O mundo esqueceu por que 1939 terminou em guerra?
O risco surge, como na Venezuela, da escolha consciente de contornar regras básicas do direito internacional
Há menos de trinta horas, com as capitais ainda imersas na inércia do poder, alguém deslocou o eixo invisível da ordem internacional. Não houve explosões. Houve um som metálico, preciso: o fechamento de uma algema. O mundo não estremeceu. Deu sinais de fadiga. Aquele gesto técnico, quase administrativo, anunciou mais do que a retirada forçada de um governante. Expôs um sistema que já não absorve choques sem abrir rachaduras visíveis.
Não houve explosões; houve o som metálico de uma algema — e foi esse ruído burocrático, quase técnico, que expôs a fadiga da ordem internacional e a precariedade dos seus freios.
A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, seguida de sua transferência para Nova York, não representa apenas o colapso pessoal de um líder autoritário. Ela desloca o centro do debate global para uma zona sensível, onde legalidade internacional, conveniência estratégica e responsabilidade ética deixaram de operar em conjunto. O episódio importa menos pelo personagem e mais pelo precedente que inaugura.
Em Caracas, o retrato foi ambíguo. Pequenos grupos foram às ruas em defesa de Maduro, enquanto a maioria da população se concentrava em filas por alimentos, medicamentos e combustível. Regimes podem ruir rapidamente; sociedades entram em colapso quando perdem horizonte. A Venezuela já vivia essa perda. A intervenção externa apenas a tornou mais visível.
O problema do mundo atual não é a ausência de regras, mas a decisão consciente de contorná-las sempre que deixam de ser convenientes para quem tem poder militar, econômico e capacidade de impor fatos consumados.
Questionar a legalidade e a prudência da ação americana não equivale a relativizar o chavismo. Significa reafirmar um princípio elementar: o direito internacional não existe para proteger governos, mas para limitar a arbitrariedade dos fortes e reduzir o custo humano dos conflitos.
Quando esse princípio é relativizado, o sistema inteiro se fragiliza.
É nesse ponto que surgem as comparações com 1939, frequentemente evocadas de maneira apressada. O mundo às vésperas da Segunda Guerra Mundial era estruturalmente distinto. Não havia instituições multilaterais consolidadas, a economia internacional era menos integrada e a diplomacia operava sob a lógica do isolamento e da força direta. A guerra resultou da crença de que concessões conteriam regimes expansionistas.
Em 1939, acreditou-se que ceder evitaria a guerra; hoje cresce a ilusão oposta, a de que impor resolve mais rápido — e essa pressa, travestida de eficiência, costuma produzir ruínas duradouras.
Entre 2022 e 2025, o risco não nasce da ingenuidade, mas do cálculo frio. Hoje existem tratados, fóruns permanentes, organismos internacionais e comunicação instantânea.
O problema não é a ausência dessas estruturas, mas o esvaziamento deliberado de sua autoridade.
O mundo contemporâneo não caminha para a instabilidade por falta de regras, mas pela decisão consciente de ignorá-las.
Há anos tenho escrito, lecionado e participado de debates alertando que a ordem mundial em vigor é estruturalmente defeituosa. O núcleo do problema não reside apenas nos governos, mas na ausência de unidade de pensamento, atitude e ação entre governantes e governados.
Fronteiras nacionais são construções históricas, não cláusulas pétreas da humanidade. Séculos de guerras, milhões de mortos e a destruição de avanços científicos repetem-se porque resistimos a compreender o essencial: somos um só povo, uma humanidade interdependente.
Fronteiras são construções históricas; a humanidade, não — e o preço de ignorar essa evidência tem sido séculos de guerras, milhões de mortos e a repetição teimosa de tragédias anunciadas.
O que durante décadas tratei como reflexão acadêmica começa agora a emergir no discurso internacional, ainda que de forma truncada e confusa. Líderes de diferentes matizes reclamam, quase em coro, da necessidade de uma nova ordem mundial. Falta, porém, clareza conceitual, coordenação política e um projeto comum que vá além da retórica defensiva.
A reação europeia ao episódio venezuelano aprofundou o desconforto.
Condenou a repressão interna do chavismo, mas evitou confrontar diretamente a ilegalidade da intervenção. Defendeu transições ordenadas sem indicar meios concretos. Produziu notas cautelosas, por vezes contraditórias, que revelam mais desorientação do que prudência. Em 1939, a Europa errou ao subestimar uma ameaça crescente. Hoje, erra ao diluir princípios em nome da conveniência diplomática.
Quando a força substitui o direito, o sistema internacional não se torna mais justo; torna-se mais instável, mais imprevisível e mais propenso ao arbítrio, sobretudo contra povos que já vivem sob vulnerabilidade.
Na América Latina, o impacto é imediato e profundo. A reativação explícita de uma lógica de tutela regional recoloca o continente numa posição histórica incômoda. Para países como o Brasil, o dilema é claro: evitar um colapso humanitário ainda maior na Venezuela sem legitimar precedentes que fragilizam toda a região.
O mundo contemporâneo enfrenta desafios que tornam soluções isoladas não apenas ineficazes, mas perigosas.
Pandemias, mudanças climáticas, fluxos migratórios e crises financeiras ignoram fronteiras com absoluta indiferença. Uma política internacional baseada na força pode produzir vitórias momentâneas, mas deixa passivos duradouros.
Nada disso absolve regimes autoritários. Eleições fraudadas precisam ser denunciadas. Repressões devem ser condenadas. Povos oprimidos merecem solidariedade efetiva. Mas o método importa. Quando a política abdica do direito, abdica também da responsabilidade histórica.
A história não se repete mecanicamente, mas cobra coerência. Em 1939, o preço da miopia foi uma guerra total. Entre 2022 e 2025, ainda existem escolhas reais. Preservar a paz mundial, o bem-estar dos povos e a elevação concreta da qualidade de vida não é idealismo.
É decisão ética, visionária, política. Quando essas escolhas são abandonadas, o ruído metálico da algema deixa de ser episódio isolado e passa a funcionar como advertência.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

