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Pepe Escobar

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

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O mundo novo ocupado em nascer e o mundo velho ocupado em morrer

O Plano de 15 pontos apresentado ao Irã pelo Time Trump nasceu morto

Mapa mostra o Estreito de Hormuz e o Irã atrás de uma miniatura impressa em 3D do presidente dos EUA, Donald Trump, nesta ilustração 22/06/2025 REUTERS/Dado Ruvic (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

Trata-se de uma capitulação imposta: um documento de rendição disfarçado de “negociação”. 

O plano que não tem nada de plano – que impõe exigências ao mesmo tempo em que pede um cessar-fogo de um mês - incluindo zero enriquecimento de urânio em solo iraniano; total desmonte das instalações de Natanz, Isfahan e Fordow; retirada de todo o urânio enriquecido do Irã; extrema restrição ao programa de mísseis; fim do financiamento ao Hezbollah, Ansarallah e milícias iraquianas; abertura total do Estreito de Ormuz. 

Tudo isso em troca de um vago “cancelamento da ameaça de reimpor sanções”.

A única resposta iraniana realista a esse acúmulo de pensamentos fantasiosos seria o Sr. Khorramshahr-4 despejando cartões de visita sobre alvos selecionados – consistente com o emprego de contenção econômica e militar para ditar os termos reais. 

E os termos reais são duros: 

Fechamento de TODAS as bases militares dos Estados Unidos no Golfo; garantia de que não haverá mais guerras; fim da guerra ao Hezbollah; retirada de TODAS as sanções; indenização por todos os prejuízos causados pela guerra; uma nova ordem no Estreito de Ormuz (já em vigor: coleta de taxas de trânsito idênticas às cobradas pelo Egito no Suez); programa da mísseis mantido intacto. 

Conclusão: a infernal máquina de escalada continua em funcionamento. 

Um clube fechado com taxa de adesão em petroyuans 

Enquanto isso, os preços de petróleo e gás estão atolados em um caleidoscópio de volatilidade, afetando moedas, ações, commodities, cadeias de suprimentos e pânicos inflacionários. O que se vê já é um choque econômico global fora de controle, com consequências devastadoras que já se fazem sentir. 

Antes da guerra, o Irã produzia um pouco menos que 1,1 milhões de barris de petróleo por dia, vendidos a 65 dólares o barril com um desconto de 18 dólares: na prática, portanto, menos que 47 dólares. Agora, o Irã aumentou a produção para 1,5 milhões de barris por dia, vendendo a 110 dólares (tendendo a aumentar) principalmente para a China, com um desconto máximo de 4 dólares. 

E isso sem incluir as vendas de petroquímicos: crescendo sempre, e para uma longa lista de novos clientes. Resumindo tudo, todos os pagamentos são feitos por meio de mecanismos alternativos. O que nos leva a um fato surpreendente: para todos os fins práticos, isso representa a adoção de alívio para as sanções. 

E agora, quanto ao Santo Graal da guerra: o Estreito de Ormuz. Que de fato está aberto, mas com uma cabine de pedágio controlada pela Guarda Revolucionária do Irã (IRGC). Uma cabine de pedágio com um toque especial: poder de veto sobre a lista de convidados. Como para entrar um clube privado. 

Para conseguir a aprovação do IRGC, um navio-tanque tem que pagar uma taxa: 2 milhões de dólares por embarcação. É assim que funciona. Você entra em contato com um corretor ligado ao IRGC. O corretor transmite ao IRGC as informações essenciais: proprietário da embarcação, bandeira nacional, declaração de carga, destinação, lista da tripulação e dados sobre o transponder AIS.  

O IRGC conduz checagens de antecedentes. Se você não for ligado aos Estados Unidos, não estiver portando cargas ligadas a Israel e se sua bandeira não for de nenhum “estado agressor”, você tem a passagem autorizada. O Japão e a Coreia do Sul, por exemplo, ainda não foram liberados. 

