O ministro da educação e Zeca Pagodinho...

Quando li a entrevista do ministro Ricardo Vélez Rodrigues, onde ele nomeia de "canibal" os brasileiros e nos acusa de ladrões me veio à lembrança Zeca Pagodinho em Duque de Caxias (RJ), em 2013. "...confesso, sou de origem pobre, mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez". É assim que somos, ministro, foi assim que Deus (e a História) nos fez. Mas, você não entende, não sabe. Não sabe de nada!

O ministro da educação e Zeca Pagodinho...
O ministro da educação e Zeca Pagodinho... (Foto: Marcelo Camargo - ABR)

"O brasileiro viajando é um canibal, rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião" (Ministro Ricardo Vélez Rodrigues. Revista Veja, 01/02/2019)

Antes de tudo, minhas mais sinceras desculpas ao meu ídolo e muito admirado brasileiro Zeca Pagodinho por pô-lo em tão nefasta companhia, já no título deste artigo. Imploro aqui à sua generosidade e esclareço que seu nome aparece em oposição ao sinistro ministro, não em conjunção a ele.

É que, quando li a entrevista do ministro Ricardo Vélez Rodrigues, onde ele nomeia de "canibal" a todos nós brasileiros e nos acusa de ladrões que, quando viaja, "Rouba coisa dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião (...)", me senti magoado, ofendido e revoltado e, numa reação imediata, me veio à lembrança Zeca Pagodinho em Duque de Caxias, no RJ, em 2013 ajudando os desabrigados pelas chuvas daquele início de ano.

"...confesso, sou de origem pobre, mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez".

É assim que somos, ministro, foi assim que Deus (e a História) nos fez. Mas, você não entende, não sabe. Não sabe de nada! – Já dizia o filósofo popular: "Malandro é malandro, Mané é Mané" e você, ministro, não é o malandro.

O discurso do ministro é a repetição de um discurso antigo de nossa terra. Nosso ministro, reproduzindo a mentalidade dominante da elite nacional, tem vergonha do brasileiro pobre que não consegue ter a "educação" e a finesse do europeu. Foi sempre assim que a elite brasileira olhou para o povo do Brasil. Degenerado, malandro, ordinário, preguiçoso, boçal.

Serviçais e vassalas da cultura estrangeira, europeia e norte americana, a elite brasileira sempre se envergonhou de seus compatriotas pobres.

Sempre de costas para o Brasil...

Em outra entrevista, ao jornal Valor Econômico, o ministro disse que "As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual..."

Outro sambista, brasileiro orgulhoso, Bezerra da Silva registra:

"Voce me chamou para esse pagode e me avisou 'aqui não tem pobre' até me pediu pra pisar de mansinho, porque sou da cor, eu sou escurinho..."

É, em outras palavras, isso o que disse o ministro. Nós, pobres, da cor, escurinhos, no pagode da educação temos que pisar de mansinho.

Um outro estrangeiro, como ministro Vélez que, radicado no Brasil, é de origem colombiana, também deixou registrado o seu desapresso por nosso povo. O Conde francês, Arthur de Gobineau, que a convite das elites nacionais permaneceu no Brasil por quinze meses, disse, em 1876: "Trata-se de uma população totalmente mulata, viciada no sangue e no espírito e assustadoramente feia". Um século após – jogando no lixo a constatação do Conde- transformamo-nos nessa bela gente, sorridente e feliz que encanta o mundo todo.

No mesmo lixo, encontramos as observações de outro membro da elite nacional, João Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que afirmou, em 1911: " o Brasil mestiço de hoje tem no branqueamento em um século sua perspectiva, saída e solução". Esse branqueamento seria proporcionado pelo cruzamento dos mestiços feios brasileiros com os bonitos sangues brancos puros europeus. Daí o incentivo à imigração maciça de alemães, espanhóis, italianos e outros povos europeus brancos, no início do século XX.

Sempre o mesmo motivo: Vergonha do brasileiro pobre.

Esse pensamento darwinista social, eugênico, era preponderante no final do século XIX e início do XX, inclusive, era compartilhado pelo pensador Oliveira Viana, objeto de estudo do ministro e tema central de sua tese de mestrado.

Mas, na verdade, esses senhores do passado e esse senhor do presente, nunca fizeram nada pelo Brasil. Eles nunca gostaram do Brasil, sempre tiveram vergonha do brasileiro, sempre preferiram pagar entrada no Louvre e abandonar às chamas nosso Museu Nacional; sempre preferiram aplaudir as bicicletas de Amsterdã e criticar as ciclovias de São Paulo; preferiram sempre o carnaval de Veneza à Marquês de Sapucaí, o importado ao nacional, o deles ao nosso.

Essa elite nacional nunca fez nada pela formação do Brasil; pela formação de sua cultura, de seu tipo, de seu jeito, seu trejeito e seu jeitinho.

Mas foi justamente isso tudo que a elite desprezou historicamente que fez o Brasil ser Brasil.

O Brasil hoje é o país do futebol por força e ginga de um povo mestiço, pobre.

A culinária brasileira é famosa pelos pratos vindos das senzalas, ranchos e favelas.

Nossa música, confesso, é de origem pobre.

Nossa luta, de ginga e berimbau, vem dos campos de mato baixo, chamados capoeiras, onde negros escravos fingiam que dançavam, mas lutavam.

Nossa universal literatura brasileira vem de mulatos como Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto.

Nosso país, nosso jeito, nossa cultura é engenho e arte dos pobres da terra, sr. Ministro.

Em minha frustração, humilhação, revolta com as falas do ministro Vélez, com sua ação de nos enxergar como canibais, como bestas feras, como vergonha de sua classe social eu me apego aos meus iguais.

Enquanto o ministro e seus parceiros de governo destilam ódio, como forma de militância política, Zeca Pagodinho, do nosso lado, nos (en) canta e ensina a força do amor como combustível à nossa resistência.

Temos o amor, sr ministro, para enfrentar o seu ódio, e cantaremos ao amor quando seu tempo passar.

Zeca nos convida a ver o mundo atual com olhar de quem ama, não de quem odeia.

"Veja o olhar de quem ama.
Não reflete um drama, não.
É a expressão mais sincera, sim.

Vim pra provar que o amor, quando é puro,
Desperta e alerta o mortal.
Aí é que o bem vence o mal.
Deixa a chuva cair, que o bom tempo há de vir".

Obrigado, Zeca.

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