O homem-caranguejo: um ser-para-o-teatro

O teatro é o palco do Inconsciente, dizia Freud, onde os espectadores veem desvelados seus desejos obscuros, suas facetas indesejáveis e suas fantasias inconfessáveis. “A peça é a Coisa com a qual pegarei a consciência do rei”, diz Hamlet

O teatro tem a função histórica de participar da construção da Pólis, a qual nos constitui como lugar de convívio e tramas materiais, simbólicas e afetivas. Desde a Grécia Antiga o teatro tem uma participação ética, crítica e política com sua magia da arte de representar oferecendo um prazer estético aos espectadores. 

Por meio da fruição do belo - do trágico ao cômico - o teatro é da ordem do despertar. O teatro desperta o desejo de saber, de criar e de transformar: a si mesmo e ao mundo. O teatro desacomoda, faz pensar e arranca o sujeito de sua paixão pela ignorância, de sua sonolência e de sua subserviência ao status quo e à rotina. E ele se vê no catador de caranguejo ao descobrir que o caranguejo é ele mesmo: vive na lama e se alimenta dos restos da civilização. 

Porém ele pode não só catar mas cantar e se deixar contar. E também se horroriza e ri quando vê cair por terra um herói de sua infância escolar de moral e cívica: o Duque de Caxias da capa do caderno foi na verdade um facínora da guerra do Paraguai, herói tão falsificado como o whisky importado (cf. “Caranguejo Overdrive” d’Aquela Cia. de Teatro). Não, não adianta tentar - como fazem os governos autoritários e medrosos como o atual - calar, censurar, injuriar o teatro e seus artífices pois o teatro jamais morrerá. 

O bicho-homem, já dizia Aristóteles em A Poética, é o único ser capaz de representar outro que não ele mesmo. É o único ser capaz de criar, com seu corpo e seu Inconsciente, novas realidades e novos sonhos. O homem é um ser teatral e seu poder transformador é infinito. 

O teatro é o palco do Inconsciente, dizia Freud, onde os espectadores veem desvelados seus desejos obscuros, suas facetas indesejáveis e suas fantasias inconfessáveis. “A peça é a Coisa com a qual pegarei a consciência do rei”, diz Hamlet. 

O teatro pega consciências e Inconscientes unindo o mais íntimo de cada um com o coletivo da Pólis. O teatro é o palco do ser-para-a-arte, onde o sujeito pode dançar nas estrelas, brilhar no mar e virar um homem-aranha caranguejeira que ao morrer espirra sua tinta. E cada gota caída na teia do palco faz brotar uma árvore da floresta que anda (para matar o tirano Macbeth) e fazer de uma Amazônia um campo de vitórias-régias do sonho de uma noite de verão.

Convocamos para o Ato “ESCOLHA CULTURA” contra toda forma de censura nas artes – 11 de outubro às 16 h em frente ao CCBB RJ.

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