Sergio Ferrari avatar

Sergio Ferrari

Jornalista latino-americano radicado na Suíça. Autor e coautor de vários livros, entre eles: Semeando utopia; A aventura internacionalista; Nem loucos, nem mortos; esquecimentos e memórias dos ex-presos políticos de Coronda, Argentina; Leonardo Boff, advogado dos pobres etc.

71 artigos

HOME > blog

O jornalismo na era das fake news

Apesar de suportar pressões e ameaças crescentes, o jornalismo de qualidade está se tornando cada vez mais imprescindível na defesa dos direitos essenciais

32º Congresso da Federação Internacional dos Jornalistas (Foto: Divulgação/Redes sociais)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Por Sergio Ferrari - Para atualizar a reflexão sobre a informação, durante quatro dias na primeira semana de maio, 300 representantes de 600 mil jornalistas dos cinco continentes reuniram-se em Paris, França, convocados pela Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) (https://www.ifj.org/es/quien/congreso-centenario-fip-2026).O 32º congresso da mais importante organização sindical em âmbito mundial celebrou seu próprio centenário, comparando os valores fundadores de 1926 com os desafios atuais, redescobrindo semelhanças e paralelos entre o passado e o presente, e avaliando os novos desafios para a profissão como resultado das próprias mudanças civilizacionais.

Em particular, identificando os desafios que os jornalistas enfrentam atualmente. Muitas delas são quase universais, como, por exemplo: a defesa do direito de produzir informações "objetivas" sem pressão do poder econômico, político ou judicial; as consequências negativas da concentração da mídia, assim como a exigência de poder reportar ativamente e sem censura em zonas de guerra ou conflitos. Além disso, o esclarecimento sobre a delicada fronteira entre contribuições positivas e ameaças à profissão resultantes da Inteligência Artificial; a importância da mídia pública diferenciando claramente o que é informação do que é propaganda, assim como a necessidade de uma proteção mais coerente às jornalistas contra todas as formas de assédio ou discriminação. Sem negar o desafio constante de diferenciar informações objetivas e profissionais de notícias falsas/fake news, que criam opiniões deturpadas com argumentos, fontes ou fatos distorcidos ou falsos.

Solidariedade essencialO apoio às/aos trabalhadoras/es da imprensa na Palestina – mais de 220 assassinados desde outubro de 2023 – e no Líbano, que devem atuar em condições repressivas desumanas e sob atentados permanentes, estiveram no centro da solidariedade expressada pelas/os delegadas/os reunidos em Paris. Da mesma forma, o apoio ao Sindicato dos Jornalistas do Iêmen "para enfrentar as forças e os movimentos que buscam silenciá-lo". Vozes a favor de ajudar a restabelecer o Sindicato dos Jornalistas Sudaneses ou de reviver a organização sindical iraniana também receberam amplo apoio.

Um apoio consensual que foi expressado na América Latina às mulheres e homens da imprensa no México, um dos países onde a profissão sofre as maiores agressões de poderes não institucionais e que, em geral, permanecem em quase total impunidade. De igual forma às/aos jornalistas na Sérvia, que são ameaçadas/os e perseguidas/os, assim como seus pares no Paquistão ou no Sri Lanka, que exigem trabalho digno e igualdade de gênero.

Da América do Sul, especificamente da Argentina, duas iniciativas receberam apoio unânime: solidariedade ao fotojornalista Pablo Grillo, que foi atacado e gravemente ferido durante uma mobilização, em março de 2025, pelas forças de segurança do governo de Javier Milei. E a rejeição à tentativa desse governo de revogar o Estatuto dos Jornalistas Profissionais (Lei 12.908), precarizando o trabalho e enfraquecendo a ação sindical.

Os protestos e demandas no mundo também são compensados por certas conquistas quase históricas, como o que foi recentemente vivido na Mauritânia, onde 1860 jornalistas foram regularizadas/os graças à mobilização sindical nacional com o apoio da FIJ, que desempenhou um papel decisivo na pressão internacional.

Jornalismo na mira em um mundo complexoTanto da América Latina quanto da Europa, inúmeras vozes se ergueram no conclave parisiense para alertar e denunciar o "avanço da direita neofascista" (segundo a Federação Latino-Americana, FEPALC) e para convocar à "luta contra a extrema-direita e o autoritarismo...", como argumentaram os sindicatos franceses em uma moção que conseguiu o consenso da Federação. A situação mundial, reforçada "pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, que expressa uma visão geopolítica que concebe o Sul global como um espaço subordinado" (segundo os argumentos da FEPALC), ocupa a preocupação unânime das/os jornalistas. O Congresso da FIJ lembrou o valor primordial da Carta Mundial de Ética, publicada em 2019 (https://www.ifj.org/es/quien/reglas-y-politica/carta-mundial-de-etica-para-periodistas), que, juntamente com os Estatutos da própria Federação e com inúmeras resoluções de organismos internacionais, como a UNESCO, defende a qualidade da informação sem quaisquer pressões.

As ameaças contra a profissão estão aumentando em muitas regiões do planeta, promovidas por "discursos de ódio e restrições", bem como ataques institucionais contra o jornalismo crítico e independente e as pressões das grandes potências econômicas para impedir a divulgação de certas informações. Essa tendência é agravada pela "criminalização do protesto social" expressada, sempre segundo a FEPALC, na acusação de líderes sindicais, estudantis e comunitários, bem como no uso de mecanismos estatais para assediar, deslegitimar ou perseguir aquelas/es que exercem direitos democráticos fundamentais.