Então você paga a taxa. Em dinheiro vivo – seja qual for a moeda que você use – mas preferivelmente em yuan. Ou em cripto. 

É um mecanismo complexo. O IRGC usa múltiplos endereços, pontes blockchain com outras redes, mesas de balcão de atendimento em jurisdições muito além do alcance dos Estados Unidos e integração com todos os tipos de canais de pagamentos em yuan.  

Após o pagamento da taxa, o IRGC emite uma liberação por rádio VHF – da qual consta um intervalo de tempo específico vinculado a um corredor náutico de cinco milhas através de águas territoriais iranianas entre Qeshm e a pequena ilha de Larak, de onde a Marinha do IRGC consegue identificar visualmente sua embarcação. Você então pode passar. Sem necessidade de um navio-escolta.  

Todo o citado acima se aplica, por enquanto, a navios-tanque da China, Índia, Paquistão, Turquia, Malásia, Iraque, Bangladesh e Rússia.  Alguns deles não precisam pagar a taxa cheia. Alguns conseguem isenções - negociadas governo-a-governo (como Sri Lanka e Tailândia, ambas descritas como “nações amigas”). E alguns não pagam nada. 

Bem-vindos, portanto, a um clube fechado com a taxa de adesão paga principalmente em petroyuans. Bastou uma única providência iraniana para alcançar o que incontáveis cúpulas globais não conseguiram: a criação de um sistema de pagamentos alternativo – sob fogo, testado sob tensão máxima e, além de tudo, aplicada no principal ponto de estrangulamento do planeta. 

Cada taxa paga em petroyuans representa uma derrota do petrodólar, do SWIFT e das sanções americanas – tudo de um só golpe. O Parlamento iraniano irá aprovar a legislação que institucionaliza as cabines de pedágio como “pagamento de segurança”. Ninguém previu isso, nem a rapidez com que aconteceu: monetização legalizada de gargalos. Sem disparar um único tiro. É disso que trata a desdolarização do comércio. 

O problema é o que não vem passando pelo Ormuz: fertilizantes. Mais de 49% da ureia exportada vêm do Golfo Pérsico. A amônia precisa de gás natural, mas Qatar decretou Força Maior depois do ataque do Sindicato Epstein a South Pars e dos contra-ataques iranianos. O IRGC está focado no petróleo porque o petróleo financia as cabines de pedágio e, no longo prazo, estará no cerne do sistema pós-dólar de pagamentos por energia, com o pleno apoio da parceria estratégica Rússia-China.  

Não é de admirar, portanto, que o Império do Caos e dos Saques tenha pirado de vez. De uma hora para outra, em três semanas, temos o petroyuan dominando o principal corredor de conectividade naval – de fato privatizado - de todo o planeta. O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) vai dar uma de Terminator para demolir o pedágio, tentando de tudo, desde o bombardeio de instalações do IRGC situadas ao longo da costa e montando escoltas navais para os navios-tanque de aliados até um tsunami de sanções contra os corretores do pedágio.  

O que o CENTCOM não consegue bombardear é o precedente do petroyuan já em vigor. O Sul Global inteiro está assistindo e fazendo os cálculos. A guerra demente está, na verdade, ajudando o nascimento de uma nova infraestrutura de pagamentos. A dimensão financeira da guerra é de importância ainda mais crucial do que a pontaria certeira dos mísseis. 

O que espera o GCC

O Qatar avisou ao Trump 2.0, vez após vez, que atacar a infraestrutura energética do Irã destruiria a infraestrutura energética da própria Doha. Foi exatamente o que aconteceu. O Ministro da Energia de Qatar, al-Kaabi, revelou ter avisado repetidamente o Secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, e também os executivos da ExxonMobil e da ConocoPhillips.

Não adiantou. Qatar acabou perdendo 17% de sua capacidade de GNL: 20 bilhões perdidos em receita, prejuízo que levará cinco anos para ser recuperado. Al-Kaabi: o barril de petróleo talvez atinja o preço de 150 dólares, e essa guerra poderia “derrubar as economias do mundo”. 

