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Alexandre Aragão de Albuquerque

Escritor e Mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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O mito de Procusto

Como o pensamento rígido e a manipulação da linguagem alimentam crenças que distorcem a realidade e sustentam projetos autoritários no Brasil

Representação do mito de Procusto (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

Da mitologia grega temos a possibilidade de acessar a alegoria do Leito de Procusto, a qual transporta, com sua metáfora, para o tempo presente, uma carga de enormes desafios.

Procusto, um dos filhos do deus dos mares, Poseidon, vivia numa península da Grécia, a Ática. De enorme força e estatura, caracterizava-se por seu comportamento amável e afetuoso com os viajantes que circulavam por aquela região.

Os viandantes se encantavam com seu acolhimento afetivo e esmerada narrativa, aceitando de imediato seu convite para descansar em sua casa, alimentarem-se, repousarem em seu leito e, depois, seguirem a viagem.

Contudo, assim que adormeciam, Procusto os amordaçava e os amarrava nas quatro esquinas da cama para verificar se eles se ajustavam corretamente a ela. Se o viajante possuía uma estatura além, ele serrava suas extremidades para que se encaixasse nos limites da cama. E, caso o indivíduo fosse menor que as medidas do seu leito, ele esticava suas extremidades com marteladas até que ficassem de acordo com a medida exata.

Ao reduzir e deformar as pessoas de acordo com sua própria medida, Procusto se tornou uma metáfora da banalização instituída, da redução do espírito ou da energia psíquica e vital a uma dimensão medíocre e normatizada. Ele representa a perversão ética da tirania intelectual praticada por pessoas que não toleram a diferença de pensamento, comportamento e ações. O Leito de Procusto perfaz a tirania de pessoas e de sistemas totalitários.

No tempo presente, a expressão é usada para descrever as tentativas de forçar a adaptação de algo ou alguém a um padrão rígido e inflexível, geralmente por meio de sacrifícios e sofrimentos, mediante a imposição de um molde, de uma única medida, de um pensamento único ou de uma única visão de mundo, sancionando ou mutilando tudo o que não se encaixa ao padrão dominante.

2. O leito de Procusto e o viés de confirmação

Há, no campo psicológico, um conceito denominado Viés de Confirmação, uma espécie de irmão gêmeo daquilo que foi tão bem desenvolvido pela mitologia grega. O Viés de Confirmação é uma espécie de falha cognitiva, ou seja, uma tendência psicológica que afeta o julgamento e a tomada de decisões.

Trata-se de uma tendência de interpretar, favorecer e buscar informações de maneira a confirmar crenças, hipóteses ou opiniões que já se possui, desconsiderando, ou dando menos crédito às evidências que as contradizem.

Pessoas e grupos procuram fontes e argumentos que apoiam e fortalecem seus pontos de vista, alimentando sua memória seletiva para confirmar suas crenças, levando-as a um excesso de confiança nas próprias convicções e desenvolvendo enorme dificuldade em aceitar fatos que refutem sua visão pessoal de mundo. Isso contribui para a formação de preconceitos e hermetismos exacerbados, desenvolvendo mecanismos de auto-blindagem para ignorar, desqualificar ou condenar aquilo que as contradiz.

3. Viés de confirmação e os fundamentalismos religiosos

No campo religioso, onde operam expressivos fundamentalismos fundados em teologias rasas e manipuladoras de corações e mentes, o Viés atua de forma bastante expressiva e de fácil observação.

O fundamentalismo se baseia em uma interpretação literal e inerrante de textos considerados sagrados, envolta por uma visão maniqueísta do mundo: o bem (nós) versus o mal (os outros).

Essa rigidez atua como uma crença central e inabalável. Qualquer informação ou fato que questione a inerrância ou o dualismo é imediatamente classificado como secular, mundano ou demoníaco, ativando o Viés para rejeitá-lo e proteger o núcleo da crença.

Igrejas e movimentos religiosos fundamentalistas priorizam suas próprias fontes de produção de mensagens e conteúdos, como pregações de seus pastores — que representam a vontade de Deus —; livros considerados sagrados, interpretados literalmente ao pé da letra; ritos sistemáticos; canais próprios de comunicação. Tudo para validar sua rígida visão maniqueísta de mundo, o qual, para elas, está dividido entre o Reino de Deus e o Reino do Inimigo.

