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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

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O jumento inteligente

Lula e Bolsonaro (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado | REUTERS/Adriano Machado)

As notícias relativas ao assassinato de Marielle Franco, nas duas últimas semanas, depois de um silêncio constrangedor de cinco anos, despertaram esperanças de justiça no país – e decepção de gente temerosa de ser desmascarada. Curiosamente, o grupo de implicados até agora cerca pessoas importantes na política brasileira, com odor de cumplicidade guardada a sete chaves. Delações premiadas anunciam mais novidade, de modo que, quem se achava tranquilo perde o sono, sobretudo nas residências de ocupantes do condomínio “Vivendas da Barra”. Como resultado, surgem acessos de nervosismo, má vontade e grosserias da parte do Ex inelegível, certo de que há uma rede se aproximando dos seus pés. É o que explica a natureza do discurso pronunciado para semelhantes num evento da Câmara Municipal de São Paulo, durante o qual atacou o PT e chamou Lula de “jumento”, pelo papel que desempenha nas relações internacionais e junto à nação. Com ele próprio, não há comparação possível.

Nem é preciso mencionar que saímos do isolamento na gestão anterior e passamos a protagonistas nos debates de relevo. Tocar no assunto já desperta sinais de alívio, como se houvéssemos deixado para trás a irresponsabilidade fascista para privilegiar a maturidade nas escolhas, a habilidade política e a astúcia de uma mente privilegiada. O “jumento”, evocado na comparação, subiu na escala da inteligência. Ficará na história como um fenômeno particular da sociedade brasileira em um de seus instantes de brilhantismo depois de tanta obscuridade. Cabe notar que a infelicidade do designativo, da parte de quem a disse, não diminui a vítima, uma vez que emana de alguém que sabidamente não consegue utilizar linguagem culta, optando cada vez mais pelo chulo e pelo baixo calão. 

A administração petista neste terceiro mandato oferece largos panoramas de sabedoria política nos mais variados temas. A burrice consagrada ficou para trás, atirada nas trevas do atraso, do que, por um tempo, nos tornáramos vítimas. Na nomeação de Marcio Pochman para a direção do IBGE, não obstante as críticas da imprensa conservadora, exibe camadas de discernimento. O nomeado, professor da Universidade de Campinas, possui um currículo invejável, com publicações de nível para ninguém botar defeito. Posto ao lado do seu antecessor na autarquia, fica muito à frente... Qualquer opinião abalizada destacará a qualidade do entendimento que o convidou. Ele prestigiará o cargo – e não o inverso. 

Na seara da inteligência, não há como negar: Lula bate de vinte a zero em Bolsonaro. O pobre coitado só esperneia para ainda aparecer, mesmo que mal na fotografia, cercado de malfeitores na esfera policial e se agarrando com dificuldade às frágeis cordas de políticos que o sustentam, com um pé na má vontade. Se há jumentos na comparação no que diz respeito a Lula, nivela-se por cima no plano da sagacidade e não por baixo, entre os rastejantes. Um estanca para não cair no abismo. O outro se arrasta, de barriga no chão, porque já caiu e não sabe disso...

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.