O Jornalismo Brasileiro de Uma Nota Só

O que fez a bancada do Roda Viva em maioria jovem e bem colocada em grandes veículos de imprensa? Chegaram todos com um único viés, como se estivessem ali em um jogral para repetir a mesma pergunta de diversas maneiras, um viés ditado pela editoria da emissora e claramente combinado com os entrevistadores.

Imagine que você é um jovem jornalista, a maioria da bancada do Roda Viva na entrevista do Glenn Greenwald estava na faixa entre trinta e quarenta anos, e está diante de um dos maiores jornalistas do mundo, em meio a um dos fatos jornalísticos mais importantes da atualidade que operou um golpe de estado, derrubou uma presidente eleita, destruiu a economia de um grande país, aboliu o estado de direito, sequestrou a liberdade de várias pessoas ainda não condenadas, levou um ex-presidente e líder mundial à prisão, fraudou uma eleição e elegeu um protofascista. Um fato de tamanha gravidade, já que falamos da oitava economia mundial e de um país rico em recursos naturais, que causa perplexidade no mundo todo. 

O que motiva um jornalista de qualquer idade em seu trabalho? Pesquisar  o assunto, descobrir quais informações mais relevantes esse fato pode conter, descobrir um fato novo em meio ao que foi publicado, um viés que passou despercebido, uma linha de investigação, esmiuçar tudo o que há por trás desse fato, fazer uma análise profunda, produzir um artigo bem fundamentado ou uma boa entrevista, apontar reais contradições se houver, como se atestou a veracidade do material, quanto tempo demandou isso, como se define o que é divulgado a cada semana, principalmente discutir o conteúdo do que foi divulgado, e outras coisas pertinentes ao bom jornalismo.

O que fez a bancada do Roda Viva em  maioria jovem e bem colocada em grandes veículos de imprensa? Chegaram todos com um único viés, como se estivessem ali em um jogral para repetir a mesma pergunta de diversas maneiras, um viés ditado pela editoria da emissora e claramente combinado com os entrevistadores. Para se ter um paralelo, imaginem que fosse o caso Snowden, o maior escândalo de espionagem mundial em que se descobre que o serviço de inteligência americano, através de hackiamento de servidores de internet e telefones, espionava milhões de pessoas em todo o mundo, chefes de estado, ministros, presidentes, autoridades, ou qualquer cidadão do planeta. Um crime de proporções incalculáveis que produziu quedas de governos, assassinatos, rebeliões, uso de informações sigilosas, tráfico de influencias, enfim, imaginem a mesma bancada entrevistando o Glenn Greenwald, ignorando todas essas consequências e tentando o tempo todo incriminar Glenn pelo fato do mesmo ter obtido essas informações de um suposto hacker. Isso já seria um contrassenso e falta de tino profissional absurdo, mas a coisa vai além, quando você já é um profissional qualificado em uma grande empresa como os jornalistas que estavam ali e, ou por ignorância (o que é meio inacreditável), ou por cabresto editorial, se fazem de ignorantes com tamanho e insistente afinco, sem nenhuma relutância profissional, ética, resquício de vergonha intelectual que seja. Foi o que vimos na entrevista do Roda Viva, e é o que temos visto em toda a grande imprensa brasileira há anos e anos: o súdito mais real que a realeza, o jornalista, ao defender os interesses do patrão, sendo mais desonesto que o patrão.

Todos se perguntaram ao despertar desta terça feira - mas o que aconteceu com o jornalismo do país, o que será que essas escolas ensinam para formar pessoas tão pouco ambiciosas no sentido da qualidade profissional e ética? Não sabemos ao certo em que momento o jornalismo brasileiro começou esse processo de degradação e aonde recai essa culpa, talvez seja o monopólio das grandes empresas que dominam a oferta de trabalho aliado ao baixo nível do ensino no país, precisaria um estudo mais profundo para se chegar a uma conclusão precisa. 

