O jogo dos derrotados

A malversação do dinheiro público se dá por uma razão simples: há interesses comuns entre corruptos e corruptores. Ninguém, nesse caso, é menos ou mais culpado

Os holofotes da mídia brasileira estão voltados para a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que apura supostas irregularidades cometidas por empresas, empresários, políticos e dirigentes da Petrobras. Informações da própria PF garantem que os contratos envolvidos no esquema somam quase R$ 60 bilhões. Segundo a PF, o conluio entre as partes "perdurou por vários anos no Brasil, de forma que (...) propiciou que as empresas fraudassem centenas de licitações, gerando prejuízos bilionários" e gerou "o estabelecimento e direcionamento dos consórcios, com a divisão do mercado e o preço final superfaturado, onde foi incluído o valor do 'ajuste' a ser desviado e repassado aos agentes públicos." Trocando em miúdos: a farra com dinheiro público perdura há décadas.

Uma condição necessária para discutir com seriedade essa questão é que os atores que participam ou participaram dessa ópera bufa, sem exceção, tirem a máscara da hipocrisia. Todos conhecem – ou conheciam - muito bem como funciona a relação incestuosa entre governo e iniciativa privada. Não há ingênuo nesse jogo. O modelo do "toma lá, dá cá" não começou agora; muito menos no governo do PT; mas vem de anos a fio. A promiscuidade entre o público e o privado sempre fez parte desse prélio. Os interesses perdulários fazem bem tanto aos bolsos de servidores públicos desonestos como empresários inescrupulosos.

Ainda de acordo com a Polícia Federal, as empreiteiras e os políticos formavam uma ligação simbiótica que "implica uma inter-relação de tal forma íntima entre os organismos envolvidos que se torna obrigatória". Assim, conclui que, tamanho é "o intrincado relacionamento da organização criminosa" que "por vezes é difícil distinguir quem foi o corrupto e quem foi o corruptor".

O surpreendente é o cinismo com que alguns homens públicos se eximem de qualquer responsabilidade. Entre eles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que veio a público para dizer que sentia "vergonha" pelo que acontece no Brasil. O que não explica o sociólogo é que, em 1997, quando era presidente da República, promoveu a abertura do mercado brasileiro de petróleo e, com isso, a Agência Nacional do Petróleo, à época presidida pelo seu ex-genro, David Zylberstajn, fragilizou os critérios de governança da Petrobras para beneficiar às empresas estrangeiras do setor energético. Assim, a empresa passou a ter o direito de contratar sem licitações.

Data deste período a sinecura crescente nas relações entre corruptos e corruptores. Certamente que um fato não justifica outro. Atribuir os escândalos de hoje a consequências do passado seria minimizar a capacidade de raciocínio da sociedade, mas, sem dúvida, há uma relação de causa efeito que perdura até nossos dias.

A corrupção não é uma prática exercida apenas no território verde-amarelo. Trata-se de uma patologia imoral que perdura há séculos. O que diferencia um país de outro é a forma como o Poder Judiciário age e pune os envolvidos, ou o modelo de gestão que os governos adotam para coibir seus servidores de se envolver em negociatas. A corrupção é, antes de tudo, um ato isolado e pessoal. Ser corrupto é uma decisão íntima e solitária. Os governos, dada a fragilidade de suas ações ou em casos onde os donos do poder são coniventes, apenas propiciam condições para que essa mazela se alastre.

A malversação do dinheiro público se dá por uma razão simples: há interesses comuns entre corruptos e corruptores. Ninguém, nesse caso, é menos ou mais culpado. Ambos fazem parte do mesmo elo e apenas se interpõem numa cadeia de roubo, desvios de dinheiro e falcatruas que os iguala perante os tribunais.

O fato de termos saído há poucos dias de um processo eleitoral acirra ainda mais o debate. De um lado os abusos são cometidos com a finalidade de abastecer caixas de campanhas políticas de todos os partidos e candidatos e, de outro, a corrupção pura e simples que transforma servidores, empresários e altos executivos em milionários.

Na opinião do jornalista Paulo Moreira Leite, apenas "uma investigação que não poupa aliados nem amigos pode levar o país a realizar uma mudança necessária em seus costumes políticos". Para ele, fingir que há bons e maus, limpos e contaminados, é a melhor forma para manter tudo como está e sempre esteve.

Entre corruptos e corruptores não há vitorioso. Só derrotados.

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