O jogo de sombras de Viena

Nenhum dos atores admitem que a reativação do JCPOA empalidece frente à verdadeira questão: o poderio dos mísseis iranianos

(Foto: Reprodução)
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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Fora os especialistas, poucas pessoas já ouviram falar da Comissão Conjunta do JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global). Esse é o grupo incumbido da sisífica tarefa de reativar o acordo nuclear do Irã de 2015 por meio de uma série de negociações a terem lugar em Viena.

A equipe negociadora iraniana voltou a Viena ontem, chefiada pelo Chanceler-Adjunto Seyed Abbas Araghchi. O jogo de sombras começa com o fato de os iranianos negociarem com os outros membros do P + 1 - Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha - mas não diretamente com os Estados Unidos.

Isso é algo digno de nota: afinal, foi o governo Trump que explodiu o JCPOA. Há uma delegação americana em Viena, mas eles só conversam com os europeus.

O jogo de sombra se turbina ao máximo quando todas as mesas de todos os cafés vienenses conhecem perfeitamente as linhas vermelhas de Teerã: é ou o retorno ao JCPOA original, da forma como ficou acordado em 2015 em Viena, e em seguida ratificado pelo Conselho de Segurança da ONU, ou nada. 

Araghchi, gentil e cortês, teve que, mais uma vez, se manifestar publicamente para  ressaltar que Teerã irá se retirar caso as conversas descambem para "intimidações",  perda de tempo ou mesmo para o passo a passo de dança de salão, o que equivale a perda de tempo em uma outra terminologia.

Nem abertamente otimista nem pessimista, ele continua, digamos, cautelosamente animado, pelo menos em público: "Não estamos decepcionados e faremos nosso trabalho. Nossas posições são claras e firmes. As sanções têm que ser  retiradas, verificadas, e então o Irã reassumirá seus compromissos". 

Então, pelo menos em tese, o debate ainda está em curso. Araghchi: "Há dois tipos de sanções dos Estados Unidos contra o Irã. Primeiro as sanções categorizadas, as chamadas sanções divisionais, tais como sanções sobre petróleo, serviços bancários e de seguros, navegação cargueira, petroquímicos, construção civil e automóveis e, em segundo lugar, sanções contra pessoas físicas e jurídicas". 

Essas "segundas" são o ponto crucial. Não há absolutamente nenhuma garantia de que o Congresso dos Estados Unidos venha a retirar a maioria ou, pelo menos, parte significativa dessas sanções. 

Todos em Washington sabem disso – e a delegação dos Estados Unidos também sabe. 

Quando o Ministério das Relações Exteriores em Teerã, por exemplo, diz que 60% ou 70% das sanções foram retiradas, trata-se de linguagem-código para a retiradas das sanções divisionais. No que se refere às "segundas", Araghchi vê-se obrigado a ser evasivo: "Nessa área temos questões complexas que estamos examinando".  

Compare-se isso à avaliação dos bem-informados insiders iranianos em Washington, tais como o especialista em política nuclear Seyed Hossein Mousavian:  eles estão mais para realistas pessimistas.

Essa opinião leva em conta as linhas vermelhas não-negociáveis estabelecidas pelo próprio Líder Supremo Aiatolá Khamenei. Além das incessantes pressões de Israel, Arábia Saudita e da União dos Estados Árabes, todos eles contrários ao JCPOA.

Mas há também um outro um jogo de sombras. A inteligência israelense já notificou o gabinete de segurança de que há grande probabilidade de que se chegue a um acordo em Viena. Afinal, a narrativa de um acordo exitoso já vem sendo construída como uma vitória política pelo governo Biden-Harris - ou, como preferem is cínicos, o Obama-Biden 3.0.

Enquanto isso, a diplomacia iraniana continua a todo o vapor. O Chanceler Javad Zarif está de visita a Catar e ao Iraque, já tendo se encontrado com o Emir de Catar, o Xeique Tamim al Thani.

O Presidente iraniano Hassan Rouhani, praticamente ao fim de seu mandato, antes das eleições presidenciais de junho, sempre retorna ao mesmo ponto: o fim das sanções dos Estados Unidos, verificação pelo Irã, e então o Irã voltará a suas "obrigações nucleares".

O Ministério das Relações Exteriores chegou mesmo a publicar uma ficha técnica bastante detalhada, ressaltando a necessidade de suspender "todas as sanções impostas, reiteradas e re-classificadas desde 20 de janeiro de 2017".

