O juramento desfeito

O mais novo motivo para a minha dor fibromiálgica deve-se à notícia da morte do menino Miguel, que poderia ter sido evitada a partir de um simples sentimento: a paciência

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Juro. Juro que tento trazer temas mais amenos aos que me leem, para alegrá-los em meio a tantas incertezas por que vivemos, afinal tenho uma certa gaiatice nata,  uma alegria parecida com a daquelas pessoas que não sabem sobre o peso da vida, apesar de sabê-lo. Todavia quando leio os jornais e navego nas redes sociais, sempre existe uma notícia que me tira do prumo, esconde o meu tão resiliente júbilo e faz emergir uma raiva contida no submundo das minhas entranhas. Como uma cronista consegue escrever sobre trivialidades, em meio a tudo isso? Era preciso que eu fosse uma neófita do chefe da nação para tanta indiferença, mas muito me honra não sê-la. Assumo a empatia e o sofrimento que essas notícias me causam.

O mais novo motivo para a minha dor fibromiálgica deve-se à notícia da morte do menino Miguel, que poderia ter sido evitada a partir de um simples sentimento: a paciência. A criança aguardava a mãe, empregada da família, voltar do passeio com o cãozinho da madame, enquanto o pequeno, provavelmente se sentindo fora do ninho na casa rica e hostil, chorava pela breve ausência  de quem o protegia. A primeira dama branca/loura, “Corte Real”, incomodada com o choro do menino/negro, “Silva”, o levou até o elevador do edifício, apertou um botão no alto do painel do elevador e a partir daí, com suas asas de anjo, Miguel Silva, voou em busca de sua mãe. Voou e não mais voltou. Deixando-nos, sua família e o Brasil, enlutados. 

Como se não bastasse a partida abrupta e inesperada da criança, a mãe do pequeno, Dona Mirtes, foi estampada nos jornais da grande imprensa como funcionária da prefeitura administrada  pelo marido de sua patroa. O que queria a imprensa? Apontá-la como funcionária fantasma para que suavizasse a culpa dos seus empregadores? Se o intento foi esse, não deu certo, apenas mostrou a previsível maracutaia na prefeitura de Tamandaré. Se a motivação foi denunciar a improbidade administrativa do prefeito, parece que deu certo, pois após a revelação  do imbróglio, o  Tribunal de Contas do Estado e o Ministério Público de Pernambuco resolveram tomar as devidas providências. 

Esse fato por si só já é horrível demais, entretanto acabou nos trazendo reflexões sobre a abissal distância entre ricos/brancos e pobres/pretos no país, pois as autoridades que atuaram a “Madame Corte Real” por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, não revelaram a sua identidade; já D. Mirtes e sua dor foram estampadas em todos os programas de TV, muitos deles, com perguntas inconvenientes, sem o menor respeito ao luto da família. Após a tragédia e o enterro do seu menino, a mãe, dolorosamente, compreendeu os versos do poeta: “Que a saudade é o revés de um parto; a saudade é arrumar o quarto; do filho que já morreu”.

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