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Emerson Barros de Aguiar

Escritor, bioeticista e professor universitário

37 artigos

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O mito da honestida da direita

Do capitalismo de compadrio à ditadura militar, artigo desmonta a narrativa de moralidade da direita e expõe a relação histórica entre elites

O mito da honestida da direita (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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Uma das grandes farsas políticas da história é a ideia de que a direita representa honestidade, eficiência e meritocracia, enquanto o Estado seria apenas um estorvo atrapalhando os “verdadeiros produtores de riqueza”. É a narrativa neoliberal.

A maior parte dos setores empresariais que passam o dia berrando contra o Estado sobreviveria menos de seis meses sem ele. 

O liberal de vitrine costuma falar como um aventureiro solitário do Velho Oeste, mas vive pendurado em subsídio, isenção fiscal, refinanciamento de dívida, crédito público, proteção alfandegária, perdão tributário e lobby parlamentar. É um sujeito que faz discurso contra mamata enquanto mama com as duas mãos.

No Brasil, então, essa hipocrisia atingiu níveis barrocos. Empresários financiam campanhas milionárias, elegem bancadas inteiras e depois recebem o retorno em forma de contratos, obras, privatizações desenhadas sob medida, renúncias fiscais e legislação conveniente. Chamam isso de “livre mercado”, essa expressão elegante usada para descrever capitalismo de compadres.

O mercado adora a concorrência, desde que ela não ameace seus próprios privilégios. Quando um pobre recebe auxílio do governo, chamam de assistencialismo. Quando um conglomerado bilionário recebe incentivo fiscal, chamam de “obrigação do Estado”.

O sujeito passa o dia dizendo que o Estado é ineficiente, mas depende dele para construir estrada, porto, aeroporto, hidrelétrica, financiar exportação, salvar banco quebrado e garantir segurança jurídica para os seus negócios. Odeia o Estado como o carrapato odeia o cachorro.

A suposta eficiência da direita muitas vezes nasce de um truque simples: privatizar o lucro e socializar o prejuízo. Se dá certo, o empresário aparece na capa da revista como gênio visionário. Se dá errado, corre para Brasília pedindo socorro.

E sempre aparece algum patriota de terno disposto a transferir dinheiro público para “salvar empregos”, “preservar o setor estratégico” ou “evitar instabilidade econômica”. O capitalismo liberal brasileiro frequentemente funciona como um socialismo exclusivo para ricos.

A corrupção estrutural nasce exatamente aí: no casamento promíscuo entre poder econômico e poder político. Empresários financiam candidatos não por amor à democracia, mas por investimento. Deputados tornam-se representantes comerciais de setores empresariais dentro do Estado. Bancadas inteiras passam a legislar para grupos específicos enquanto fazem discursos inflamados sobre patriotismo, moralidade e família.

Tudo muito casto até abrir o cofre. E talvez o mais impressionante seja a persistência do mito. Muita gente ainda imagina empresários como criaturas quase místicas, gênios autossuficientes produzindo riqueza num vácuo, quando boa parte das grandes fortunas nacionais foi construída em íntima associação com o Estado, favores políticos, crédito subsidiado e relações privilegiadas.

O capitalismo brasileiro raramente foi competitivo. Foi cartorial. Uma elite acostumada a lucrar sob proteção estatal enquanto culpa o próprio Estado pelos males que ela ajudou a produzir.

O discurso moralista da direita funciona muitas vezes como perfume caro borrifado sobre um sistema velho de clientelismo, lobby e captura do poder público. Mudam os slogans, os partidos e os porta-vozes. O mecanismo permanece quase intacto.

Um dos mitos que mais precisam ser desconstruídos no Brasil é o de que havia menos corrupção durante o regime militar. A impressão de “honestidade” da ditadura nasceu menos da ausência de roubalheira e mais da ausência de liberdade para investigá-la, denunciá-la ou sequer comentá-la em voz alta. É fácil parecer moralmente puro quando jornalistas são censurados, opositores perseguidos e documentos escondidos sob sigilo militar.

