O inimigo do meu inimigo é meu amigo

Não vou me dar ao trabalho de nominar os companheiros que se colocaram a favor do Talibã. Cada um com a sua ideologia e a sua coerência, mas lamento que eles assim o façam. Lamento por suas esposas e filhas, que como mulheres, sabem o valor da conquista das mulheres afegãs que agora se perdem

www.brasil247.com - Mulheres em Cabul, capital do Afeganistão
Mulheres em Cabul, capital do Afeganistão (Foto: Reuters)


E o Talibã ocupou Cabul. Quem de esquerda comemorou foram homens. Não vi até agora nenhuma mulher de esquerda comemorando a volta deles e da Xaria no agora Emirado Islâmico do Afeganistão.

Para os que não sabem. A Xaria é o corpo da lei religiosa islâmica. Ao pé da letra significa "caminho para a fonte d'água". É a base legal na qual os aspectos públicos e privados da vida do muçulmano são regulados, para aqueles que vivem sob um sistema legal baseado na fiqh (os princípios islâmicos da jurisprudência) e para os muçulmanos que vivam fora do seu domínio. A Xaria lida com vários aspectos da vida quotidiana de um muçulmano, tais como a economia, família, sexualidade, política e aspectos sociais.

Apresentado desta maneira até parece algo normal como as leis que regem as sociedades modernas. Não fosse o tempero religioso, alguém poderia dizer que não teria problema em viver baixo a Xaria. Para se ter uma ideia melhor do que isto significa, precisamos nos aprofundar um pouco mais.

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O livro sagrado dos muçulmanos é o Alcorão e ele serve de base legal no que tange a justiça. Acontece que como a Bíblia ou a Torá, pode-se interpretar o que está escrito de várias maneiras, a depender de quem faz a leitura, principalmente de acordo com quem está governando.

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No primeiro período do Talibã no poder, as mulheres foram violentamente discriminadas. Eram obrigadas a usar a Burka e a obedecerem ao marido. Estavam proibidas de estudar e de trabalhar. Um homem poderia casar com uma menina de 9 anos, aliás com várias, já que a poligamia era aceita. O poder era exercido de forma patriarcal e exercido com uma interpretação radical do Alcorão e da Xaria. Ruim para as mulheres e pior ainda para as minorias, especialmente as LGBTs. Agora que voltaram ao poder depois de 20 anos, devem governar da mesma forma do que antes.

Eu acredito nos princípios humanistas do socialismo, na livre determinação dos povos, nos direitos das minorias, no respeito aos Direitos Humanos, da lei igual para todos, na solidariedade humana. Isto é o que me torna diferente de um Bolsonaro e seus asseclas. Eles não se preocupam com nada disso. A sociedade é uma grande meritocracia. Ricos e pobres são parte de uma sociedade onde cada um cumpre o seu papel.

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Então se faz legítima a pergunta: como é que alguém de esquerda pode apoiar o Talibã? Simples, vão responder alguns. Comemoram a derrota do imperialismo americano, as favas com as consequências. O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Simples assim.

É sabido que tanto na direita, como na esquerda, existem diferenças ideológicas. Alguns partidos estão voltados mais para o centro, outros mais para os extremos. No entanto, as linhas básicas que diferenciam uns e outros são as mesmas. Por exemplo, todos que se alinham com a direita acreditam no liberalismo e todos que se alinham com a esquerda, acreditam no socialismo. Em comum aos dois, por exemplo, a crença em um sistema de justiça sem ideologia e na separação entre a religião e o estado. Claro que existem exceções.

Nós do campo da esquerda não concordamos com a ingerência de um país nos assuntos de outro. Aliás, muita gente de direita também não. Por isso somos contra que uma potência invada e ocupe outras nações, como o fazem os EUA isoladamente, ou na companhia de outros países, como fazia a União Soviética e como faz a Rússia, cada um com suas razões.

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Os EUA invadiram o Afeganistão sob o governo do Talibã que abrigava e dava suporte a grupos terroristas como a Al Qaeda. Antes deles, a União Soviética também já tinha invadido o país para colocar no governo alguém que lhes fosse mais simpático. Os soviéticos estiveram por lá durante 10 anos e os americanos por 20. Antes destes dois, a Inglaterra também esteve por lá. Interessante que estes que comemoram a derrota dos EUA não terem mencionado nada a respeito da derrota soviética anterior.

Eu compreendo o terror que se instalou nas mulheres afegãs. Eu vi a corrente de solidariedade de mulheres do mundo inteiro com elas. O mundo está sendo varrido por uma onda de apoio àquelas mulheres que estão temendo pelo retrocesso a que vão estar sendo submetidas em breve. Ninguém na esquerda poderia estar apoiando isso. Ninguém mesmo? Existem exceções.

Não vou me dar ao trabalho de nominar os companheiros que se colocaram a favor do Talibã. Cada um com a sua ideologia e a sua coerência, mas lamento que eles assim o façam. Lamento por suas esposas e filhas, que como mulheres, sabem o valor da conquista das mulheres afegãs que agora se perdem.

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As notícias que chegam do Afeganistão não são nada boas. As promessas de anistia geral, de respeito ao direito das mulheres ao estudo e ao trabalho, estão saindo da retórica para as práticas antigas. Cenas de torturas e assassinatos contra aqueles que trabalharam para as forças estrangeiras começam a correr o mundo. Por outro lado, a Liga do Norte, tradicional inimiga do Talibã se organiza para enfrentar o novo regime. No andar da carruagem estamos assistindo o raiar de mais uma possível guerra civil afegã.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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