O Holocausto não começou nas câmaras de gás
Discurso do dr. Claudio Lottenberg na cerimônia em Memória das Vítimas do Holocausto, realizada em São Paulo, a 25/01/2026
Estamos reunidos, mais uma vez, não apenas para lembrar, mas para sentir, sentir o peso das vidas interrompidas, das famílias despedaçadas e das histórias arrancadas do tempo pela violência absoluta.
Homenageamos aqueles que pereceram no Holocausto e carregamos conosco a dor dos que ficaram, condenados a viver com a ausência e o silêncio daqueles que se foram.
E o fazemos com compromisso moral: lembrar para que jamais se repita.
Lembrar é muito mais que lembrar, pois, ao lembrar hoje, não falamos apenas do passado.
Falamos do presente.
E falamos do futuro.
O Holocausto não aconteceu de forma súbita. Ele foi construído passo a passo, em meio à normalização do ódio, à destruição das instituições democráticas e à indiferença de sociedades que preferiram não enxergar.
Durante muito tempo, dizia-se que o mundo não sabia.
Hoje, ninguém pode dizer isso, pois é claro que sabiam e nada faziam
O dia de hoje só ampliou esse acesso à informação. A transparência é total mesmo que alguns queiram ocultá-la interrompendo as transmissões da internet
Assistimos guerras em tempo real. Sabemos quem oprime, quem financia, quem arma e quem se beneficia do caos. Presenciamos de maneira direta a política das narrativas
Mesmo assim, seguimos relativizando o extremismo como se fosse apenas uma divergência ideológica legítima, um nós contra eles onde a polarização tenta também apagar isto e tirar o foco da discussão do fato e da consistência objetiva.
Há algo profundamente errado quando se fala em soberania no sentido etimológico e vou além, até jurídico arrisco dizer, como se regimes autoritários funcionassem como democracias. Como se sociedades governadas pelo medo pudessem expressar livremente sua vontade. Esse relativismo não é inocente, ele corrói o próprio conceito de direitos humanos. Uma inversão total protegida por regras e decisões baseadas nem sempre dentro de um ideário ético e moral.
O extremismo contemporâneo não é movido por valores.
É movido por dinheiro.
Por redes que conectam terrorismo, narcotráfico, autoritarismo e economias ilegais. Uma engrenagem internacional que se alimenta da instabilidade e trabalha ativamente para afastar o mundo da democracia e no limite dos direitos humanos
E aqui surge uma pergunta inevitável: por que a indignação global é tão seletiva?
Por que tragédias humanitárias devastadoras, como as da Síria ou de partes da África, não mobilizam o mundo com a mesma intensidade?
Por que regimes que massacram seus próprios povos são tratados com tolerância, enquanto a condenação se concentra quase exclusivamente quando Israel se defende de organizações terroristas?
Que relativismo é esse?
Que incoerência moral é essa?
Por que uma guerra que matou mais de 1 milhão de pessoas entre a Ucrânia e a Rússia não tem a mesma obsessão por parte de vários governos?
Por que um vizinho como a Venezuela massacra os direitos humanos de seus cidadãos ou um Irã oprime e reprime suas minorias e, particularmente as mulheres, alimentando o ódio ao financiar o terrorismo e o mundo se cala?"
Estes exemplos seletivamente representam uma política de silêncio por parte de chancelarias que optam pela ideologia e não pelo compromisso por um mundo equilibrado, equitativo e pautado pelo respeito aos direitos humanos.
Ignorar o terrorismo, seus financiadores e a instrumentalização de civis não é humanismo. É distorção moral. Quando o contexto desaparece, algo muito antigo reaparece: a demonização do povo judeu, agora sob novas narrativas.
O antissemitismo nunca começa com violência extrema. Ele começa com palavras. Com inversões morais. Com o silêncio diante do ódio.
E isso também acontece no Brasil. O crescimento do antissemitismo não pode ser ignorado — especialmente quando discursos públicos se afastam da história e se aproximam de ideologias que legitimam o ódio por conveniência política.
Lembrar o Holocausto não é um ritual vazio.
É um compromisso.
Compromisso com a verdade histórica.
Compromisso com a democracia.
Compromisso com a dignidade humana.
O Holocausto não começou nas câmaras de gás.
Começou com palavras, com a desumanização do outro e com o silêncio dos que pensaram que não lhes dizia respeito.
E a presença das autoridades no dia de hoje, a necessidade do diálogo permanente que farei questão de manter com todos os atores políticos deste pais é uma necessidade que vejo para manter nossa missão de combater o antissemitismo, a banalização do holocausto e a deslegitimação do estado de Israel.
Esta é a nossa missão, uma missão que não é da direita nem da esquerda, é uma missão da sociedade acima de seus partidarismos
Cada vez que combatemos o antissemitismo, não estamos falando apenas de judeus.
Estamos protegendo a própria sociedade e impedindo que o ódio encontre novas vítimas.
Israel é hoje um farol para o mundo democrático e para a sociedade livre, sendo a única democracia do Oriente Médio que como todas elas têm seus defeitos e suas qualidades, mas é uma democracia
E é por isso que estamos aqui: somos fruto e somos protagonistas de um mundo livre que nos permite e ao mesmo tempo exige honrar a memória dos que perdemos e transformar essa lembrança em ação, coragem e responsabilidade.
Porque a história já nos ensinou, de forma dolorosa, que o preço da indiferença é alto demais e a indiferença não é rito, não é parte da nossa cultura e jamais será algo que algum judeu tolerará.
O Brasil e o mundo demandam participação e persistência pautadas por valores de respeito e gratidão. E com esses valores, com nosso sentimento judaico e com nosso patriotismo pelo Brasil é que trabalharemos por este nosso país para que ele seja mais justo, pois aqui sempre tivemos e sempre teremos um importante papel para contribuir.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
