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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O impasse das elites na eleição decisiva de 2026

Ao rejeitar Flávio Bolsonaro e não encontrar alternativa viável, o establishment ensaia seu movimento mais clássico: tentar enquadrar o último mandato de Lula

Lula e Flávio Bolsonaro (Foto: Ricardo Stuckert/PR I Divulgação)

O problema das elites brasileiras já não é apenas escolher um candidato. É evitar perder o controle num cenário em que o bolsonarismo colapsa, Flávio Bolsonaro não se firma como herdeiro político e Lula permanece como o único polo real de poder.Na política, os movimentos decisivos raramente são anunciados. Eles se acumulam, se insinuam e, quando aparecem, já estão consumados.É o que ocorre agora com Flávio Bolsonaro.O herdeiro político de Jair Bolsonaro tentou ocupar o vazio deixado pelo pai. Fracassou. Faltou densidade, faltou liderança, faltou projeto. Sobrou rejeição.O problema não é apenas eleitoral. É estrutural.Flávio não organiza maioria. Não estabiliza nem oferece previsibilidade. Para o establishment, isso basta.O que se vê, hoje, é um afastamento progressivo, ainda cuidadoso, mas cada vez mais nítido, de setores empresariais, financeiros, midiáticos e políticos que já compreenderam o óbvio: o bolsonarismo com ou sem Jair Bolsonaro perdeu sua principal função histórica.Deixou de ser instrumento de poder. Passou a ser fator de risco.

O bolsonarismo sem Jair não se sustenta

O diagnóstico já está feito, ainda que nem sempre seja dito de forma direta.Sem Jair Bolsonaro no centro do tabuleiro, o bolsonarismo perde força gravitacional. A extrema direita brasileira foi construída em torno de um líder, de sua linguagem, de sua agressividade, de sua capacidade de mobilizar ressentimentos e produzir crise como método.Flávio não herdou esse capital político. Apenas carrega o sobrenome.E sobrenome, sozinho, não vence eleição presidencial.Editorial do Estadão, leituras da Folha, análises de Miriam Leitão, no Globo, e movimentos de bastidor no mundo empresarial convergem no essencial: há fadiga com o extremismo, cansaço com o ruído e demanda por previsibilidade.Mas há um problema maior.Nada disso produziu uma alternativa.

Não existe “terceira via” — existe um vazio

Este é o ponto que reorganiza toda a eleição de 2026.As elites não querem Flávio. Mas também não têm quem colocar no lugar.Durante meses, parte do mercado, da mídia tradicional e do centro político alimentou a expectativa de que surgiria uma candidatura conservadora capaz de reunir direita, centro e setores antipetistas sob uma aparência de moderação institucional.Mas essa candidatura não apareceu.Nomes circulam. Ensaios acontecem. Testes são feitos. Nenhum se sustenta. Nenhum unifica a direita, nenhum organiza o centro, nenhum se impõe nacionalmente como alternativa real a Lula.Tarcísio de Freitas, antes tratado como hipótese preferencial por parte do establishment, saiu da equação presidencial ao não se desincompatibilizar no prazo exigido pela legislação eleitoral. Resta-lhe a disputa pelo governo de São Paulo. Não o Planalto.O resultado é raro — e perigoso: um campo político inteiro sem liderança funcional.

O impasse: rejeitar não é governar

Diante disso, o comportamento das elites muda de natureza. Deixa de ser ofensivo e passa a ser defensivo.O objetivo já não é impor um projeto claro, muito menos apresentar ao país uma alternativa de poder. O objetivo, agora, é evitar o pior.E o pior, para as elites brasileiras, tem três faces: o bolsonarismo tosco, a fragilidade do bolsonarismo “moderado” e a força política de Lula.Elas rejeitam o bolsonarismo tosco porque ele desorganiza demais. Rejeitam o bolsonarismo “moderado” de Flávio porque ele não organiza nada. E rejeitam Lula porque ele representa, mesmo dentro dos limites da conciliação brasileira, um projeto de fortalecimento do Estado, redistribuição de renda e disputa com o poder absoluto do capital financeiro.As elites rejeitam os três por razões distintas.Mas só um deles tem viabilidade real.

