O massacre de Bucha: o que sabemos até agora

Existem questões a serem respondidas e investigações a serem feitas antes de concluir se a responsabilidade pelo massacre de Bucha é da Rússia ou da Ucrânia

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(Foto: REUTERS/Zohra Bensemra)


No dia 24 de fevereiro, a Rússia iniciou sua operação militar na Ucrânia e rapidamente formou um cerco sobre a capital Kiev. Dentre as cidades das imediações de Kiev ocupadas pelas forças armadas da Rússia, estão Irpin e Bucha. Um mês mais tarde, em 25 de março, após negociações na Turquia com a delegação ucraniana, o Ministério da Defesa da Rússia anunciou o fim da primeira fase da operação militar especial. Neste comunicado, as forças armadas da Rússia afirmavam que não tinham interesse em ocupar Kiev e que a finalidade do cerco era manter as tropas ucranianas ocupadas na defesa da capital, enquanto o exército russo consolidava o domínio da região do Donbass. No dia 29 de março, a Rússia informou que reduziria significativamente os ataques à capital e, no dia seguinte, anunciou que havia retirado suas tropas da cidade de Bucha, localizada na região metropolitana de Kiev. 

Dois dias mais tarde, em 2 de abril, a mídia ocidental anunciou a retomada das cidades Irpin e Bucha pelo exército ucraniano, dando a entender que este havia vencido uma batalha no lugar de informar a retirada do exército russo após um acordo de cessar fogo. Neste mesmo dia, o governo ucraniano passou a exibir fotos de corpos espalhados pelas ruas de Bucha e a acusar a Rússia de ter cometido um genocídio. As autoridades russas afirmaram que as imagens são falsas, pois os corpos retratados ainda estavam frescos e o exército da Rússia havia abandonado Bucha três dias antes.  Além disso, as autoridades perceberam que alguns dos corpos tinham faixas brancas no braço, o que sinaliza apoio à Rússia. 

No dia 5 de abril, no entanto, a mídia ocidental publicou o que seria uma prova de que os corpos estavam nas ruas de Bucha, ao menos, desde o dia 19 de março. Tal prova consistia em uma foto tirada pelo satélite Maxar no início de março, na qual é possível ver traços semelhantes a corpos nos mesmos locais em que as vítimas do massacre estariam. Tal imagem comprovaria que o exército russo assassinou civis. No entanto, as imagens não falam por si só e estão sempre acompanhadas de uma narrativa. A empresa Maxar presta auxílio para o exército dos Estados Unidos e seus aliados, oferecendo imagens de satélites que, além de auxiliarem a reconhecer a posição do inimigo, são vendidas para a mídia, em muitos casos, para justificar um ataque. Foi por meio das fotos dos satélites desta empresa que o exército ucraniano pôde observar o movimento das tropas russas antes do início da guerra. As fotos do Maxar que mostravam o comboio de tanques russos que se aproximavam de Kiev também foram exaustivamente exibidas pela mídia ocidental. É importante observar que o Maxar nunca é utilizado para indicar possíveis crimes de guerra cometidos pela Ucrânia, Estados Unidos e seus aliados. O almirante aposentado da marinha dos Estados Unidos, James Stavridis, afirma que as imagens fornecidas para a mídia não são tão precisas quanto às fornecidas para as forças armadas. De acordo com Cory Wimberly, professor da Universidade do Texas, autor de um livro sobre propaganda corporativa, tais imagens são uma espécie de mentalidade do cerco fabricado e levam os consumidores de notícias a conceber que os Estados Unidos estão em constante ameaça. Como prestadora de serviço, tal empresa não possui interesse no fim do conflito. De acordo com o relatório anual da própria Maxar, a “perda ou redução no escopo de qualquer um de” seus “principais contratos” com entidades governamentais, reduziria significativamente a receita da empresa. Desde o início da crise na Ucrânia, o valor das ações da Maxar dispararam.  Uma das imagens mais conhecidas da Maxar mostra o aeroporto de Cabul sendo evacuado no dia em que os Talibãs assumiram o poder no Afeganistão. No dia 28 de fevereiro, quando suas ações saltaram, a Maxar publicou esta famosa foto, alterada para incluir um alvo no centro, acompanhada pelo seguinte texto: “Precisão entregue! Quando não há espaço para erros, as organizações fazem parceria conosco para #hardware, #dados e #insights confiáveis necessários para manter suas operações em andamento.” 

