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Jean Menezes de Aguiar

Advogado, professor da pós-graduação da FGV, jornalista e músico profissional

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O incêndio ao país é merecido?

Responda rápido, quem é mais importante para o Brasil, uma professora primária ou um juiz? Não ria. Apenas compare salários. Aí pode estar um incêndio a se incendiar. Mas será que esta sociedade ávida e viciada em WhatsApp quer dar este tempo a ela própria? Nunca quis. A outra, a dos excluídos, que continue aguardando o futuro

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[Lula. Dilma. Renan. Cunha. Corrupção].Todo título sensacionalista aceita sempre duas leituras. A primeira, a de atrair por algum tipo de impactação social. A segunda a de instigar questionamentos, no mínimo.

O país já viveu crises asquerosas, com inflações empacotadas em incompetentes jaquetões de 6 botões à ordem de 80% ao mês. Praticamente todos os agora idosos atores sempre saíram impunes. E milionários. As ditaduras na História, por exemplo, sempre foram hábeis em criar currais de impunidade para os seus.

A grande causa da oposição naquela época era uma construção, razoavelmente intelectualizada, em busca de direitos universalmente existentes que só depois vieram a ser incorporados no Brasil, na Constituição de 1988. Uma confirmação histórica que culminou com a democracia. Mas agora a causa da oposição neste século 21, basicamente a PT, Lula e Dilma parece ser muito mais o ódio e o asco.

O ódio e o asco podem ser fatores verdadeiros e sinceros. Até legítimos. Qualquer pai de família terá ódios figadais de quem molestar uma cria sua. Há coisas naturais e compreensíveis.

Mas em épocas de fofocas de internet, filósofos de internet, artistas de internet, famas de internet, e 'causas' de internet, grande parte da sociedade, sabidamente volúvel e invariavelmente nada estudiosa, compra facilmente essas 'razões'. O combustível mais fácil será um ódio inculto e preconceituoso, cuja propagação costuma ser o sensacionalismo de uma imprensa que descobriu a sede (ê) social pelo incêndio social.

Um resumo do incêndio seria: 1. O presidente da Câmara dos deputados réu em gravíssimo processo penal em que a desonestidade e a falcatrua financeiras são o objeto. 2. A presidente da república enfrentando um processo de impeachment – na história de um mesmo país, o segundo processo assim-, uma extravagância política própria de um país chinfrim. 3. Uma operação policial com nome de puxadinho de posto de gasolina em que tem que escolher até que nível mínimo 'desce' para investigar, porque se não talvez chegue a centenas de pessoas e não há prisão para todo mundo – esta é uma entranha antropológica brasileira, essas pessoas ladras compõem a sociedade!-. 4. O presidente do Senado também criminalmente envolvido em investigações que, num país sério qualquer imagina-se a renúncia pronta, ética e imediata após a publicação dos fatos. 5. Um ex-presidente da república enrolado com explicações infinitas e contorcidas a cada hora, reclamando de falta de imparcialidade de promotores (desde quando há isso? Quem tem que ser 'imparcial' é juiz). 6. Processos penais com absurdas violações ao princípio constitucional da ampla defesa, em que o juiz parece que faz favor ao 'permitir' que advogados tenham acesso aos autos do processo. Desde quando juiz precisa 'permitir' isso ao advogado do réu?

Há muito material neste incêndio, de toda ordem, pessoal, institucional, constitucional, político. Somem-se manifestações sempre e totalmente válidas das ruas como uma das pedras preciosas da democracia. Mas não se esqueçam dos ódios, intolerâncias, preconceitos tão comuns a esta mesma sociedade conservadora, a brasileira.

Um olhar 'de fora' talvez dissesse que está em curso um tipo de depuração social. Afora as bobagens que alguns atores pronunciam, as bravatas, os excessos, há um caldo cultural interessante em toda essa agitação. Até nessa imprensa marrom brasileira – toda ela- já previsível, que só se interessa por escândalos, tragédias, caos e crises.

Talvez no final das contas só quem saia 'chamuscado', mas continue milionário do mesmo jeito, seja um ou outro empresário por aí otariamente flagrado em conversas telefônicas 'codificadas'. Sim, eles se julgam 'malandros'. Das centenas de políticos enroladas pelo rabo preso, também só um ou outro sofra algo. Mas é um bom começo. Antes não havia começo, a 'carteirada' ou o telefonema para o ministro compadre eliminava o começo.

Há outros incêndios a incendiar, menos visíveis e mais profundos para a sociedade cuidar. Salários oficiais estratosféricos, vitalícios e imorais; nomeações oficiais casuísticas de filhos e filhas; e a velha e continuada corrupção do 'jeitinho'.

Se não fosse, minimamente, a avalanche de impostos que a sociedade paga 'aos' governos brasileiros todos (governos) funcionalizados por uma incompetência estrutural, teria dificuldade de cobrar exação dos governantes. Afinal, como já disse o filósofo: o monstro somos nós. Ou seja, 'isso' que sempre esteve aí, em Brasília, nas prefeituras, nas câmaras, saiu de nós. A inércia da sociedade brasileira permitiu esse monstro cultural: governos antropologicamente concebidos sob o manto da corrução, normal, aceita, organizada, transmitida sucessoriamente nos diversos cargos. E alimentada por empresas ávidas, gigantescas e amigas das 'autoridades'.

O que sobra? Cada cidadão que faça a sua parte. Não há 'projeto' nacionalista para a construção de um 'povo'. A não ser pela Educação, como o Japão fez no pós-Guerra. Mas isso todos os governos brasileiros até aqui nunca levaram muito a sério. Responda rápido, quem é mais importante para o Brasil, uma professora primária ou um juiz? Não ria. Apenas compare salários. Aí pode estar um incêndio a se incendiar. Mas será que esta sociedade ávida e viciada em WhatsApp quer dar este tempo a ela própria? Nunca quis. A outra, a dos excluídos, que continue aguardando o futuro.

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