O impeachment é possível

Os panelaços e a carreatas nesse momento de pandemia são modalidade de mobilização que podem muito bem ser potencializado pela classe média, segmento indispensável para o sucesso do impeachment

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Argumenta-se que não temos votos suficientes na Câmara dos Deputados nem apoio popular para iniciar o processo de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. E por isso o impeachment não prospera, desconsiderando os 42% favoráveis ao afastamento apontado pela mais recente pesquisa do Datafolha. O panelaço do último dia 15, o aumento das menções ao impeachment nas redes sociais e as carreatas organizadas por setores de esquerda e da direita nesse fim de semana têm exatamente o objetivo de aumentar a pressão sob os deputados e aumentar o apoio popular em defesa do impeachment. Essas formas de mobilização, as possíveis, para evitar aglomerações, somadas ao clamor da população diante da demora da vacinação e mortes por falta de oxigênio, podem nos proporcionar o elemento político que falta para abreviar o mandato de Bolsonaro.  

Quanto aos elementos jurídicos para embasar o afastamento do presidente não resta dúvida que estão mais do que preenchidos. O presidente, por várias vezes, se comportou de forma incompatível com a dignidade, honra e decoro que o cargo exige. Além disso, até o momento, sua omissão ou atuação direta de forma errática no enfrentamento à pandemia justifica o impeachment. Não é crível que um presidente da República, em meio a umas das maiores crises sanitárias da história do país, negue a ciência, provoque aglomerações, desestimule o uso de máscaras e recomende medicamentos comprovadamente ineficazes no tratamento da doença. 

O presidente ignora que vivemos no Brasil e no mundo uma grave crise sanitária, que em nosso país já alcança a marca de mais de 217 mil mortos. Iniciamos o ano de 2021 com o colapso no sistema de saúde de Manaus (AM) e a trágica falta de oxigênio nos hospitais. E voltamos a uma média de mais de mil vidas perdidas por dia no país. Por todo o Brasil a população se aglomera em filas de hospitais, sem profissionais suficientes e sem estrutura de insumos básicos para um atendimento humanizado. São cenas de desespero, choro e lamento, ao mesmo tempo em que o presidente despreza a vida e não nutri compaixão com o sofrimento do povo. É inegável o crescimento de indignação contra Bolsonaro. 

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Diante deste cenário, o presidente da República mantém sua recorrente postura genocida, que ao invés de combater, agrava a pandemia no nosso país. Bolsonaro e seu governo têm agido de forma irresponsável e imóvel diante desta crise. Ele sabota e contraria as medidas sanitárias sugeridas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), boicota as iniciativas dos governos estaduais, coloca em risco a saúde de milhares de pessoas, propaga a desinformação, o negacionismo e espalha mentiras que dificultam a consciência coletiva necessária para o enfrentamento do vírus. Coloca-se contra a vacina. Por isso não viabiliza a compra dos imunizantes. O governo rejeitou no fim do ano passado a oferta de 70 milhões de doses de vacina da empresa americana Pfizer. 

Com o elevado nível de desemprego, aumento da desigualdade e miséria, Bolsonaro decide aprofundar ainda mais as dificuldades do povo, acaba com o auxílio emergencial e não toma qualquer medida de proteção ao emprego e à nossa economia. Precisamos urgentemente de um plano nacional de combate à COVID-19, da aquisição de vacinas e dos investimentos necessários no SUS para a garantia de tratamento adequado e minimização das mortes, da imediata vacinação de todos e todas, de forma gratuita e por meio do SUS, que mesmo com todas as dificuldades que enfrenta, tem sido fundamental para salvar milhares de vidas. Tudo isso não será possível com Bolsonaro presidente. 

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Não resta dúvida quanto ao agravamento das crises políticas, sanitária, econômica e social.   Como também não resta dúvida que Bolsonaro não quer e nem tem condições políticas para debelar tamanha tragédia, sem precedente no nosso país. Portanto, é mais que necessário que impulsionemos as articulações e a pressão para que a Câmara dos Deputados inicie o processo de impeachment. No decorrer dos trabalhos da comissão processante construiremos um amplo movimento popular em favor do impeachment, organizado por setores da esquerda e da direita.

Vem a pergunta: esquerda e direita vão se unir no mesmo palco em prol do impeachment?  Não precisa. Temos concepções totalmente diferentes do ponto de vista econômico, social, do papel do Estado. Os setores de direitas que deram o golpe em 2016 e elegeram Bolsonaro em 2018, e agora defendem o seu afastamento, o fazem com o objetivo de limpar o caminho para acelerar o projeto ultraliberal comandado por Paulo Guedes. Nós do campo da esquerda e dos movimentos populares defendemos o afastamento porque Bolsonaro de fato cometeu crime de responsabilidade, atenta contra a vida e a saúde do povo, mas também para interromper o avanço de todos os retrocessos impostos desde o golpe de 2016. Podemos bater panelas, cada um na sua casa. Podemos promover carreatas em datas diferentes, como as que ocorreram: a da esquerda no dia 23 (sábado), a da direita no dia 24 (domingo). É perfeitamente possível marchar separados e golpear juntos.  Movimentos de direita, como o Vem Pra Rua e MBL, estão defendendo somente o impeachment, enquanto os setores de esquerda defendem também a ciência, o fortalecimento do SUS, vacinação para todos e todas, proteção do emprego, a volta do auxílio emergencial. 

Os panelaços e a carreatas nesse momento de pandemia são modalidade de mobilização que podem muito bem ser potencializado pela classe média, segmento indispensável para o sucesso do impeachment. As carretas de sábado e domingo por todo o país indicam que o impeachment não só é necessário, como é possível. As ruas é que irão alterar a nosso favor a correlação de forças que nos permita derrubar Bolsonaro e interromper seu governo. Para além do morticínio mediante o descaso do governo com o agravamento da crise sanitária, o risco de um golpe é real, a qualquer momento ou em 2022, caso Bolsonaro não vença a eleição.  Esperar 2022 é incerto e perigoso. Pode ser tarde mais. O enorme panelaço do último dia 15 e as carretas em centenas de cidades nesse fim de semana são demonstrações de que a hora do impeachment é agora. Fora Bolsonaro. 

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