O meu prazer vale mais que a sua vida?

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A Senhora Margaret Thatcher, que foi primeira-ministra da Inglaterra entre 1979 e 1990, pronunciou na ocasião de seu mandato uma frase emblemática: “Essa coisa de sociedade não existe, o que existe e sempre existiu é o indivíduo”.

A frase é emblemática porque ela exprime um aspecto mui importante do pensamento liberal que é o da autonomia do indivíduo sobre o coletivo, seja no seu processo de ascensão econômica e financeira, intelectual e espiritual. Esse pensamento representa uma planificação do processo de acumulação do capital e da concentração de renda e formação da riqueza, processo esse absolutamente justificado no sistema liberal-capitalista.

Outros aspectos podemos ressaltar a partir da frase acima citada, mas pretendo me ater um pouco mais no tocante ao caráter emblemático dela a esse ciclo atual do liberalismo, dito o do capitalismo financeiro ou o do liberalismo radical, também conhecido por neoliberalismo. Os aspectos econômicos mais sensíveis creio que outras pessoas mais versadas nisso possam desenvolver melhor para vocês caríssimos (as) leitores (as), portanto, quero pontuar um pouco mais atentamente a partir de minha área de conhecimento, quero dizer das injunções subjetivas e seus reflexos sociais que examinaremos a partir desse enunciado e sua incidência no funcionamento de nossas sociedades ocidentais nessa quadra histórica, e o que essa pulsão decorre em nossas vidas. 

A Senhora Margaret Thatcher como sabemos foi uma política muito influente junto com o seu contemporâneo Ronald Reagan, então presidente dos Estados Unidos, na construção e consolidação do novo marco do sistema liberal e o ciclo advindo do capitalismo. Ocorre que esse processo podemos verificar não apenas do ponto de vista de economia política, mas, entre outros, cabe ressaltar o da economia psíquica, então a frase supracitada ela enuncia concomitante uma espécie de paroxismo da questão do indivíduo, o triunfo do indivíduo sobre a coletividade, sobre o social, sobre o que é público, e mesmo sobre o Estado. 

A ideia triunfalista desse indivíduo e de seu acúmulo aqui exposta extrapola a de âmbito financeiro, mas encontra amparo numa forma de empoderamento que ponderamos aqui em algo como o da perseguição e posse dos objetos psíquicos, -- o que Jacques Lacan chamava de objeto a --, a saber, esse novo ciclo econômico (político e psíquico) nos rendeu a ilusão de que podemos possuir objetos que são da ordem do impossível e que denominamos de o real – conforme a proposição de Lacan para isso--.

O real, diz Lacan, é o impossível, o indizível, o inefável, o intangível, a saber, é aquilo que se nos escapa sempre que imaginamos possuí-lo, o que perseguimos e não encontramos, e o objeto a, o objeto real, é um resíduo, um resto do que nos escapa de um corte estruturante (a castração simbólica). O que nos lega a palavra e o que nos opera a linguagem. Sim, a linguagem nos impõem alguns limites e nos coloca diante de impossíveis, eis o real lacaniano. A palavra não diz tudo, não é da ordem da suficiência, esses os déficits de um ser-de-linguagem, como nós, e que se nos coloca inexoravelmente. E Lacan emendou observando que o sujeito, o ser-falante, é dividido pelos significantes, diríamos, por esse operador da linguagem: os significantes. Portanto, os objetos que desejamos nos faltam. O objeto do desejo é a falta. Que somos marcados pela incompletude, pois a condição de instalação dos significantes, o que nos singulariza como espécie, é que o objeto real nos escape (perdido para sempre). Portanto, o sujeito, a fala, o ser-falante, é da ordem de uma falta-a-ser. E nada mais o completará, a não ser uma maneira de lidar com o ideal que resulta na ilusão, como nos observou Freud em o Futuro de uma ilusão (1927).

No texto acima referido, ele, Freud, dizia que o futuro de uma ilusão é a desilusão, pois intentamos resolver essa nossa perda de objeto e falta simbólica que nos remete a um desamparo estrutural com ideais, objetos, coisas que supostamente nos preenchem o vazio que temos em nossa existência. Ademais, ele examinou a despeito de uma ortopedia psíquica que constituímos, a de que nos ampare um pai imaginário que dê conta da carência de um pai real. Desse modo, Freud se referiu à Religião como a cumprir o papel desse pai imaginário, e hoje podemos observar que o Mercado ocupa nesse sentido algo semelhante. Em suma, o que Freud nos disse em seu estudo é que uma vida premida absolutamente em ideais, não raro, perece numa ilusão que não tarda em transformar-se em desilusão.

