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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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O mundo à espera de um gesto — e a falência de quem deveria contê-lo

O que está em jogo não é apenas o Oriente Médio. É a própria noção de ordem internacional

Destroços de suposta aeronave norte-americana destruída no Irã (Foto: Redes sociais via Reuters)

Há momentos na história em que o mundo parece suspenso. Não por ausência de movimento, mas pelo excesso de incerteza concentrada em uma única variável. Hoje, essa variável tem nome: Donald Trump.

Mas há algo ainda mais perturbador do que a imprevisibilidade de um líder.

É o silêncio — e a inação — de quem deveria impor limites.

A irracionalidade no comando

A escalada envolvendo o Irã já ultrapassou o terreno da retórica. A ameaça a infraestruturas críticas, inclusive instalações sensíveis, deixou de ser hipótese distante para se tornar possibilidade concreta.

E, diante disso, o mundo assiste.

Assiste e espera.

A política internacional sempre conviveu com tensões. Mas o que se vê agora é diferente. Não há cálculo claro, não há estratégia transparente, não há compromisso com estabilidade. Há, sobretudo, improviso — e risco.

Quando esse improviso parte do comando dos Estados Unidos, o problema deixa de ser regional. Torna-se sistêmico.

Correntes humanas: quando a população entra na linha de fogo

No interior do Irã, civis formam correntes humanas ao redor de pontos estratégicos.

Não se trata apenas de um gesto simbólico. Trata-se de um grito.

É o reconhecimento de que a guerra já não está distante. Ela se aproxima — e, com ela, a percepção de que ninguém virá impedir o pior.

Quando cidadãos passam a usar seus próprios corpos como barreira, o sistema internacional já falhou.

A ONU: presença formal, ausência real

E é aqui que a situação se torna ainda mais grave.

A Organização das Nações Unidas, criada justamente para evitar que o mundo recaísse em ciclos de destruição descontrolada, simplesmente não atua.

Não media.
Não impõe.
Não contém.

O Conselho de Segurança da ONU, que deveria funcionar como instância de equilíbrio, permanece travado — capturado pelos interesses das próprias potências envolvidas no conflito.

O resultado é uma instituição que existe, mas não opera.

Uma estrutura que fala, mas não age.

Uma presença formal em um mundo que exige ação real.

Estados Unidos e Israel: ação sem contrapeso

A convergência entre Estados Unidos e Israel avança sem obstáculos institucionais relevantes.

E isso altera profundamente o equilíbrio global.

Porque, sem mediação efetiva, o uso da força deixa de ser exceção e passa a ser instrumento recorrente de política internacional.

O que está em curso não é apenas uma operação militar. É uma reconfiguração do próprio funcionamento do sistema global.

O colapso silencioso da ordem internacional

Durante décadas, sustentou-se a ideia — ainda que imperfeita — de que havia regras, limites e canais institucionais capazes de conter escaladas perigosas.

Hoje, essa arquitetura mostra sinais evidentes de esgotamento.

Não porque desapareceu formalmente.

Mas porque perdeu capacidade de produzir efeitos.

E um sistema que não produz efeitos, na prática, deixou de existir.

O perigo maior: quando ninguém segura ninguém

O problema já não é apenas o que Donald Trump pode fazer.

O problema é que não há quem o impeça.

Não há freios institucionais eficazes no plano internacional.
Não há coordenação suficiente entre potências para impor contenção.
Não há uma autoridade reconhecida capaz de intervir.

E isso nos coloca diante de um cenário extremamente instável:

Um mundo em que decisões unilaterais podem desencadear consequências globais sem qualquer mecanismo efetivo de bloqueio.

A normalização do vazio

Talvez o aspecto mais inquietante seja outro.

Estamos nos acostumando.

Acostumando-nos à ausência de mediação.
À fragilidade das instituições.
À ideia de que o conflito pode escalar sem controle.

E, quando isso se torna normal, o risco deixa de ser percebido como exceção.

Passa a ser parte do funcionamento do sistema.

O que está em jogo

Não é apenas o Irã.

Não é apenas o Oriente Médio.

É a própria noção de ordem internacional.

Se a principal instituição criada para preservar a paz se mostra incapaz de agir quando mais se precisa dela, então a pergunta deixa de ser retórica:

Quem, afinal, contém o poder?

E a resposta, hoje, é a mais preocupante possível:

Ninguém.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.