Lula é o único polo que organiza poder

Lula não é apenas candidato. É estrutura.É o único líder capaz de mobilizar base social, organizar maioria política, falar com os pobres, negociar com o Congresso, dialogar com empresários, enfrentar o sistema financeiro e ainda conservar densidade eleitoral nacional.Esse é o dado que incomoda seus adversários.Lula é, antes de tudo, um negociador de altíssimo nível. Talvez o mais habilidoso da história política brasileira recente. Sabe ceder sem desaparecer, compor sem se anular, recuar sem entregar o centro do projeto.É exatamente por isso que o establishment o teme — e, ao mesmo tempo, pode ser levado a negociar com ele.Não por confiança.Por falta de alternativa.

A eleição de 2026 como ponto final de uma trajetória

Tudo indica que esta será a última disputa presidencial de Lula.Não é apenas mais uma eleição. É um encerramento histórico. Um acerto de contas com a própria biografia. Um ajuste final entre projeto político, legado pessoal e destino nacional.Lula não disputa apenas poder. Disputa memória. Disputa lugar na história.E não pode — nem vai — encerrar sua trajetória sendo derrotado por Flávio Bolsonaro. Um político sem densidade nacional, marcado por escândalos, associado ao submundo das rachadinhas, às sombras das milícias e a práticas que corroem a própria ideia de República.Esse desfecho não é uma hipótese política aceitável para Lula.É um limite histórico.Depois de ter derrotado a fome, enfrentado a prisão, sobrevivido à destruição judicial de sua biografia e voltado ao poder pelo voto popular, Lula não aceitará concluir sua vida pública derrotado por um herdeiro menor do bolsonarismo.Não por orgulho pessoal.Por sentido histórico.

O movimento mais sutil: o recado das elites

Sem candidato competitivo, o establishment muda de estratégia.Não substitui. Tenta influenciar.O movimento é silencioso, mas reconhecível. Primeiro abandona Flávio. Depois constata que não tem alternativa. Por fim, passa a observar Lula como inevitável.A partir daí, o que emerge não é apoio. É recado.Não dito. Não formal. Mas perfeitamente legível.Estabilidade em troca de moderação. Aceitação em troca de limites. Governabilidade em troca de concessões.É a velha linguagem do poder brasileiro: quando não consegue derrotar o líder popular, tenta cercá-lo; quando não consegue impedi-lo de vencer, tenta reduzir seu alcance; quando não consegue bloquear o voto, tenta controlar o governo.Esse pode ser o sentido mais profundo da atual movimentação das elites.Não se trata de aderir a Lula.Trata-se de tentar condicionar o último Lula.

Não é apoio — é contenção

Seria ingenuidade ler esse movimento como conversão democrática do establishment.Não é.As elites brasileiras não operam por afinidade. Operam por interesse.E o interesse, agora, é direto: evitar ruptura, preservar influência e limitar o alcance de um eventual novo ciclo lulista.Se não puderem derrotar Lula, tentarão moldá-lo.Se não puderem impedir sua vitória, tentarão negociar seus limites.Se não puderem evitar seu último mandato, tentarão transformá-lo num governo administrado sob vigilância permanente dos mercados, da mídia e do Congresso.É esse o verdadeiro jogo.A disputa não será apenas entre Lula e Flávio. Talvez nem seja mais principalmente isso.A disputa será entre Lula e as condições que tentarão impor a ele.

Quando falta candidato, sobram condições

O Brasil entra em 2026 com um dado novo — e decisivo.As elites perderam seu principal instrumento político. O bolsonarismo, sem Jair, deixou de funcionar. Flávio Bolsonaro não conseguiu substituí-lo. E nenhuma alternativa se firmou.O resultado não é reorganização.É vazio.E, diante do vazio, o sistema recua para seu reflexo mais antigo: não escolhe — condiciona.Lula permanece como o único nome capaz de vencer, governar e organizar poder. Mas não chegará sozinho à disputa final. Chegará pressionado, testado, cercado.A eleição de 2026 não será apenas uma disputa eleitoral.Será uma definição.Não apenas de quem governa.Mas de quem impõe os limites do governo.E, no limite, de algo ainda mais decisivo: até onde Lula — no último movimento de sua trajetória — estará disposto a ir para vencer, governar e sair da história sem dever nada a ninguém.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.