O modus-operandi das Big Techs

Professor e engenheiro Roberto Moraes avalia os casos do Facebook, Amazon e Tesla. "As três Big Techs, todas estadunidenses, fizeram parte da lista Top 100 do FT como as corporações que mais ganharam valor de mercado no mundo, a partir da Pandemia da Covid-19"

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REUTERS/Dado Ruvic (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)
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Três casos ocorridos há pouco tempo mostram bem as garras e a forma de operar das gigantes do setor de tecnologia, as Big Techs. Estes casos demonstram ainda como estas corporações não abrem mão de sua dominação, quase total, sobre os demais setores econômicos (frações do capital), sobre a sociedade e, em especial, sobre o poder político e o Estado.

O breve relato feito aqui será do caso mais recente para o mais antigo. Eles versam respectivamente sobre o Facebook, a Amazon e a Tesla. As três Big Techs, todas estadunidenses, fizeram parte da lista Top 100 do FT (29 junho 2020) como as corporações que mais ganharam valor de mercado no mundo, a partir da Pandemia da Covid-19; respectivamente na sexta, primeira e quarta posições. [1] 

A Facebook com 2,7 bilhões de usuários no mundo possui valor de mercado de cerca de US$ 700 bilhões, a Amazon cerca de US$ 1 trilhão e a Tesla de aproximadamente US$ 200 bilhões. As três somadas atingem um valor de mercado que é 50% acima do PIB do Brasil, a oitava maior economia do mundo. [2]

Como se vê na condição de empresas (corporações possuem mais valor que a maior parte dos países do mundo. Esse fato pode ajudar a explicar a influência deste gigantismo sobre suas ações no campo da geoeconomia, da geopolítica e das relações de poder sobre os trabalhadores e sobre a sociedade.

1) Caso do Facebook descrito há poucos dias pelo jornal americano Wall Street Journal de que o seu presidente Mark Zuckerberg orienta cada vez sua empresa para favorecer os sites e tendências conservadoras, de direita, e prejudicar os progressistas e da esquerda em relações de interesse direto de Trump com promessas de proteção de ações governamentais antitrustes. [3] 

2) Caso da Amazon relatado aqui em 1 set. 2020, pelo site Vice Media Group informando que a empresa contrata espiões para reprimir questionamentos de trabalhadores e organização de sindicatos. Essas contratações foram anunciadas abertamente no site da Amazon e depois retirada para duas vagas na função de “analista de inteligência” com atividades previstas de “vigilância”, similar às usadas por agências de inteligência de governos, para monitorar organizações de trabalhadores, de forma similar aos que fazem as agências ao acompanhar críticos dos governos. Já são bastantes conhecidas as ações da Amazon, do empresário americano Jeff Bezos, contra sindicalizações e organizações de trabalhadores. Há muito se sabe que a Big Tech gasta com espionagem de ativistas. Essa espionagem corporativa vem crescendo com o uso de recursos cibernéticos através também da contratação de ex-funcionários das agências de inteligência dos governos. [4]

3) Caso da Tesla relatador por vários jornais americanos e depois reproduzido em todo o mundo por outras mídias que o fundador e dono da empresa americana de carros elétricos, o bilionário Elon Musk, admitiu publicamente, em suas redes sociais que teria apoiado os Estados Unidos no golpe na Bolívia para garantir o suprimento de lítio, material utilizado na bateria de seus carros elétricos. [5]

Os três casos reforçam as análises e as interpretações sobre o “modus operandi” das Big Techs em termos de atuação na disputa e controle sobre o poder político e sobre todas as pessoas e organizações que lhe possam ser críticos.

Há outros casos similares sobre a Google, Apple e Microsoft e seus lobies e pressões, em defesa dos seus interesses que levam à uma maior e melhor compreensão, sobre os efeitos do gigantismo econômico destas corporações (Big Techs) e sobre a dominação que hoje, o setor de tecnologia sobre a exerce, em termos de manipulação e controle do poder político e geopolítico a nível global.

Esses casos também servem também para reafirmar como a inovação tecnológica tem acentuado ainda mais as assimetrias e desigualdades no interior das nações e entre elas na disputa por hegemonia. Não é por outro motivo que a China optou por ter as suas Big Techs.

O setor de tecnologia deixou de ser apenas um fator de produção e segue sendo o maior oligopólio da história do capitalismo mundial. Ele segue sem ser regulado. Quando muito as próprias corporações tomam algumas medidas frágeis - e questionáveis -, para passar ao público a ideia de que o caminho para os problemas seria a própria autorregulação.

A União Europeia tenta há praticamente dez anos agir sobre as Big Techs nos EUA, até agora, com mais pressões que resultados. O mesmo acontece com os movimentos e as investigações dos procuradores Departamento de Justiça dos EUA contra essas mesmas Big Techs.

A Google está sendo agora a mais questionada, mas no fundo, tudo isso mais parece ameaças para negociações entre as partes do que efetiva disposição para agir. Até porque a questão envolve interesses geopolíticos americanos, na medida em que essas Big Techs atuam em todo o mundo e de forma quase única, em todo o ocidente. Enquanto isso, a alegada democracia liberal ocidental, segue sendo avacalhada, dia a dia com riscos cada vez maior para o tecido civilizacional.

Referências:

[1] Financial Times. FT Series. 19 junho de 2020. P.1-11. Coronavirus economic impact Prospering in the pandemic: the top 100 companies. https://www.ft.com/content/844ed28c-8074-4856-bde0-20f3bf4cd8f0

[2] PESSANHA, Roberto Moraes. Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma. Revista ComCiência, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp em parceria com a SBPC. Dossiê Nº 220, Virtualização, setembro de 2020. Disponível em: https://www.comciencia.br/commoditificacao-de-dados-concentracao-economica-e-controle-politico-como-elementos-da-autofagia-do-capitalismo-de-plataforma/

[3] The Wall Street Journal, em 16 de outubro de 2020. How Mark Zuckerberg Learned Politics.
Facebook’s chief, once uninterested, has transformed himself into an active political operator in the Trump era. Disponível em: https://www.wsj.com/articles/how-mark-zuckerberg-learned-politics-11602853200

[4] Vice Media Group, em 1 de setembro de 2020. Amazon Is Hiring an Intelligence Analyst to Track 'Labor Organizing Threats'. Amazon is looking to hire two people who can focus on keeping tabs on labor activists within the company. Disponível em: https://www.vice.com/en/article/qj4aqw/amazon-hiring-intelligence-analyst-to-track-labor-organizing-threats 

[5] Revista Exame, em 26 de julho de 2020. “Daremos golpe onde quisermos”, diz Musk após insinuações sobre a Bolívia. O bilionário da Tesla reage a seguidor no Twitter sobre suposto apoio à derrubada de Evo Morales para garantir o suprimento de lítio para carros elétricos. Disponível em: https://exame.com/negocios/daremos-golpe-onde-quisermos-diz-musk-apos-insinuacoes-sobre-a-bolivia/

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