Além disso, os eventos cotidianos são sempre interpretados à luz de tal convicção. No caso exemplar da teologia da prosperidade, a fé leva diretamente ao sucesso material, à saúde e à vitória sobre os problemas, criando um ciclo de confirmação. Quando um crente vê melhoria em alguma área de sua vida, a crença na doutrina é alimentada. Um sucesso financeiro é visto como uma bênção divina e comprovação da fé do crente.

Por outro lado, uma doença ou adversidade é expressa como um ataque espiritual do Inimigo, ou falta de fé do crente, e não como um evento provocado por outras causalidades naturais, sociais, econômicas, políticas ou psicológicas. Os testemunhos de milagres e prosperidade são lembrados e reforçados com frequência, enquanto os fracassos ou as contradições doutrinárias e práticas são relativizados, minimizados ou esquecidos.

Destaque-se que o grupo religioso funciona como uma câmara de eco social. Ao interagir quase única e exclusivamente com pessoas que compartilham as mesmas crenças e a mesma interpretação dos fatos, o indivíduo recebe um fluxo constante de confirmação. Críticos são desqualificados e rotulados de hereges ou desgarrados. O resultado é um sistema de crenças fechado, altamente resistente a argumentos racionais e científicos que possam abalar seu fundamento.

Há também aqueles grupos — novas comunidades — centralizados em experiências emocionais fortes, as quais são afirmadas como prova da presença e ação de Deus. Sensações como bem-estar, “calor no peito”, choro ou desmaios são interpretados imediatamente como manifestações do Espírito Santo, confirmando que a fé está viva e atuante.

Qualquer crítica que sugira que tais fenômenos possam ter origens psicológicas, sugestivas ou emocionais (e não puramente divinas) é rapidamente descartada como ceticismo, falta de fé ou mesmo ataque do Maligno.

Outro pilar dessas igrejas e movimentos religiosos é a crença na cura divina, a qual funciona como um poderoso ativador do Viés de Confirmação. Os fiéis reunidos concentram-se em testemunhos de cura divulgados pelos pastores e pregadores, em canais de comunicação. O foco é sempre na exceção (o milagre relatado), e não na regra geral (as pessoas que oraram e não foram curadas). A interpretação da não cura é racionalizada como “um mistério da vontade de Deus” ou como necessidade de mais fé por parte do crente, pois a doutrina está sempre certa.

4. O viés de confirmação e o bolsofascismo

Como se apreende do exposto acima, o Viés de Confirmação não é apenas um fator, mas um mecanismo estrutural que ajuda a construir e manter a base de apoio ideológico de um determinado grupo. O bolsofascismo, como movimento político e social da extrema direita brasileira, nutre uma retórica e uma tática de ação política baseadas na produção contínua de inimigos, direcionadas de forma estratégica por suas lideranças e operadores de comunicação.

O seguidor raiz, direcionado a acreditar piamente nas narrativas bolsofascistas, busca ativamente acompanhar e integrar os grupos e canais que as reforçam, evitando outras fontes de informação e conhecimento. Esse movimento cria uma gramática própria, uma espécie de “socioleto de grupo”, definido como uma variedade da língua falada por um grupo social específico, diferenciando-se dos dialetos regionais e do idioleto individual, refletindo as características sociais do grupo falante, como gírias e ideias, que se tornam marcas de identidade e comunicação desse grupo.

Qualquer fato que contradiga a narrativa bolsofascista é previamente rotulado como fake news ou conspiração da esquerda, permitindo que seus seguidores o descartem instantaneamente sem análise racional, configurando um Viés de Confirmação em ação.

Para isso, eles buscam compartilhar em seus grupos narrativas que, por exemplo, demonstram a “imoralidade” praticada pelo lado inimigo (como “a mamadeira de piroca”) para confirmar que o lado deles (“o bem”) é o único detentor da moralidade e, por extensão, o único capaz de comandar o Brasil.

Consequentemente, qualquer ação institucional (STF, TSE, PGR, Congresso etc.) que vise limitar o poder ou a narrativa do seu líder — considerado como um Ungido de Deus para governar o Brasil — e do seu movimento de extrema direita é considerada imediatamente como ato de conspiração (Viés de Confirmação), e não como exercício legal e legítimo dos poderes democráticos e republicanos.