A conclusão, por hora, que se pode tirar é que, nem vou citar os nomes porque essa gente não tem nome, mas são todos iguais, como a mesma pergunta e narrativa que repetiram durante toda a entrevista. Essa técnica batida e rebatida de tentar afirmar uma narrativa e depois condicionar uma pergunta, pratica que demostra que o “grande repórter” não quer saber nada, descobrir nada, entender nada, perguntar nada, quer apenas afirmar a narrativa encomendada pelo patrão. 

Em todos os casos abrem mão de qualquer vergonha, vaidade e ambição profissional. Argumentam como se não conhecessem os princípios básicos do jornalismo, da lei de imprensa, de premissas básicas como o sigilo da fonte, e insistem nisso durante toda a entrevista, demonstram não terem estudado ou não terem interesse nenhum sobre as informações trazidas à tona pela “Vaza Jato”, uma conspiração que destruiu o sistema político, o estado de direito, a economia, a engenharia nacional, e elegeu a extrema direita fascista. 

Os jornalistas convidados ao Roda Viva demonstraram ou fingiram não conhecer como funciona o processo penal do país, a constituição, assunto central de uma entrevista como essa, falta de vergonha pouca é bobagem, como se diz por aí.

Ao entrevistar um jornalista de relevância sobre um fato que reporta à corrupção do interior do poder judiciário e do sistema de justiça, demonstraram ou fingiram não conhecer temas atuais que estão conturbando a geopolítica mundial como as guerras híbridas que se dão precisamente pela apropriação do poder judiciário e pela manipulação e espionagem na internet e meios de comunicação. 

Nem mesmo o fato de estarem frente a um jornalista como Glenn que arrebatou os prêmios internacionais mais importantes do mundo, nem mesmo o fato de estarem frente a um profissional que teve a coragem de desafiar o império americano, a rede de espionagem internacional, e esse estado de exceção fascista que se instalou no Brasil, ao oligopólio de mídia nacional que já destruiu tanta gente e levou um presidente à cadeia, nada disso produziu na bancada do Roda Viva qualquer constrangimento em fazer aquele papel. Estão tão acostumados a esse baixo jornalismo de guerra e fake News, narrativas pré-estabelecidas pelos editores que perderam a noção da essência da profissão. Nenhuma dessas preocupações evitou as pérolas que foram perguntadas durante a entrevista:

Não são palavras exatas, é um apanhado do que me lembro:

- o senhor não acha que seria melhor demitir todos os seus empregados e contratar hackers?

Glenn – Não, porque a lei não permite que eu invada a privacidade e o sigilo das pessoas, ela só me permite publicar notícias de interesse público, oriundas de qualquer fonte que seja: legal ou ilegal, como é no mundo todo.

- o senhor não acha que está cometendo os mesmos crimes que critica da Lava Jato ao publicar noticias obtidas de maneira ilegal?

Glenn - não, eu estou agindo dentro da lei de imprensa desse país, os procuradores são autoridades do estado e não lhes é permitido vazarem informações sob sigilo de justiça, eu não só posso como tenho a obrigação de publicá-las.

- o Senhor, “independente das leis”, não age da mesma maneira que critica na Lava jato ao vazar informações sob sigilo de justiça?

Glenn – não, a grande mídia vaza informações sem confirmá-las para destruir reputações e condenar pessoas pela opinião pública. Nós investigamos tudo rigorosamente até confirmar as informações antes de publicá-las.

- o senhor não acha que a corrupção da Lava Jato é maior que a corrupção da Vaza Jato e o prejuízo será maior para a sociedade ao combater a Lava Jato?

Glenn – não, corrupção é corrupção, eu não estou combatendo nada, estou contribuindo para que seja mais justa e menos corrupta, não se combate corrupção com mais corrupção, nem corruptos com pessoas corruptas.

- o senhor não acha que um processo como o do Lula avalizado por duas instancias e pelo tribunal superior de justiça tem credibilidade acima de qualquer dúvida?

Glenn - Não, se o processo saiu contaminado da primeira instancia perde o valor nas outras instancias também por vício de origem, isso é coisa básica do processo penal.

E assim caminha o jornalismo brasileiro de uma nota só, de tanto perder a vergonha perdeu a noção da própria finalidade com ela.

Teju Franco Compositor e Jornalista

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