O jornalismo está morto

O linguista Gustavo Conde faz uma análise técnica de um titulo de manchete do jornal Folha de S. Paulo. Conde afirma que os parâmetros de confecção de texto das grandes redações está defasado e que, diante do grande colapso político provocado por Bolsonaro, esse problema fica mais evidente. Para Conde, o jornalismo, tal qual o conhecemos um dia, está inexoravelmente morto.

E o nosso jornalismo de laboratório formulado pela elite que, por sua vez, elabora as grades curriculares dos cursos de jornalismo Brasil afora, produz essa pérola, via Folha de S. Paulo:

"Bolsonaro acumula ações de governo que retaliam quem ele considera desafeto"

Difícil dizer "Bolsonaro promove retaliações contra desafetos"?

Ou "Bolsonaro persegue desafetos no governo"?

Essa eufemização dos jornais tradicionais é a melhor explicação para o nosso atual cenário no discurso político: a elite cheirosa, leitora passiva da Folha, tem pudores com enunciados diretos. Dói nela, coitada.

São os eleitores de Bolsonaro envergonhados que precisam de ginástica retórica para processar um texto ou mesmo para se re-identificarem diante do vexame que foi eleger um pária genocida semi-letrado.

A Folha e o jornalismo "factual" (cof, cof) oferecem essa "iguaria" para o mundo gastronômico da interpretação de texto e do autoflagelo intelectual assistido: a cena tétrica de ver Bolsonaro protegido por construções gramaticais assépticas.

"Bolsonaro [acumula ações de governo que retaliam quem ele considera] desafeto."

Reparem a distância de [Bolsonaro] e [desafeto]. Três verbos os separam, três orações com seus respectivos vazios sintáticos preenchidos mentalmente até pelo menos esforçado leitor da Folha de S. Paulo (é um preenchimento universal).

Há portanto, além dos três verbos, três sujeitos e três objetos, todos encadeados. Dois sujeitos são [Bolsonaro], e um é [ações de governo]. Há um processo de 'neutralização', de 'enfraquecimento gramatical' do sujeito principal: quem "retalia" é a [ação].

Um vexame semântico.

Mas o leitor envergonhado de si precisa dessa gramática da desculpa.

Todo o encadeamento gramatical que eufemiza - distancia - sujeito e objeto (Bolsonaro e desafeto), opera como a Lava Jato operou com os tucanos: blinda, protege, esconde.

É como um cinturão de seguranças que impede a aproximação ao "presidente".

Esse é o jornalismo da Folha.

E cá entre nós: que vergonha praticar esse tipo de trabalho de redação que nem poderia ser chamado de jornalismo (ou, a palavra 'jornalismo' já deu o que tinha que dar e deve ser trocada por outra - para ver se um sentido mais 'contemporâneo' e verdadeiramente técnico vem a reboque).

Não é a toa que a maioria dos redatores desses grandes veículos falimentares estão todos infelizes. Nem é uma questão ideológica, é uma questão existencial.

Como trabalhar amordaçado? Como ser proibido de usar certas palavras? Afinal de contas, o que significa essa fraude conceitual que a gente chama de editoria?

O jornalismo, caras-pálidas, está morto.

Temos que inventar alguma coisa urgentemente para pôr no lugar.

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