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Existem muitos elementos nas imagens e vídeos que geram suspeitas sobre a versão ucraniana dos fatos. No dia 6 de abril, em um vídeo gravado por um drone, tanques de guerra aparecem atirando em um ciclista. O vídeo teria sido gravado no dia 3 de março. Considerando a quantidade de imagens que a mídia ocidental tem publicado para denunciar supostos abusos da Rússia, porque tal vídeo só foi publicado um mês depois? A mídia ocidental, como o G1, afirma que o ciclista que aparece no vídeo seria o mesmo que aparece nas fotos feitas pelo exército ucraniano in loco, no dia 2 de abril. Em sua matéria, o G1 expõe um print do vídeo feito pelo drone ao lado da foto feita pelo exército ucraniano, que mostra um corpo caído sob uma bicicleta. Neste ponto, surge a questão: como pode o corpo de uma pessoa que foi alvejada por tiros de grosso calibre de um tanque de guerra, assim como a bicicleta, permanecerem intactos? Será que, ao receber o disparo, o corpo da pessoa não se desmembraria e voaria para longe da bicicleta? Nas imagens, é possível observar que a pessoa está próxima a um muro. Então, como o muro está intacto? Não estamos falando de um tiro de uma pistola 38 e sim de disparos de grosso calibre, de um tanque de guerra. Nos tanques que aparecem nas imagens, não é possível localizar a letra “Z”, que identifica os tanques de guerra russos. Se os tanques eram russos, será que os radares não teriam identificado o drone? Na imagem, como é possível afirmar que a pessoa era um civil? Apenas pela roupa? Por qual motivo a pessoa adotou atitude tão arriscada ao pedalar sua bicicleta por uma rua vazia, em direção aos tanques de guerra? Ainda sobre episódio, é notável como, até aquele momento, não havia nenhum corpo no chão. Será que o ciclista foi o primeiro a ser morto? Caso o satélite Maxar, que filmava a rua Yablunska, dê acesso à sequência de fotos, dia após dia, no mês março, poderíamos elucidar como o massacre de Bucha ocorreu. Porém, as imagens divulgadas do satélite parecem mostrar apenas aquilo que interessa aos clientes da Maxar. Seguindo o seu método de ação, precisam difundir imagens de supostos crimes de guerra cometidos pelos russos, para justificar uma intervenção da OTAN na Ucrânia. 

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Uma matéria do G1 afirma que a “Moradora da cidade de Bucha, Irina estava desaparecida desde 5 de março, quando uma postagem no Facebook pedia informações sobre seu paradeiro”. Isso significa que  as pessoas que procuravam os supostos desaparecidos se comunicavam por Facebook. Logo, esta rede social estava ativa em Bucha naquele mês. Será que, em um mês, nenhum dos internautas de Bucha pôde fotografar os corpos com um celular e publicar no Facebook? Será que ninguém escreveu no Facebook sobre os corpos espalhados pela rua Yablunska? Se um cidadão não vê problema em pedalar sua bicicleta em direção aos tanques de guerra, porque outras pessoas não foram até a rua Yablunska filmar e fotografar para a rede social quando os tanques não estavam mais lá, conforme mostra a foto do satélite Maxar, datada de 19 de março? 

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As questões colocadas pelo Ministério da Defesa da Rússia, desde o dia 2 de março, ainda permanecem sem respostas. Se os corpos estavam na rua de Bucha desde o início de março, porque aparentam estar ainda frescos? A narrativa ucraniana tampouco explica porque alguns dos corpos tinham faixas brancas, que indicam apoio à Rússia, no braço. Não parece estranho que os russos tenham assassinado seus apoiadores? Por que os russos deixariam os corpos na rua antes de se retirarem, o que poderia justificar uma maior intervenção militar internacional e o aumento das sanções? Existem questões a serem respondidas e investigações a serem feitas antes de concluir se a responsabilidade pelo massacre de Bucha é da Rússia ou da Ucrânia. 

As distintas narrativas podem ser verificadas por meio de uma investigação imparcial. A Rússia convocou o Conselho de Segurança da ONU para debater o ocorrido em Bucha. No entanto, o Reino Unido, de forma suspeita, vetou a realização do encontro, como se tivesse algo a esconder. A Ucrânia, por sua vez, exige a expulsão da Rússia do Conselho de Segurança. Esta parece uma boa estratégia para evitar que a Rússia cobre investigações da ONU sobre o ocorrido em Bucha. Lembra o ditado “quem não deve não teme”. A Ucrânia exigiu uma investigação, dita independente, no entanto, esta ficou a cargo deste próprio país e seus aliados da União Europeia.  

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