O médico e o monstro

O único meio que possuímos para dominar nossos instintos é a inteligência. Caso contrário, viveríamos sob os fortes impulsos do nosso Mr. Hyde particular

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No livro O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, o médico Henry Jekyll acredita que o bem e o mal existem em todas as pessoas. Ele tenta provar a sua teoria com determinação e, após trabalhar incansavelmente em seu laboratório, o Dr. Jekyll elabora uma fórmula. E, não querendo colocar em risco a vida de ninguém, ele mesmo a bebe. Como resultado, seu lado demoníaco é revelado e ele chama-o de Mr. Hyde. Mas o pior ainda estava por vir. Apesar de o Dr. Jekyll acreditar que poderia controlar as aparições de Mr. Hyde, ele veria logo em seguida que estava totalmente enganado.

Ao compartilhar não apenas a mesma atividade profissional, mas também o interesse comum no funcionamento da mente humana, tanto o Dr. Jekyll, quanto o Dr. Freud, cada um à sua maneira, tentaram desvendar os segredos da mente. O Dr. Jekyll, ao criar um composto químico para eliminar as facetas do mal que existem dentro de cada um de nós, enquanto o Dr. Freud elaborou a complexa teoria sobre o funcionamento da psique humana, na qual não somos movidos apenas por nossa parte consciente, mas com grande parte de nossas ações influenciadas poderosamente por uma porção da psique humana que não é plenamente percebida pela nossa consciência, o "id".

Palavra em latim que significa "isso", o "id" é a porção obscura e misteriosa da psique humana, composta por nossos instintos, desejos, medos e lembranças que foram rechaçadas pela nossa porção consciente, em função de nossas regras morais. Mr. Hyde surge, não apenas como o personagem alegórico, que ele personifica de fato e que Freud viria a chamar de "Id". Regido pelo princípio do prazer, o "id" se constitui na versão pecaminosa e amoral, que revela uma porção do ser humano totalmente avesso aos nossos padrões morais e éticos. Um ser primitivo e sem freios e, assim como Mr. Hyde, totalmente oculto e inconsciente à nossa percepção.

Nas palavras do próprio Dr. Jekyll, Mr. Hyde é: "Este ser que eu extraíra da minha própria alma e atirara sozinho no caminho do pecado, que por natureza, era maligno e infame; todas as suas ações e pensamentos o denunciavam: sorvendo a orgia com avidez bestial e insensível como uma criatura de pedra". Mas, viver sob a ignorância de uma personalidade assim tão maléfica, quanto o "id", pode ser muito prejudicial. Pois, como Freud afirma: não é a razão, a consciência; que controla a vida humana; mas sim o nosso inconsciente.

O único meio que possuímos para dominar nossos instintos é a inteligência. Caso contrário, viveríamos sob os fortes impulsos do nosso Mr. Hyde particular. Por termos que conviver com o Dr. Jekyll na civilização: "Não nos sentimos nada à vontade em nossa civilização atual" (Freud em, O mal-estar na Civilização). O "casamento" entre o clássico "O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde" e a Psicanálise, não se constitui apenas numa visão fascinante do comportamento humano. Mas nos conduz também, à uma reavaliação da nossa vivência na civilização. Um matrimônio perfeito entre a relação do homem e a sociedade.

Se a civilização é ameaçada pela agressividade e pelos comportamentos destrutivos e monstruosos de nosso Mr. Hyde particular, quais seriam os meios de que dispõe a civilização para inibi-lo? Trata-se de uma formulação psíquica, que Freud denominou de "super-eu", que é representado pelo Dr. Jekyll, e é construída a partir das internalizações de padrões de moralidade e ética, adquiridos pela adesão da civilização em nossas vidas. Para Freud, o "id" direciona o indivíduo na busca de pensamentos e comportamentos prazerosos, que encontram, porém, o seu maior e mais poderoso empecilho na civilização. Segundo ele, a civilização exige o sacrifício e a renúncia aos impulsos pulsionais. A partir da "renuncia cultural", se evidencia o que ele chama de um "mal-estar na civilização".

A impossibilidade da civilização em tornar o homem feliz, está ligada à natureza humana e, para explicar isso, Freud recorre à sua segunda teoria, "a das pulsões", que estabelece a existência de um conflito fundamental, entre pulsão de vida (representada por Dr. Jekyll), e pulsão de morte (representada por Mr. Hyde). Em seu livro, Stevenson retrata como nossa civilização fracassa em proporcionar a felicidade que se espera dela, no momento em que o Dr. Jekyll diz: "Sim, preferi ser o médico, embora mais velho, embora desgostoso, mas rodeado de amigos e acalentando honestas esperanças; disse adeus à liberdade, à relativa mocidade, aos pés ágeis, ao coração leve e aos prazeres clandestinos que gozara, sob o disfarce de Mr. Hyde".

Com, "O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", Robert Louis Stevenson, coloca diante de nós mesmos, não apenas o nosso mal-estar na civilização, mas também a nossa dificuldade em nos tornarmos felizes, habitando numa civilização em que a renuncia dos impulsos e desejos, é uma exigência da aceitação e da ordem social. Reexamina as considerações a respeito do sentimento de culpa, a sua relação com o "super-eu", as relações de ambos com a cultura e com uma renúncia progressiva de nossos instintos, que é um dos fundamentos do desenvolvimento da civilização humana.

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