A corrupção da ditadura não desapareceu. Apenas vestiu farda, ganhou proteção institucional e passou a operar longe dos olhos do público. Enquanto estudantes eram presos por distribuir panfletos, empreiteiras enriqueciam com obras bilionárias superfaturadas, empresários recebiam empréstimos generosos de bancos públicos e aliados do regime transformavam patriotismo em negócio altamente lucrativo.

O chamado “milagre econômico” brasileiro foi também um milagre para grandes grupos privados alimentados pelo Estado. Havia uma íntima associação entre militares, tecnocratas, empreiteiras, bancos e multinacionais. A repressão ajudava inclusive a manter sindicatos enfraquecidos, greves sufocadas e trabalhadores sob medo permanente — um ambiente excelente para maximização de lucros.

A ditadura criou uma forma particularmente eficiente de corrupção: a corrupção blindada pelo medo. Sem imprensa livre, sem tribunais independentes e sem transparência pública, escândalos dificilmente vinham à tona. E quando surgiam sinais de irregularidade, o próprio aparato autoritário tratava de abafá-los. Não existia liberdade suficiente para fiscalizar o poder.

A nostalgia daquele período revela muitas vezes um equívoco perigoso: confundir silêncio com honestidade. Ditaduras costumam parecer “organizadas” porque controlam a informação, intimidam críticos e escondem sujeira atrás da censura. Mas um governo que precisa prender, torturar e censurar para preservar sua imagem moral já fracassou eticamente antes mesmo de abrir os cofres públicos.

A ditadura brasileira nunca foi apenas militar. Foi um grande condomínio entre fardas, empresários e parasitas de gravata. Enquanto os generais discursavam sobre Deus, pátria e civilização ocidental, muita gente enriquecia silenciosamente nos bastidores, mamando no Estado com a sofreguidão de ratos diante de um celeiro aberto.

Havia torturadores nos porões e ladrões nos escritórios. Uns arrancavam unhas; outros arrancavam verbas públicas, contratos superfaturados, incentivos, terrenos, empréstimos subsidiados e obras bilionárias. Tudo em nome do combate ao comunismo, esse espantalho útil que permitia transformar saque em patriotismo.

A repressão não servia apenas para perseguir estudantes, jornalistas, sindicalistas e professores. Servia também para proteger negócios. O medo era um excelente guarda-costas para a corrupção. Num país onde pessoas desapareciam, ninguém fazia muitas perguntas sobre licitações.

Criou-se uma irmandade obscena entre coturno e capital. Empresários financiavam repressão, forneciam veículos, listas de funcionários “subversivos”, dinheiro, apoio logístico e jantares elegantes para homens que passavam o dia espancando presos em quartéis abafados.

Enquanto isso, a propaganda vendia ao povo a imagem de um Brasil forte, moderno e moralizado. Era mentira. Por trás dos slogans ufanistas existia um país governado por uma elite voraz, alcoolizada de poder e dinheiro público.

A ditadura não limpou a corrupção. Ela profissionalizou a corrupção sob proteção armada. E talvez essa seja sua herança mais duradoura: convencer parte da população de que brutalidade é sinônimo de honestidade.

O chamado “milagre econômico brasileiro”, vendido até hoje por saudosistas como prova da eficiência moral dos generais, foi também um gigantesco laboratório de concentração de renda, favorecimento empresarial e endividamento público. O país crescia, mas crescia para poucos. Grandes empreiteiras tornaram-se impérios graças à intimidade com o regime. Prosperaram alimentadas por obras faraônicas financiadas com dinheiro público, sem fiscalização séria, sem transparência e sob censura pesada. Enquanto operários morriam em canteiros abafados e migrantes enchiam favelas urbanas, executivos brindavam em restaurantes luxuosos ao lado de ministros e oficiais.

