, gira em torno de R$ 17 bilhões, por ano, segundo afirmou o general da reserva Alberto Mendes Cardoso, ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência da República, em entrevista ao Uol, em 2018; um dinheiro que, definitivamente, não passa nem perto das favelas e comunidades periféricas.

Enquanto isso, o varejo das drogas no Jacarezinho continuará funcionando e cooptando meninos e meninas, no vácuo de políticas públicas que protejam as crianças e jovens das famílias mais empobrecidas, que reduzam os crimes da desigualdade, da miséria e da injustiça social. Crianças, jovens e adultos pobres e pretos continuarão sendo as vítimas preferenciais de uma política de segurança hipócrita, ineficaz e brutal.

O varejo do tráfico que funciona no Jacarezinho provavelmente mudará de chefes, especula-se que para a milícia, que já domina a maior parte do território da cidade do Rio de Janeiro, trava uma guerra feroz contra o Comando Vermelho e também alicia crianças e adolescentes. Nada disso foi minimamente abalado pela operação que matou pelo menos 24 pessoas das quais desconhecemos nomes, idades, histórias ou o que faziam no momento em que perderam a vida.

Cláudio Castro, como Jair Bolsonaro, aposta na morte como política pública.

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