O lugar de fala de Petra Costa em 'Democracia em Vertigem'

O jornalista Leonardo Attuch relata que assistiu o documentário ‘Democracia em Vertigem’ e considera que "Petra transformou seu lugar de fala em algo extremamente poderoso na narrativa"

(Foto: Petra Costa)

Assisti ao documentário ‘Democracia em Vertigem’ e recomendo sob todos os aspectos: artístico, histórico e cinematográfico. Mas um outro ponto me chamou mais atenção: o autobiográfico.

A cineasta Petra Costa é filha de Marília Andrade, herdeira da construtora Andrade Gutierrez, uma das maiores do País. Atacada por sites de extrema-direita pelo pecado do “berço de ouro”, Petra transformou seu lugar de fala em algo extremamente poderoso na narrativa.

Família conservadora de Minas Gerais, os Andrade preparavam a mudança para os Estados Unidos quando João Goulart anunciava suas reformas de base. Os pais de Petra, no entanto, eram militantes de esquerda e seu nome é uma homenagem a Pedro Pomar, assassinado na ditadura.

Com o golpe militar de 1964, os Andrade não fugiram para os Estados Unidos. Ao contrário, ficaram no Brasil e lucraram muito com as obras, algumas faraônicas, da época. Com o passar do tempo, corrupção e obras públicas viraram quase sinônimos, até que a bomba explodiu em 2013.

Os protestos de junho daquele ano já eram a preparação para a Lava Jato, que começaria em 2014, na guerra híbrida contra o Brasil. No ano da Copa, em que a Andrade Gutierrez construiu diversas arenas,  o financiamento empresarial de campanha foi o pretexto para a derrubada do PT.

Enquanto setores da família Andrade lucravam com as obras públicas, que geravam as doações políticas, Petra e seus pais admiravam as conquistas sociais dos governos Lula e Dilma, mas criticavam as alianças com políticos corruptos e a ausência de uma reforma política.

Na Lava Jato, executivos da Andrade Gutierrez chegaram a ser presos, enquanto Petra rodava seu documentário. Nas eleições de 2018, muitos de seus parentes votaram em Bolsonaro, que gostaria que seus pais tivessem sido também assassinados na ditadura.

O filme, portanto, é também uma jornada pessoal de descoberta e autoconhecimento. Quem é Petra Costa? Quem são seus pais? O que sua família representa? O que é a sociedade brasileira? Quem somos nós? Como nossa individualidade se entrelaça com a história coletiva? Somos todos um?

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