O lado certo da história não é o lado mais fácil

Como se sabe, Eleonora Menicucci foi processada pelo ator Alexandre Frota por fazer o que lhe cabia. Primeiro, condenou, na condição de ministra das Mulheres, declarações de Frota de que teria estuprado uma liderança religiosa de matriz africana

O lado certo da história não é o lado mais fácil
O lado certo da história não é o lado mais fácil (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O Brasil precisa conhecer e reverenciar suas heroínas e os seus heróis. Eleonora Menicucci é uma dessas pessoas. Dedicou toda uma vida por uma causa e, mesmo quando já não precisava provar nada para ninguém, recusou o caminho mais fácil, o da conciliação judicial, para manter sua dignidade e sua honra.

Falo do processo movido pelo ator de filmes adultos e militante da ultradireita machista e racista, Alexandre Frota. Como se sabe, Eleonora foi processada por fazer o que lhe cabia. Primeiro, condenou, na condição de ministra das Mulheres, declarações de Frota de que teria estuprado uma liderança religiosa de matriz africana. Depois, na condição de lutadora incansável pelos direitos das mulheres, lamentou que essa figura abjeta tenha sido ouvida pelo então ministro da Educação do governo golpista, Mendonça Filho.

Foi condenada em primeira instância por supostamente ultrapassar o limite da crítica. Fez dessa absurda decisão mais uma trincheira de luta que mobilizou mulheres Brasil afora, para, finalmente, ser vencedora em segunda instância. Durante todo esse processo, negou qualquer tipo de acordo de conciliação. Chegou a ouvir que ela não sabia o que era enfrentar a Justiça. Se queriam desmotiva-la a seguir aquela batalha, fizeram muito errado e o efeito foi totalmente contrário.

Eleonora enfrentou, ainda muito jovem, os algozes da democracia. E faz o mesmo atualmente. Mineira de Lavras, cidade próxima a minha terra natal, Bom Sucesso, foi para Belo Horizonte, onde começou sua militância política no movimento estudantil e participou da luta armada contra um governo autoritário, que tomou de assalto a soberania brasileira. Em 1969, deixou a capital mineira para seguir na dura jornada da clandestinidade, época em que teve uma filha.

Um ano e oito meses após tornar-se mãe, foi capturada. Esteve presa quando o habeas corpus havia acabado para "crimes políticos". Em outras palavras, a ditadura poderia ficar com um preso sem precisar dar satisfações a ninguém. Constantemente torturada, seja física ou psicologicamente, jamais se vergou. Quando saiu da prisão, sua filha já tinha cinco anos.

Conheceu Dilma Rousseff ainda na juventude em Belo Horizonte. Estiveram presas juntas e seguiram companheiras de luta até os dias de hoje. Lutou e lutará sempre pela democracia plena; pelos direitos sociais, sexuais, reprodutivos, de ir e vir, pela autonomia econômica e pelos salários iguais das mulheres, que são 52% da população brasileira e mãe da outra metade, como ela mesmo gosta de dizer. Sua lealdade e companheirismo com a ex-presidenta são inegáveis; em tempos de cárcere e de liberdade, nos tempos de governo e em tempos de golpe.

Definitivamente, não podemos abrir mão de alguém como Eleonora no Brasil atual, onde até Alexandre Frota tem espaço no Governo Federal. Tê-la novamente em Minas Gerais é motivo de grande alegria e é uma honra poder conviver com alguém que dedica cada respiração a luta pela igualdade e contra qualquer tipo de injustiça. Teço aqui todas as minhas homenagens a uma mulher guerreira, que não só sabe onde pisa, como sabe que pode pisar no solo que ela quiser.

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