O inferno astral de Bolsonaro

"Além das manifestações contra seu governo em várias capitais do país, Jair Bolsonaro foi obrigado a recuar na tosca estratégia de dar menos visibilidade à pandemia da Covid-19 omitindo e maquiando números. Foi um tiro no pé, que expôs o governo e o país de forma vergonhosa", analisa Helena Chagas, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Alan Santos - PR)
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Por Helena Chagas, para o Jornalistas pela Democracia 

A hashtag #impeachment amanheceu entre os trendig topics do twitter nesta segunda depois de um fim de semana de reveses para o presidente da República. Além das manifestações contra seu governo em várias capitais do país, Jair Bolsonaro foi obrigado a recuar na tosca estratégia de dar menos visibilidade à pandemia da Covid-19 omitindo e maquiando números. Foi um tiro no pé, que expôs o governo e o país de forma vergonhosa. Para piorar a situação, seu guru Olavo de Carvalho rompeu com ele em meio a palavrões e acusações nada edificantes.

É o inferno astral de Bolsonaro, que vinha se desenhando há semanas com uma persistente queda de popularidade nas pesquisas mas se disfarçava um pouco nas boas graças do Centrão – que, enchendo as burras, passa a ideia de que trará a estabilidade política necessária  – e do mercado, que parece ter acreditado nisso e viveu dias de alta na bolsa e queda do dólar. Tudo muito precário.

Assim como são precárias também as previsões de que vai ser fácil derrubar Bolsonaro depois que as ruas desencantaram. Não vai, porque essas coisas levam tempo e exigem paciência e tranquilidade. O que se viu neste domingo terá que se multiplicar muito até se configurar num movimento de massas que de fato leve à queda do presidente da República. Apontou a direção, mas está no primeiro passo de um longo caminho.

A bola voltou para Bolsonaro neste início de semana, e o relativo comedimento nas declarações mostra que está atordoado. A tentativa de criminalizar os movimentos populares, e até usá-los como pretexto para medidas repressivas, não funcionou. Com exceção de grupos pontuais, o pessoal não caiu na provocação e não saiu vandalizando tudo. Ninguém viu ali marginais, bandidos e viciados, como apontou o presidente.

E agora? Restam a Bolsonaro dois caminhos: entrar em confronto aberto ou baixar a bola. Tudo indica que, apesar do apoio dos militares de seu entorno, ele não tem o respaldo das Forças Armadas para encenar um jogo mais pesado neste momento – sobretudo se o Supremo Tribunal Federal e o Congresso mantiverem o diapasão moderado da semana passada. E tudo indica que vão manter, já que as ruas começam a ter o protagonismo do processo – o que deixa as instituições na confortável posição de seguir a onda popular.

Do ponto de vista racional – o que não costuma ser o seu forte – só resta ao presidente da República a segunda opção: baixar a bola e acomodar-se com os outros poderes, rezando para que o isolamento da pandemia retarde ao máximo a eclosão das multidões nas ruas. Pode até dar certo por algum tempo. Mas, agora que abriram a garrafa, não há mais como botar o gênio lá dentro de novo.

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