A janela de oportunidade para um acordo não irá durar muito. A linha-dura de Teerã não liga a mínima. Pelo menos 80% dos parlamentares, em Teerã, são agora de linha-dura. O próximo presidente com toda a certeza será um deles. Os esforços da equipe Rouhani passaram a ser vistos como fracassados desde o início da campanha de "pressão máxima" de Trump. A linha-dura já funciona em modo pós-JCPOA.

Aquele fatídico Fateh

O que nenhum dos atores desse jogo de sombras admite é  que a reativação do JCPOA empalidece frente à verdadeira questão: o poderio dos mísseis iranianos.

Nas negociações originais de Viena, de 2015 - que podem ser acompanhadas em meu e-book Persian Miniatures – Obama-Biden 2.0 fizeram tudo o que estava a seu alcance para incluir os mísseis no acordo.

Cada grão de areia do deserto de Negev sabe que Israel se lançará a um vale-tudo para manter sua primazia em termos de armas nucleares no Oriente Médio. Graças a um espetacular kabuki, o fato de Israel ser uma potência nuclear  continua "invisível" para grande parte da opinião pública mundial. 

Como Khamenei decretou uma fatwa afirmando claramente que a produção, o estoque e o uso de armas de destruição em massa - inclusive as nucleares - é haram (proibido pelo Islã), as lideranças de Israel sentem-se livres para ordenar estripulias tais como a sabotagem do complexo nuclear (civil) iraniano pela Mossad, em Natanz.

O chefe da Comissão de Energia do Parlamento Iraniano, Fereydoun Abbasi Davani, chegou mesmo a acusar Washington e Londres de cumplicidade com a sabotagem em Natanz, uma vez que é possível afirmar que Estados Unidos e Reino Unido tenham fornecido informações a Tel Aviv.

Mas, agora, um míssil solitário vem literalmente explodindo boa parte do jogo de sombras. 

Em 22 de abril, na calada da noite, logo antes do alvorecer, um míssil sírio explodiu a apenas 30 quilômetros do ultra-sensível reator nuclear israelense de Dimona. A versão oficial - e insistentemente repetida - de Israel foi: tratava-se de um míssil "errante".  

Bem, não exatamente.

Aqui – o terceiro  vídeo da lista - vai uma filmagem da explosão bastante significativa. Também é significativo que Tel-Aviv tenha permanecido em total silêncio no que se refere à prova da identificação do míssil. Seria um antigo SA-5 1967 soviético? Ou, o que é bem mais provável, um Fateh-110 2012 iraniano de curto-alcance superfície-a-superfície fabricado na Síria como M-600 e possuído também pelo Hezbolá?Uma árvore genealógica do Fateh consta da tabela anexa. O inestimável Elijah Magnier colocou algumas ótimas perguntas sobre o disparo quase certeiro em Dimona, complementadas por mim com discussões altamente esclarecedoras com físicos e contribuições de um especialista em inteligência militar.

O Fateh-110 opera como um míssil balístico clássico até o momento que a ogiva começa a manobrar para escapar às defesas ABM. A precisão é até 10 metros, e nominalmente de 6 metros. De modo que o míssil atingiu exatamente o alvo pretendido. Israel confirmou oficialmente que o míssil não foi interceptado - após uma trajetória de aproximadamente 266 quilômetros.

O que abre um balaio de gatos novo em folha e implica que o desempenho do badaladíssimo e recentemente modernizado  Iron Dome está longe de ser espetacular – e põe eufemismo aí. O Fateh voou tão baixo que o Iron Dome não conseguiu identificá-lo.

A conclusão inevitável é que o que ocorreu foi um combo de mensagem/advertência. Vinda de Damasco. Com o selo pessoal de Bashar al-Assad, que tinha que autorizar um lançamento de míssil tão sensível. Uma mensagem/advertência enviada por meio da tecnologia de mísseis iraniana, totalmente acessível ao Eixo da Resistência - provando que os atores regionais são plenamente capazes de ataques indetectáveis.  

É de importância crucial que nos lembremos de que quando Teerã, deliberadamente, despachou uma saraivada de versões mais antigas do Fateh-313 para a base norte-americana de Ayn al-Assad, no Iraque, em resposta ao assassinato do General Soleimani, em janeiro de 2020, os radares americanos nada acusaram.

A tecnologia de mísseis iraniana como poderosa arma de dissuasão estratégica. Bem, esse é o jogo de sombras que transforma Viena em atração secundária.

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