O marketing eleitoral está matando a política

O modelo de campanha eleitoral atual não visa mobilizar as massas, despertar paixões, reacender esperanças. Que saudades do Brizola, o velho caudilho que conseguia, num único discurso, arrancar suspiros de admiração até dos adversários, e construiu uma brilhante carreira política na base do coração

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Em tempos de desemprego elevado, o brasileiro descobriu que entrar para a política pode ser uma ótima opção para sair do buraco. Só neste ano, são mais de 66 mil candidatos disputando uma vaga para as prefeituras e câmaras municipais, mas poucos conseguirão furar a bolha que protege a elite do poder, um clube onde a renovação dos seus membros é quase impossível. Não há paridade de armas nos quesitos verbas públicas de campanha, nem no espaço eleitoral no rádio e na TV, e muito menos na construção da imagem e estratégias com o apoio de profissionais de marketing político, privilégio que só existe em campanhas majoritárias e para alguns candidatos a vereador que podem pagar do próprio bolso. 

Diante dessa realidade, podemos concluir que, desses 66 mil candidatos, menos de 10% são realmente competitivos. Para efeito de clareza na análise, desconsiderarei as eleições proporcionais, e vou tratar apenas das candidaturas majoritárias, mas especificamente as das prefeituras nas capitais.  

Historicamente temos sempre entre quatro e cinco candidaturas competitivas nestes grandes centros populacionais, e as atenções dos marqueteiros são todas voltadas para o objetivo de levar o cliente a ser um dos dois que disputará o segundo turno. Seja em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte ou em Fortaleza, o modelo de campanha é basicamente o mesmo: um programa de governo recheado de promessas, um dossiê repleto de cascas de banana para derrubar os adversários, discursos ensaiados com bordões e frases feitas do tipo: “vou fazer isso!”, “Vou construir aquilo!”, e por aí vai. Até agora não vi nenhum candidato fugindo desse mantra. Isso decorre da exacerbação da propaganda, num ambiente em que o foco deveria ser a política. Marqueteiro não é político, não tem ideologia, não se apaixona pela causa. Independente do resultado, o que importa é a grana no final do trabalho. Marqueteiro não sofre, não se revolta, não compra briga do seu cliente. E se fizer isso, corre o risco de não ser reconhecido como profissional.  

O resultado dessa substituição da política pela propaganda a gente vê nas urnas. Um número absurdo de votos nulos e brancos, eleitor escolhendo com o fígado, a sociedade caminhando para um divórcio litigioso com as instituições democráticas. Será que é tão difícil compreender que eleições existem para engajar o povo num debate político que decidirá os destinos do país? Conheço pessoas ótimas que estão na disputa por prefeituras importantes, que vão perder por ter esquecido sua essência política, confiando numa comunicação pasteurizada que se mistura na coalhada retórica dos seus próprios adversários.  

A campanha do “vou, vou, vou” já era! O momento político é o do ENGAJAMENTO, coisa que os estrategistas viciados em campanhas passadas não compreenderam até agora. Quer falar de educação? Então fale com os professores, o pessoal de apoio e, principalmente com os alunos. Chamem-nos para caminhar com você. Todo mundo fala de covid-19 na propaganda e nos debates. Mas até agora ninguém dirigiu uma única palavra agradecendo aos médicos, enfermeiros, técnicos, maqueiros, motoristas de ambulância, dizendo que se for prefeito jamais esquecerá tudo o que eles fizeram para salvar a vida do seu povo.  

Um dos maiores dramas sociais que estamos enfrentando é o desemprego. E como este tema tem sido tratado? “Vamos gerar, vamos atrair empresas, vamos dar incentivos, bla, bla, bla”. Se jogar esse discurso de propaganda na lata do lixo, e trazer a política para a garganta, esse mesmo assunto seria tratado mais ou menos assim: “Eu sei que está faltando comida na sua mesa. Eu sei que você passa o dia inteiro correndo atrás de algum trabalho para alimentar os filhos. Eu sei que você é jovem, cheio de sonhos e não consegue uma oportunidade de trabalho. Eu só peço que confie em mim. Eu vou dedicar minha vida para que você possa ter uma vida digna, longe da criminalidade”.  

Os adversários que corram atrás para fazer melhor.  A experiência com a eleição de 2018 foi traumática, e os efeitos estão sendo sentidos. Só a política pode dissolver o ódio, o ressentimento, pacificar e unir a sociedade. Mas esse é um diálogo que não pode ser delegado a um marqueteiro. O modelo de campanha eleitoral atual não visa mobilizar as massas, despertar paixões, reacender esperanças. Que saudades do Brizola, o velho caudilho que conseguia, num único discurso, arrancar suspiros de admiração até dos adversários, e construiu uma brilhante carreira política na base do coração.  Hoje não conheço ninguém com esse poder de arrebatar multidões. Até mesmo o meu eterno presidente Lula, que agora não é candidato a nada, mas em 2022 vai ter de reencontrar o caminho para engajar o povo novamente.

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