Muito significativo na reunião parisiense foi o interesse unânime em discutir a crescente presença da Inteligência Artificial na atividade jornalística. O Comitê Executivo da Federação propôs uma moção aceita por consenso para que os sindicatos tenham uma "posição crítica e única" para facilitar o aproveitamento, o arcabouço econômico e a regulação desse potencial emergente. Enfatizou que a IA deve servir à criação de notícias imparciais e produzidas de forma ética, para o benefício da humanidade e de acordo com os princípios promovidos pela FIJ. Embora a discussão sobre essa ferramenta ainda esteja em uma etapa inicial e exija atenção principal da profissão nos próximos meses e anos, o Congresso especificou conceitos referenciais: opõe-se à desigualdade de acesso à IA entre regiões do planeta; questiona a falta de supervisão humana da IA, o que resulta em informações imprecisas e tendenciosas; assegura que qualquer trabalho que pretenda ser jornalismo deve ser responsabilidade última de um profissional do setor devidamente qualificado. E, por fim, promove a necessidade de uma regulação internacional sólida da IA, com a participação de jornalistas, evitando que fique restrita a poucas mãos e desrespeitando os direitos trabalhistas. Em outras palavras, é necessário desenvolver e expandir a proteção dos jornalistas frente a IA, enfatiza a FIJ, que, de forma mais ampla (não apenas em termos de IA), propõe a promoção de campanhas para promover leis em diferentes países que obriguem gigantes da tecnologia a pagar um imposto extraordinário sobre seus lucros, destinados a serem investidos na melhoria do conteúdo editorial e na ajuda para a promoção e o estímulo a novas mídias.

Um tema debatido em Paris não menos importante foi a defesa da mídia pública. Moções dos sindicatos do Reino Unido-Irlanda e da Itália, assim como uma discussão central em uma das mesas-redondas, ressaltaram a necessidade de enfrentar as ameaças que atingem a mídia pública. Propostas específicas pediram proteção, em particular, a da RAI, na Itália, assim como a da Agência Nacional de Notícias AFP, na França. Embora significativos como exemplos, expressaram a convicção mais ampla, em escala internacional, sobre o papel da mídia pública como pilares do fortalecimento democrático, em muitos países seriamente ameaçados pelo poder político ou pela concentração da mídia corporativa.

Unidade, relevo e paridade para defender melhor o jornalismo

A reunião de Paris, como exemplo de diversidade e multiculturalismo (sindicatos de 148 países participam da Federação), também representou um avanço na capacidade organizativa da profissão. Isso se expressou em decisões que delineiam o ser e a ação da própria FIJ na conjuntura atual. Cem anos após seu nascimento, a Federação deu um passo à frente na renovação geracional. Zuliana Lainez, uma proeminente jornalista e sindicalista peruana, de 49 anos, foi nomeada presidente. Sua eleição significa que, pela primeira vez, uma representante latino-americana assume a liderança da Federação. Lainez trabalha como editora de opinião no jornal digital Crónica Viva e como editora de notícias internacionais na ANP Radio. Além disso, é professora de direito da imprensa e de direito à informação. Zuliana Lainez considerou "histórico que a América Latina esteja à frente de uma federação mundial no centenário de sua fundação... Nós, latino-americanas/os, como muitos de nossos colegas no Sul, sabemos o que significa resistir e lutar. Essa história nos assombra, mas também é uma força, uma marca para enfrentar os desafios de hoje".

Mulheres, sejam jovens ou de meia-idade, avançam em posições de liderança na FIJ. A presença latino-americana no comitê diretor, composto por cerca de vinte membros, é completada por outros três jornalistas que representam os sindicatos nacionais da Colômbia, do Brasil e da Argentina.Estimulado por uma segunda presidência contínua de mulheres – precedida pela jornalista francesa Dominique Pradalie, que serviu por quatro anos, até maio de 2026 – o Congresso aprovou uma histórica reformulação estatutária que estabelece a paridade entre mulheres e homens na composição de seu comitê. Embora essa decisão entre formalmente em vigor em apenas três anos, o comitê atual já possui uma composição absolutamente equitativa. Isso expressa que a vontade política dos representantes que se reuniram em Paris precedeu até mesmo as mudanças nos Estatutos em termos de paridade de gênero na liderança.A FIJ foi ferida em suas entranhas pela saída, nos últimos dois ou três anos, de alguns sindicatos europeus, especialmente dos países nórdicos, e o congresso de Paris foi um clamor concreto a favor da unidade. As/os congressistas aprovaram por consenso várias modificações estatutárias sobre o funcionamento interno que devem abrir caminho para a reintegração desses sindicatos e associações em um futuro próximo. Buscam revisar e fortalecer a governança, a representação e a transparência organizativa para que a Federação seja "ainda mais acolhedora, unida e solidária [do que o foi até agora] diante dos desafios globais".

A informação, mera mercadoria, instrumento de propaganda egoísta ou um bem público da humanidade? Um debate essencial da sociedade em um momento histórico em que, muitas vezes, se torna difícil diferenciar entre notícias verificadas e fake news inventadas, e onde o grande poder nacional ou internacional – seja político, econômico ou militar – torna a disputa informativa uma prioridade essencial na defesa de seus próprios interesses minoritários.

Tradução: Rose Lima.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.