O Líbano se tornando uma nova Gaza
Relato revisita memórias familiares e descreve diante dos bombardeios que devastam Beirute e transformam o Líbano em cenário de guerra
Eu consegui estar no Líbano, país do meu pai e dos meus avós por parte de pai.
Eu já havia estado na Palestina. Circulava o dia inteiro até que, no final do dia, bem ao estilo das famílias árabes, sempre me convidavam para jantar. Mostravam, nas paredes, uma coleção de fotos: o filho, preso; o tio, morto; e assim por diante.
Eu já havia estado no Egito, em Marrocos, na Tunísia. Uma unanimidade era que a melhor comida árabe era a libanesa. Pude constatar isso em Beirute.
Foi emocionante chegar a Beirute, recordando-me da vida do meu pai, das duas viagens dele ao Brasil, até retornar com a família. Era uma cidade bonita, cantada pelos europeus em prosa e verso, como uma cidade europeia no mundo árabe.
Agora, vendo os bombardeios na Palestina, fico imaginando o que pode ter acontecido com todas aquelas famílias. Da mesma forma, vendo hoje os bombardeios e os destroços que os ataques de Israel produziram, com mais de 200 mortos, vem-me um sentimento de imensa tristeza por todas aquelas pessoas que me receberam com tanto carinho e com tanta comida deliciosa.
O Líbano, como alguém disse, está se tornando, dolorosamente, uma nova Gaza, bombardeado pelos dois lados, sendo destruído como país. E Beirute, como cidade.
Antes de Hiroshima, não se pensava que uma cidade podia desaparecer. Desde então, várias desapareceram, sob bombas e aviões. Olhando o centro de Beirute destruído, volta uma sensação de medo da perda de uma cidade querida.
Em Beirute, peguei um carro e fui para o norte, tentando chegar a Kfifen, a pequena cidade em que meu pai nasceu. Fui subindo e me assustou como tudo é tão perto: um cartaz dizia “Síria a 15 quilômetros”.
Tentei chegar, mas, antes de alcançar Trípoli, já não era possível seguir. Havia uma grande quantidade de emigrantes vindos da guerra civil na Síria. Tive que voltar.
Fiquei com um sentimento ambíguo: por um lado, imaginar meu pai vivendo na capital; por outro, a tristeza de ter chegado perto de sua cidade natal, mas não poder alcançar Kfifen.
Hoje, o sentimento é de profunda tristeza. Líbano e Beirute se tornando uma nova Gaza, bombardeados de vários lados. Mesmo com o cessar-fogo, Israel realizou bombardeios duríssimos, provocando destroços no centro da capital.
Onde estarão aqueles que me acolheram tão calorosamente? Onde estarão meus parentes que pude rever e que me receberam com as melhores comidas árabes?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