Entramos no território do absurdo, uma vez que está claro que atacar a South Pars iraniana geraria uma vantagem estratégica menor que zero. Ao contrário, o contragolpe atingiu o setor de energia do Golfo Pérsico. Mas a perversidade reina soberana. Em última análise, que se beneficiou? As empresas de gás dos Estados Unidos. 

O Irã aposta – de forma imensamente ambiciosa - que as monarquias do Golfo acabarão por fazer os cálculos. É como se Teerã estivesse deixando perfeitamente claro: se vocês aprenderem a fazer negócios conosco, nós deixaremos deixar vocês continuarem a operar seus próprios negócios.  

As novas regras incluem tudo, desde o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) abandonar o dólar até o fim dos centros de dados estadunidenses. E se O GCC quiser um novo sistema de segurança, é melhor ir conversar com a China. E, durante todo esse tempo, o GCC também tem que aprender como lidar com o fato de que esse choque de petróleo terá o efeito permanente de elevar o prêmio de risco sobre sua oferta de energia. Reset estrutural é um termo que sequer chega perto de descrever a situação. 

Nas atuais circunstâncias, resta uma única certeza: o GCC terá um papel importante na implosão do sistema financeiro internacional, por estar pronto para retirar pelo menos 5 trilhões do mercado estadunidense, a fim de financiar sua própria sobrevivência. 

A longa e sinuosa estrada do petro-ouro 

Resumindo: após o ataque ao campo de gás de South Pars – o maior do planeta – e o pedágio no Estreito de Ormuz, são os pagamentos em yuan-ouro, por todo o espectro, que vêm dando à parceria estratégica Rússia-China uma posição de vantagem que seria impensável poucas semanas atrás.  

A parceria estratégica está consolidando nada menos que um novo mecanismo de pagamentos global, onde as operações em petroyuan levam diretamente ao ouro físico. 

Enquanto a Rússia vende volumes massivos de petróleo e gás intocados pela guerra ao seu aliado Irã, a China, como o maior refinador, compra energia russa e, ao mesmo tempo, tenta manter seus parceiros do Sudeste Asiático fora do  dólar dos Estados Unidos.

A Rússia vem convertendo pagamentos em yuan em ouro físico na Bolsa de Valores de Xangai. O Irã vem acumulando pagamentos em yuan em Ormuz – incentivando contratos de compra de petróleo em yuan conversíveis em ouro. E a China vem construindo no exterior caixas-fortes e corredores de ouro. O novo triângulo Primakov RIC (Rússia-Irã-China) está no controle por meio da energia e do ouro físicos. 

Essa, portanto, é a principal conclusão a ser tirada da guerra travada pelo Sindicato Epstein contra o Irã. Rússia-China alcançaram o Santo Graal: o domínio sobre a energia e um sistema de pagamentos em yuan lastreado em ouro que supera o petrodólar para todo o sempre.  

Para todos os fins práticos, a arquitetura montada pela “nação indispensável” desde a década de 1990 está deixando à mostra rachaduras estruturais que podem ser vistas por todos, e os mercados globais estão atualizando em tempo real todas as variações possíveis desse modelo.

É como se os persas tivessem reinterpretado Sun Tzu, Clausewitz e Kutuzov (o conquistador de Napoleão) em um novo sistema híbrido. E, como bônus, alcançaram em apenas três semanas o que anos de cúpulas não conseguiram. 

O petrodólar está chegando ao fim. Sistemas alternativos de pagamentos estão entrando em ação. E o Sul Global está assistindo em tempo real o Império dos Bombardeios Sem Fim ser paralisado por uma guerra de atrito descentralizada, arquitetada por uma nação soberana com um orçamento de defesa equivalente a um-cinquenta avos do orçamento do Império. 

A multipolaridade não irá nascer com homens engravatados lendo documentos em escritórios executivos. A multipolaridade nascerá do campo de batalha, sob fogo, contra as piores dificuldades. 

Tradução de Patricia Zimbres

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.