O intervencionismo geopolítico imperialista na América Latina, na África e na Ásia

Essas nações são o foco, a caça, o objeto precioso a ser conquistado e vilipendiado pelas ambições imperialistas em qualquer lugar do planeta

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Por Ivanildo di Deus Souto

O intervencionismo geopolítico imperialista ultra-continental, na Era do Capitalismo, consolidou-se com o advento do capitalismo mercantil, via projeto das grandes navegações marítimas empreendido pelos impérios europeus do final do século XV: Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica e Alemanha.    

A sede pela conquista de outros territórios além-mar atingiu os continentes americano, africano e asiático e os seus povos nativos. Com a chegada dos europeus, a configuração identitário-cultural e a estrutura político-sócio-econômica das nações vitimadas pelo processo colonialista se alterariam substancialmente e jamais seriam as mesmas. O colonizador impôs o seu modo padrão de produzir, de sentir, de ver o mundo; impôs sua cultura eurocêntrica pela opressão, exploração, espoliação, escravização e vilipendiamento das riquezas e da mão-de-obra dos ameríndios, africanos e asiáticos.

O corolário do processo intervencionista-geopolítico-imperialista foi condenar a totalidade desses povos ao subdesenvolvimento e a degradantes condições sócio-econômicas. Após mais de cinco séculos, mesmo tendo conquistado sua Independência, esses povos jamais conseguiram romper com as barreiras da opressão e do jugo imperialistas e se mantêm em estágios civilizatórios e tecnologicamente precários, ocorrendo exatamente o contrário com as atuais sociedades imperialistas, como a estadunidense.

E é esse o retrato “nu e cru” da quase totalidade das nações latino-americanas, africanas e asiáticas no limiar da terceira década do século XXI: são sociedades parcamente industrializadas; suas economias calcam-se na produção primária, de matérias-primas, e caracterizam-se por serem, na estrutura do sistema capitalista internacional, economias periféricas primário-exportadoras. 

Considere-se que, numa perspectiva de ressignificação soberanânica e fugindo ao establishiment imperialista, na América Latina, na África e na Ásia há algumas nações soberanas, tanto desenvolvidas quanto subdesenvolvidas. Na América Latina, por exemplo, tem-se Cuba e Venezuela, vilipendiadas por embargos comerciais, financeiros e econômicos determinados pelo Imperialismo Estadunidense; há, também, a Bolívia, ainda subdesenvolvida e onde, em 2020, intensas e contíguas manifestações populares contra-golpearam o Imperialismo Estadunidense, derrubaram o governo golpista provisório de Jeanine Ãnez e elegeram a presidente o líder nacionalista de esquerda Luís Arce. No ano anterior, diga-se, o Imperialismo Estadunidense promoveu um golpe híbrido, fundamentado na apropriação do lítio, e destituiu Evo Morales da presidência. O golpe foi escancarado na pedante declaração de Elon Musk, em sua conta no Twiter, dono da empresa estadunidense TESLA, fabricante de carros elétricos e baterias industriais à base de lítio-íon: “vamos dar golpe em quem quisermos”, disse. (1) Na África, tem-se, como exemplo, a África do Sul, 34º economia do mundo, nação emergente e integrante do grupo BRICS. São exemplos Na Ásia, o Império Chinês, desenvolvido e industrializado, a Rússia e a Índia, nações emergentes, integrantes do BRICS e, respectivamente,  ocupando a segunda, a sexta e décima primeira posição no ranking das grandes economias mundiais.(2)

Mas são características comuns à quase totalidade das sociedades latino-americanas, africanas e asiáticas: soberania fragilizada, classes dominantes anti-nacionalistas, colonialistas e imperialistas, forças armadas anti-nacionalistas e serviçais ao imperialismo, governos autoritários (fascistas, corruptos e anti-nacionalistas), judiciário elitista e parcial, democracia liberal com ínfima representação popular, economia primário-exportadora e parcamente industrializada, produto interno bruto de baixa densidade econômica no ranking internacional, subdesenvolvimento crônico, educação básica pública de qualidade precária, estrutura fundiária centrada em imensos latifúndios, elevados níveis de concentração de renda, de desigualdade e de injustiça social, racismo e machismo estruturais. Assim, são sociedades onde sobrepujam-se graves problemas sociais: desemprego, analfabetismo, favelização, epidemias, violência, trabalho infantil, trabalho escravo, prostituição infanto-juvenil, racismo, machismo, elevados índices de feminicídio, etc.

