O medo e o retrocesso anticivilizatório
"Quando a política abandona o diálogo e se rende à lógica da força, a civilização retrocede"
O termo anticivilizatório designa ações, projetos ou comportamentos que representam um retrocesso em relação aos avanços humanísticos, éticos e sociais conquistados ao longo da história. Civilização não é um estado natural da humanidade, mas uma construção coletiva e histórica erguida por meio de conflitos, pactos e instituições. Sempre que práticas políticas ou sociais passam a negar a dignidade humana, relativizar direitos fundamentais ou normalizar a violência como método de organização da vida pública, estamos diante de sinais claros de regressão civilizatória.
Nesse sentido, o anticivilizatório não se manifesta apenas em atos de brutalidade explícita. Ele também aparece quando se enfraquecem instituições democráticas, quando se banaliza o discurso de ódio ou quando se reduz o espaço da educação, da cultura e do pensamento crítico. São movimentos que corroem silenciosamente os pilares da convivência democrática e que reintroduzem na vida política a lógica da força, da exclusão e da intolerância.
A frase “Realmente, vivemos tempos sombrios”, associada ao poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, tornou-se uma síntese emblemática de uma época em que a razão parecia sucumbir diante da barbárie. Brecht escreveu sob o impacto da ascensão do nazifascismo na Europa, quando regimes totalitários passaram a mobilizar o medo, a manipulação da informação — hoje muitas vezes identificada como fake news — e a violência para impor projetos políticos autoritários.
Ao denunciar aqueles “tempos sombrios”, Brecht não se referia apenas ao drama histórico de sua geração. Ele alertava para algo mais profundo: a fragilidade do processo civilizatório diante da tentação permanente do poder autoritário. O poeta percebia que, quando o medo se instala na política e a força substitui o direito, a civilização entra em estado de risco.
A retórica política que emergiu com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos, o recurso crescente ao uso da força contra regimes considerados adversários — como no episódio da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, realizada em 2026 por forças norte-americanas em uma operação militar que gerou forte debate internacional sobre violação da soberania venezuelana — e as intervenções militares envolvendo o Irã revelam a reedição de uma lógica geopolítica fundada na imposição de poder.
Esse tipo de prática remete à ideia de uma espécie de “polícia do mundo”, na qual interesses estratégicos de uma única nação passam a ser defendidos não por meio da diplomacia, mas pela pressão econômica, pela intimidação política e, em última instância, pela intervenção militar direta. Em tal cenário, o direito internacional e os mecanismos multilaterais cedem espaço à lógica da força, reintroduzindo tensões que desafiam o equilíbrio das relações internacionais construído no pós-Segunda Guerra Mundial.
Esse ambiente sugere um perigoso retorno a formas de organização política anteriores ao Iluminismo. Foi justamente o pensamento iluminista que inaugurou a tentativa de submeter o poder à razão e ao direito. A partir desse movimento histórico emergiram conceitos fundamentais como constitucionalismo, direitos fundamentais e limitação institucional do poder.
A organização política moderna passou então a se estruturar em Estados nacionais regidos por constituições, na divisão de poderes e no sistema de freios e contrapesos (checks and balances). Esses mecanismos foram concebidos para evitar a concentração arbitrária de autoridade e para assegurar que o poder fosse exercido sob vigilância institucional e jurídica.
No plano internacional, essa busca por equilíbrio institucional levou, após as tragédias da Segunda Guerra Mundial, à criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945. A Carta das Nações Unidas estabeleceu princípios destinados a orientar a convivência entre os povos: a igualdade soberana dos Estados, a solução pacífica dos conflitos, o respeito aos direitos humanos e a cooperação internacional como instrumentos para preservar a paz e a estabilidade global.
Esses marcos representam conquistas civilizatórias profundas. Eles surgiram da compreensão de que as diferenças são inerentes à condição humana e de que a política deve ser o espaço institucional para administrar essas diferenças sem recorrer à violência. Em outras palavras, a civilização avança quando transforma o conflito em diálogo e a divergência em negociação.
Nesse sentido, respeitar os Estados nacionais, a soberania e a autodeterminação dos povos tornou-se um dos pilares da ordem internacional contemporânea. Esses princípios foram concebidos justamente para impedir que interesses geopolíticos se imponham pela força, evitando que conflitos internacionais se convertam em guerras de dominação. No entanto, práticas unilaterais e intervenções políticas ou econômicas fora dos marcos multilaterais têm tensionado esse arranjo institucional — tendência que ganhou visibilidade com a ascensão de lideranças políticas que defendem uma política externa mais confrontacional.
Diante desse cenário, cresce a percepção de que o mundo precisa caminhar rumo a uma nova configuração geopolítica marcada pela multipolaridade. Diferentemente da hegemonia concentrada em um único centro de poder, um sistema multipolar pressupõe a existência de múltiplos polos de influência, capazes de equilibrar as relações internacionais e reduzir a tendência de imposições unilaterais no sistema global.
A multipolaridade, quando estruturada por regras e instituições, pode contribuir para limitar unilateralismos e fortalecer o diálogo entre diferentes civilizações e projetos políticos. Ela pode funcionar como um mecanismo de equilíbrio global, reduzindo a tentação de que qualquer potência se arrogue o direito de definir sozinha os rumos do mundo.
O desafio contemporâneo consiste, portanto, em preservar e aprofundar as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo dos últimos séculos. Isso significa reafirmar o valor do direito internacional, fortalecer as instituições multilaterais e reconhecer que a diversidade política e cultural do mundo não é um obstáculo, mas uma condição da própria convivência humana.
Defender a civilização, portanto, é reafirmar a política como espaço legítimo de negociação entre as diferenças. É sustentar a diplomacia e o direito — e não a força das armas — como limites indispensáveis ao exercício do poder. É reconhecer, enfim, que a pluralidade não é ameaça, mas fundamento da própria democracia e condição essencial para que a humanidade avance sem sucumbir novamente às sombras da barbárie.
Quando a política abandona o diálogo e se rende à lógica da força, a civilização retrocede. E é justamente nesses momentos que a advertência de Brecht volta a nos interpelar: tempos sombrios não são apenas aqueles em que a violência se impõe — são aqueles em que a sociedade passa a aceitá-la como inevitável.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
