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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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O iluminado da Papudinha

A transformação pela leitura, entre descobertas, contradições e limites humanos

Cela cheia de livros (Foto: Gerada por IA/Freepik)

Na ala mais introspectiva da Papudinha, ocorreu um fenômeno que desafiaria todas as estatísticas: o nascimento de um leitor improvável.

O capitão Jair começou desconfiado. Livro, para ele, era objeto suspeito: cheio de palavras, nenhuma com botão de pular página. O primeiro contato foi tenso. Abriu um exemplar como quem abre uma lata de sardinha vencida: esperançoso, mas preparado para o pior.

Começou com leituras curtas, frases motivacionais, aquelas que prometem mudar sua vida em três linhas ou seu humor em duas. “Você é o protagonista da sua história”, dizia uma. Ele anotou no caderno: confirmar. Aos poucos, a leitura deixou de ser um exercício de desconfiança e virou um hábito.

Vieram então as aventuras. Júlio Verne foi seu personal trainer literário. Em pouco tempo, Jair já não estava na cela: vivia no fundo do mar, no centro da Terra. A imaginação, antes sedentária, começou a fazer alongamentos.

Mas a grande virada veio com a literatura brasileira. Machado de Assis entrou em cena. Jair leu, releu e, em certo momento, suspeitou que estava sendo ironizado por alguém que já não estava vivo havia mais de um século.

A partir daí, a coisa escalou. História, geopolítica, sociologia. Ele passou a usar termos como hegemonia e contradição estrutural com a tranquilidade de quem pede pão e água ao carcereiro. Em uma manhã, durante o banho de sol, comentou com um colega de presídio:

— Isso aqui é tudo uma construção social.

O colega respondeu:

— Inclusive, essa conversa.

E ambos ficaram satisfeitos por alguns minutos, o que já valia o capítulo.

A filosofia veio como sobremesa. Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche, Karl Marx. Nomes que antes soariam como escalação de time europeu passaram a frequentar seus pensamentos. Jair discordava de todos com a mesma convicção com que antes concordava com poucos. Evolução, afinal, também é saber destoar.

Os anos passaram. A cela virou biblioteca. O silêncio, cúmplice. Jair tornou-se um leitor disciplinado, desses que sublinham trechos e depois sublinham o sublinhado, só para garantir. Desenvolveu até um método próprio: se não entendia uma frase, lia de novo; se continuava sem entender, estava tudo entendido, e ponto.

Quando enfim deixou a prisão, duas décadas depois, havia nele algo novo: não exatamente sabedoria, mas uma familiaridade com ideias.

No primeiro discurso em liberdade, respirou fundo e falou:

— Como diria Michel Foucault…

Pausa dramática. Plateia em suspense.

— …e também o padre Fábio de Melo.

E ali, naquele pequeno tropeço entre o complexo e o popularesco, o país inteiro entendeu: ler transforma, sim. Mas milagre não faz.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.