Tais características revelam a desoladora realidade político-econômico-social do “Terceiro Mundo”, rótulo pejorativo, cunhado e imposto às nações latino-americanas, africanas e asiáticas subjugadas e subdesenvolvidas pelas ações imperialistas, sejam elas pelo Imperialismo Estadunidense, sejam pelo Imperialismo Europeu, sejam pelo Imperialismo Japonês. O “Terceiro Mundo”, na ótica imperialista, compõe-se de um conjunto de nações nascidas e crescidas para serem apenas fornecedoras, expatriadoras das suas próprias riquezas, dos seus recursos naturais estratégicos a esses impérios; para serem seus territórios apenas “gigantescos quintais”, “imensas lavouras” e “colossais fazendões do agronegócio”; para servirem de “abismais campos de concentração de pobreza, de fome e de miséria”, onde seus povos são condenados à condição de escória humana. Ao imperialismo, as nações do “Terceiro Mundo” não podem jamais tornar-se soberanas e nem desenvolvidas e os seus povos empoderados político-sócio-economicamente. 

Embora subjacentemente, tais características revelam ainda a permanente, contínua e contígua ação imperialista para manter o desolador status quo das nações latino-americanas, africanas e asiáticas. O projeto imperialista está em constante rota de colisão para anular quaisquer tipos de resistência que possam levar à soberanização e ao desenvolvimento dessas nações. Mantê-las sob sua égide e jugo opressores é condição alicerçal à existência imperialista. Só existe imperialismo enquanto existirem nações dessoberanizadas e subdesenvolvidas que possam ser oprimidas e exploradas. O imperialismo, portanto, redunda-se em opressão, dominação, espoliação e marginalização.

Sendo onipresente e atemporal, o projeto imperialista para promover o solapamento da soberania e a subjugação das nações latino-americanas, africanas e asiáticas revitaliza-se a cada dia, recria-se, reinventando planos e estratégias de intervencionismo geopolítico. Assim, o imperialismo reveste-se de múltiplas faces, camufla-se, metamorfoseia-se e distorce frágeis perspectivas de resistência e de luta; seu projeto, então, estrutura-se na sua afirmação (tese) e na destruição de formas à sua resistência (antítese).

Como detentoras do poder político-econômico, as forças imperialistas tendem a ter maior viabilidade de reprodução e ação; utilizam-se das instituições públicas e privadas e de processos sórdidos, maléficos e satânicos à perpetuação dos seus interesses. Nisto, a estabilidade institucional das nações latino-americanas, africanas e asiáticas, o equilíbrio dos ecossistemas regionais e a vida dos seus povos é o que menos importa. É o imperialismo como “suposta entidade onipresente”, acima do bem e do mal, de tudo e de todos.

Não é salutar, porém, conceber-se o imperialismo neoliberal como tal “entidade onipotente”, “imbatível”, “indestrutível”. O imperialismo neoliberal tem “super-estrutura” e “infra-estrutura”; tem “espinha dorsal institucional”, e, como modo de produção hegemônico no mundo contemporâneo, o neoliberalismo provou ser completamente ineficaz a quaisquer perspectivas de estabilidade político-econômico-sócio-ambiental e ao combate às injustiças sociais, principalmente às nações latino-americanas, africanas e asiáticas. 

Se o intervencionismo geopolítico-imperialista-neoliberal consiste em ações netraulizadoras potencializadas e contrárias a quaisquer projetos de soberanização e desenvolvimento das nações emergentes economicamente ou detentoras de  punjantes reservas de recursos naturais estratégicos ou, ainda, com perfis políticos anti-imperialista-neoliberal, essas nações são o foco, a caça, o objeto precioso a ser conquistado e vilipendiado pelas ambições imperialistas em qualquer lugar do planeta.

Se, e entretanto, observadas as ações intervencionistas geopolíticas-imperialistas mundo afora, constatar-se-á um viés nacionalista enraizado e sedimentado pelos povos vitimados por elas: nunca, na história, as nações subjugadas aceitaram passivamente as determinações colonialistas; ao contrário, criaram formas de resistência e luta ante o projeto imperialista e, em inúmeros casos, derrotaram-no, reafirmando e impondo sua soberania.   

Fontes:

  1. www.brasildefato.com.br/2020/07/25/;
  2. www.austin.com.br/Midia/03-03-2021/        

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