Ainda, os seguidores do bolsofascismo constroem uma narrativa negacionista, por meio de vídeos, textos e palestras, reforçando a ideia de que a verdade está escondida e de que eles são os iluminados que a descobriram, aumentando entre si o sentimento de pertencimento e propósito, conforme muito bem analisado pelo psicólogo Christian Dunker.

Em suma, o Viés de Confirmação é uma ferramenta cognitiva que permite ao bolsofascismo construir e manter seu universo fraudulento, isolando seus seguidores de fatos e argumentos que poderiam ameaçar seu projeto autoritário de poder.

5. Viés de Confirmação e a novilíngua

Em valoroso artigo publicado na Locus Revista de História (Juiz de Fora – MG, v. 25, n. 2, p. 307-332, 2019), o professor doutor Francisco Carlos Teixeira da Silva, titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IH/UFRJ), dedicou-se a examinar a “novilíngua”, conforme o conceito de Victor Klemperer, ou um socioleto, a partir da sociolinguística dos grupos sociais e políticos de ultradireita no Brasil do tempo presente.

Em especial, aqueles que promovem discursos de ódio contra grupos sociais, raciais, regionais ou de gênero e recusam a história do passado recente, incluindo a do Regime Civil-Militar de 1964. Ele focou no discurso político de partidos como o então PSL (Partido Social Liberal), movimentos sociais de extrema direita, personagens e atores políticos que recusam a Democracia Representativa e o Estado Democrático de Direito.

Segundo Teixeira, a principal função da novilíngua é anular o inimigo político antes mesmo que ele possa falar. O método consiste em usar termos simples, repetitivos e carregados de valor negativo (como esquerdopata, isentão, mídia podre, comunista) para desqualificar o adversário. Ao desfechar tais rótulos, a novilíngua evita o debate de ideias em sua profundidade e complexidade. O oponente é reduzido a um arquétipo do mal, possibilitando aos bolsofascistas descartar qualquer argumento vindo dele, independentemente do conteúdo.

Ela funciona como um código de comunicação que isola o grupo em sua bolha e reforça o sentimento de pertencimento. O uso e a compreensão desses termos e sentidos específicos demonstram lealdade ao grupo e ao líder. Quem não usa ou não entende o jargão é tido como inimigo.

O grupo passa a viver em uma realidade linguística própria, onde os fatos externos só são válidos se traduzidos para os termos da novilíngua.

Além disso, a novilíngua tem como propósito esvaziar palavras importantes de seu significado original. Por exemplo, o termo “corrupção” pode ser usado de forma ampla e generalizada apenas para o lado do inimigo, ignorando-se as evidências ou práticas de corrupção no próprio campo. Da mesma forma, a palavra “liberdade” passa a significar apenas a ausência de restrições às ações do grupo bolsofascista, em detrimento de sua responsabilidade social e institucional ou da liberdade dos outros.

Para Chico Teixeira, a novilíngua não é apenas sobre o que se diz, mas sobre o que ela faz. A repetição constante dessas palavras-chave funciona como um mecanismo de validação: quanto mais um termo é repetido pelo grupo, mais ele se torna “verdade” para seus membros, independentemente da verificação factual. A linguagem é usada para mobilizar emoções (raiva, ódio, preconceito, violência) mais do que para transmitir informações.

Em resumo, Chico Teixeira analisa a novilíngua como uma estratégia política de desinformação e controle (Viés de Confirmação), que usa a linguagem de forma destrutiva para construir uma realidade paralela impermeável aos fatos, onde a lealdade é mais importante do que a verdade.

Para Teixeira, as palavras têm peso e desempenham um papel fundamental no processo de fascistização. No socioleto fascista, a linguagem totalitária exerceu — e continua exercendo — um papel fundamental para normalizar a violência e naturalizar o desumano, em especial o cotidiano da tortura: “somente uivando de dor, o torturado é apenas corpo e nada além disso”. Vide as 700 mil mortes de brasileiros e brasileiras por Covid, que causaram profundo sofrimento às suas famílias, enquanto o infame bolsofascista dizia que não tinha nada a ver com aquela tragédia sanitária brasileira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.