O Monumento Zumbi dos Palmares e o retrato da sociedade brasileira

O monumento, localizado na cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente na Av. Presidente Vargas, é, além da devida homenagem ao maior líder da resistência negra da história do Brasil, receptáculo de intervenções de cunho neonazista; foi, outrossim, no último dia 24 de novembro, praça de guerra entre a polícia opressora do governador lesa-humanidade e a massa negra que torce pelo Flamengo. O motivo da disputa, oficialmente, não se sabe ao certo

O monumento, localizado na cidade do Rio de Janeiro, mais precisamente na Av. Presidente Vargas, é, além da devida homenagem ao maior líder da resistência negra da história do Brasil, receptáculo de intervenções de cunho neonazista; foi, outrossim, no último dia 24 de novembro, praça de guerra entre a polícia opressora do governador lesa-humanidade e a massa negra que torce pelo Flamengo. O motivo da disputa, oficialmente, não se sabe ao certo. Além do embate entre os jagunços (ou polícia) de Witzel e a “caravana do Arará, do Caxangá e da Chatuba”, viu-se também o ataque do povo eufórico a dois carros do grupo Globo, que findaram depredados.

A alegoria da sociedade brasileira – dividida politica e economicamente, separada em classes, em estratos e anseios sociais -, pode ser exemplificada neste dia e local no qual o rosto de Zumbi se impunha, revelando o abismo dentro do qual se evidencia o embate que nunca cessou desde os primórdios da invasão europeia: a luta pelo sentido do que é o Brasil, território desde sempre autoritário (salvo raros períodos de emancipação e de soberania popular) em que poucos detêm o poder em detrimento de muitos outrora escravizados e de seus herdeiros de agora, habitantes de periferias, favelas, cortiços.   Na parede da memória dos episódios marcantes da história brasileira, pode-se afirmar que este quadro de excitação do pobre oprimido, consumado pela vitória épica do seu time querido, gozando de uma alegria rara misturada à sublevação e contestação do status quo, é uma amostra fidedigna do que foi e do que é o Brasil. A Casa Grande sempre vai tentar conter o poder de reunião e de manifestação da Senzala, que continua existindo e resistindo em outros moldes e simbologias. A torcida do Flamengo, majoritariamente negra e pobre, imensa, assustou, provavelmente sem se dar conta, a força repressora carioca que, até o final de outubro deste ano de 2019, matou 1546 pessoas (em grande parte negras, pobres, periféricas). 

Nesse sentido, rememorando o Doutor Sócrates, é importante atentar para o caráter de potência política que detêm as grandes torcidas brasileiras. Havendo conscientização de suas possibilidades reivindicatórias quanto aos rumos sociopolíticos do país, existirá uma fenda para alterar a conjuntura opressora em que nos aprofundamos nestes tempos bicudos. Cabe aos progressistas, uma vez mais, realizar este trabalho de base, inspirando-se em Zumbi dos Palmares.

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