Então, como observamos, temos uma coisa importante aí, nós dizemos do ser-falante como um sujeito marcado pelo o que lhe divide e estabelece limites, limites ao gozo, da palavra, das relações sociais e da própria vida que não é absoluta e infinita.

A convivência social pressupõe limites tais como o de gozo absoluto para que a vida social possa se realizar com distribuição, quiçá democrática, de gozo, contudo, não é essa a proposta societária do liberalismo moderno; primeiro, porque não se refere a sujeito, mas a indivíduo; segundo, porque não parece pressupor interdito ao gozo absoluto e despótico, mas se lança ao império do mais gozar, do excesso, da hybris, como diria os gregos antigos; terceiro, porque se transforma numa empresa idealizada da consecução dos objetos impossíveis vividos e supostamente experimentados como objetos apreendidos e controlados; quarto, porque não se constitui em processo de distribuição, mas de acúmulo. Isso incide, entre outras coisas, na objetificação do sujeito, tanto de quem goza dessa posição quanto de quem é gozado dela. Queremos dizer, a nossa vida social nesse paradigma ideológico e político que ressaltamos acima é regida por uma espécie de utilitarismo. A nossa expressão subjetiva também.

Exemplifico com a questão da infecção da covid-19: o indivíduo que inadvertidamente, ou nem aí para as advertências de afastamento e isolamento social, para o uso de máscaras e para a importância e necessidade sanitária da vacinação, faz prevalecer seus interesses, vontades, prazeres e gozos em plena crise sanitária mundial num plano acima dos demais, bem, ele pode estar, e não raro está (vide esse novo pico), infectado pelo coronavírus e muitos deles desenvolveram ou desenvolverão formas graves da moléstia, ou infectou pessoas próximas, algumas, supomos, queridas, -- a considerar que para essas pessoas existem outras que lhes sejam queridas --.

Esse indivíduo no final do ano, mesmo antes e depois, participou euforicamente de festas, foi a Bares e Restaurantes lotados, reuniu-se com amigos e parentes, viveu como se nada estivesse a ocorrer em termos sanitários, fez questão de aglomera-se num flagrante desafio às regras sociais e da exceção sanitária. Ele transbordou e transgrediu à vontade, e debochou muito de qualquer forma de interdito social.

No entanto, em consequência de seu ato, e pelo que o estimula a esse, ele está, digamos assim, infectado sobretudo pela soberba de seu egocentrismo, que via de regra, e cinicamente, chama de liberdade. Mas, como vemos, ele está calçado ideologicamente para isso, para viver dessa maneira.

Viver a vida como se não houvesse amanhã, lançar-se ao prazer e somente ao prazer sem admitir qualquer forma de desprazer ou de frustração e de privação ao seu prazer e ao seu gozo, viver sem limites e fronteiras, e sem a dimensão existencial do outro. No limite da lógica neoliberal essa é a excelência de seu modus vivendi. Portanto, isso não é apenas o excesso de uns, muitos que sejam, isso é a própria lógica de um sistema, seu ideal e discurso social hegemônico. E isso é cumprido como um determinismo social, um valor em si mesmo. O ethos desse novo tempo.

Em 1972, Lacan formulou o seu discurso do capitalista apresentado em uma Conferência que proferiu em Milão, na Itália. Nesse discurso, que poderíamos dizer uma variação aos discursos que apresentou em seu Seminário: o Avesso da psicanálise (1969-70), particularmente ao discurso do mestre, ele, Lacan, meio que antecipou os matizes do discurso do novo ciclo do sistema que já se edificava e logo, logo, lograria a condição de dominante no cenário global, especialmente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o declínio do Regime Soviético, em 1991, que abriu mundialmente as cancelas para a hegemonia absoluta do sistema liberal, conforme as vontades e interesses das potências ocidentais dominantes, tendo os Estados Unidos a frente, mas seguido de perto pela União Europeia. Um mundo que determinaram unipolar. Se me entendem, o de um Senhor que manda, e de outros que se lhes são submetidos, submissos, emudecidos.

No discurso do capitalista proposto por Lacan não havia mais barreiras frente ao real, como nos demais discursos que enunciara antes (mestre, histeria, universitário e analista). Não havia mais barreiras ao gozo, pois esse operador discursivo apresentava uma fluência total entre uma posição e outra sem que entre elas operasse o interdito, ou seja, aquilo que estabelece algum limite aos gozos, aos processos psíquicos e nos coloca numa ordem social premida pela Lei.

Não! a lei agora e doravante não seria mais um consenso das coletividades, das falas produzidas do conflito social, um pacto civilizatório, político, mas o que desse na cabeça de cada um, na convicção de cada um, sobretudo os mais fortes, os mais poderosos, e pouco importa as consequências disso.