A Transamazônica tornou-se talvez o símbolo máximo dessa megalomania corrupta. Vendida como epopeia nacional, devorou recursos públicos em proporções monumentais. Estradas abertas às pressas no meio da floresta apodreceram sob chuva e lama, muitas sem utilidade prática, enquanto contratos milionários irrigavam empresas amigas do regime. O mesmo aconteceu com Itaipu, projeto gigantesco cercado de denúncias históricas de superfaturamento, favorecimentos políticos e negociações opacas entre governos e corporações. O gigantismo das obras servia menos ao povo do que à fabricação de fortunas privadas sob a proteção da bandeira nacional.

Havia ainda a promiscuidade direta entre multinacionais e repressão política. Empresas estrangeiras colaboraram ativamente com os órgãos de vigilância do regime. A Volkswagen tornou-se um dos casos mais conhecidos. Investigações posteriores revelaram colaboração de setores da empresa com a repressão, incluindo monitoramento de funcionários e repasse de informações a órgãos de segurança. Operários suspeitos de simpatia sindical ou atividade política eram observados como inimigos internos. Em alguns casos, trabalhadores foram presos após denúncias feitas dentro do próprio ambiente empresarial. A fábrica deixava de ser apenas local de produção para se transformar em extensão do aparelho repressivo.

Não era exceção. Grandes grupos empresariais compreendiam perfeitamente a utilidade da ditadura: sindicatos enfraquecidos, imprensa censurada, greves reprimidas e trabalhadores aterrorizados criavam um ambiente ideal para maximização de lucros. A tortura não era apenas instrumento ideológico; era também ferramenta econômica. Cada estudante espancado, cada jornalista silenciado e cada líder sindical desaparecido ajudavam a manter intacto um modelo de acumulação baseado em medo e submissão.

Enquanto isso, os generais cultivavam a imagem pública de austeridade patriótica. Falavam contra a corrupção como padres moralistas pregando castidade dentro de um bordel. Na prática, multiplicavam-se escândalos abafados pela censura. O Caso Capemi, envolvendo a Caixa de Pecúlios dos Militares, revelou esquemas financeiros nebulosos, favorecimentos e desvios milionários. O escândalo da Coroa-Brastel mostrou ligações perigosas entre especulação financeira, interesses políticos e figuras próximas ao poder. Mas a maioria dessas histórias jamais alcançava plenamente a população, porque jornais eram censurados, redações intimidadas e jornalistas perseguidos.

A ditadura criou uma espécie de capitalismo de compadrio armado. O Estado escolhia vencedores, distribuía empréstimos generosos através de bancos públicos, concedia incentivos fiscais seletivos e financiava conglomerados privados com dinheiro da população. Nacionalismo e anticomunismo funcionavam como cobertura ideológica para uma gigantesca transferência de riqueza. Privatizavam-se lucros; socializavam-se dívidas.

E havia ainda a corrupção invisível, talvez a mais profunda: a corrupção moral. Uma geração inteira foi ensinada a acreditar que violência podia ser virtude política. Que censura era proteção. Que tortura era necessidade histórica. Que obedecer cegamente ao poder era patriotismo. A brutalidade ganhou verniz de ordem. O medo ganhou uniforme.

Por isso a memória da ditadura continua tão disputada. Porque admitir a podridão daquele sistema significa desmontar um mito muito conveniente para setores que ainda hoje lucram política ou economicamente com a fantasia de um passado “honesto” e “disciplinado”. A nostalgia da ditadura não nasce apenas da ignorância histórica. Muitas vezes nasce também da saudade de hierarquias rígidas, privilégios protegidos e silêncios impostos à força.

A ditadura brasileira foi uma imensa sociedade entre porões e cofres. Uma ilustração perfeita da associação entre interesse privado e Estado. Alguns sujavam as mãos de sangue. Outros enchiam as mãos de dinheiro. E ambos se protegiam mutuamente sob a mesma bandeira verde e amarela. É disse que a plutocracia tem saudade, apesar de todos os privilégios que continua a ter.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.