A análise atenta dessas questões permitiu ao psicanalista francês Charles Melman dizer que estamos a viver não simplesmente uma mudança social e cultural, o que é normal na vida humana, e historicamente é demonstrado, mas estamos a viver uma autêntica mutação cultural, e que ela está em curso (Melman, 2004), transformando radicalmente as nossas representações simbólicas e societárias.

A lógica do consumo que fundamenta essa nova cultura e economia não é a de simplesmente adquirirmos os objetos que nos faltam e suprem nossas necessidades, demandas e desejos (nunca atendidos prontamente), mas a de consumir “aquele objeto” que seria propriamente o ser de nós outros, -- se é que podemos enunciar assim senão com alguma licença --. É o que o psicanalista argentino Ricardo Goldenberg chama de o “consumidor consumido” (1997), e emendo, ao dizer que consumido pelo objeto que consome, e pela estrutura que determina essa forma de consumir, e de viver. Essa nova lógica societária faz dos objetos, especialmente os objetos de consumo, o sujeito nas relações de objeto, e de algum modo nas relações ao outro, as relações sociais, e nós somos aquilo que fora objetificado nesse consórcio. Nós somos a mercadoria, observem, não apenas a nossa força de trabalho como assinalou Marx a despeito da mais-valia, mas o que se diz o nosso ser, a nossa própria existência.

E por que consumimos assim? Por que demandamos os objetos de consumo com essa volúpia que extrapola o desejo (o que nos colocaria diante da falta) e incide como uma necessidade? Podemos cogitar algumas razões a respeito, mas há uma que é importante destacarmos, a saber, as razões do sistema hegemônico, cujo marco subjetivo, como disse antes, acima, não é o sujeito (dividido, incompleto, marcado pela falta-a-ser), mas o indivíduo (não dividido, pleno, orgânico), cuja ilusão existencial é a da apreensão do objeto real a fim de se satisfazer e se realizar completamente. Desse modo, esse sistema propõe uma funcionalidade de economia política e psíquica adicta. Uma modalidade de gozo social que em muito se assemelha à toxicomania, e não à toa, a toxicomania, como ressalta Melman (1992), tornou-se em nosso tempo histórico, dado os discursos dominantes, em um sintoma social. E não apenas um acontecimento periférico em nossas sociedades. 

Se me permitem, esse é o triunfo do atual estágio do capitalismo e sua ideologia neoliberal. Portanto, a Senhora Thatcher não errou naquilo que vaticinou; ela soube enunciar bem os marcos econômicos, políticos e subjetivos desse novo tempo, donde já não falamos, reitero, de sujeito (dividido), mas de indivíduo (indiviso), portanto, lançado em uma aventura/desventura da majestade do Eu, uma versão do que nos falava Freud em “Sua majestade o bebê” (1914), posição em que esse ich lust (eu prazer) não se quer ultrapassar em sua subjetivação para não se privar desses objetos que iluminam a sua vida gozosa e daí sustentar-se num modelo de idealização que Freud nomeou por Eu Ideal. A saber, que a minha vida psíquica e social é controlada e determinada pela projeção de meu espelho, o outro é apenas o que reflete o meu espelho, o semelhante e não o diferente, a minha imagem projetada, idealizada, e os meus heróis especulares são os que forjam o meu Eu, meu mundo absoluto e soberano, narcísico, individualista.

Ora, para a realização da vida de todos nós é preciso que haja gozos, prazeres, ideais, sonhos, desejos, mas também é preciso que haja moderação disso para realizarmos os tantos compromissos da vida em sociedade. O sujeito dividido é o sujeito falante, aquele que expressa seu desejo, e que marcado pela lei simbólica, pela diferença, pela falta, e que no âmbito social faz-se cidadão, tem responsabilidade com o outro que compreende outro sujeito. Já em uma vida organizada a partir de indivíduos nos aproximamos de uma coisa que é sobretudo orgânica e não subjetivada. Prevalece o Eu, as vontades imperiais e imaginárias do narcisismo, e o não cuidado ao outro, além de uma não mediação e distribuição dos gozos. Ademais, no âmbito político, prevalece as lógicas autoritária e despótica em detrimento de lógicas solidária e democrática.

Isso exposto, bem, estamos a ver e a experimentar em nosso mundo contemporâneo. Estamos arcando as consequências de nosso estilo de vida socialmente não apenas irresponsável, mas desprevenido, indiferente e odioso para com o outro, para com o que é diferente de si mesmo, para com o ambiente. Desligado e descomprometido em relação a tudo que não seja o espelho. Um estilo que se basta no Eu, ou como dizia Lacan (1969-70), se sustenta politicamente numa Eucracia.

Deixo-lhes, pois, a meditar.

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