O mundo que cabe num celular é o mesmo que desaparece num assalto
Do bolso ao banco, tudo cabe no celular — e tudo pode ser levado. Do Reino Unido ao Brasil, cada tela roubada revela uma sociedade sem proteção digital
Esta epidemia tecnológica, que começou discretamente nas esquinas de São Paulo e hoje se alastra como vírus digital em metrópoles de todos os continentes, tem um símbolo perverso: o telefone celular. O objeto que nos conecta ao mundo transformou-se no elo mais frágil entre o cidadão e o crime. Em Londres, por exemplo, 80 mil aparelhos foram roubados em 2024 — um a cada seis minutos — tornando a cidade o epicentro europeu de um fenômeno que mistura tecnologia, desatenção e redes criminosas internacionais.
O que antes era o furto ocasional de um distraído virou indústria. A capital britânica, que já inspirou Charles Dickens a retratar a miséria urbana e a esperteza dos pequenos ladrões, agora vê bandos mascarados, sobre bicicletas elétricas, arrancarem celulares das mãos de transeuntes atordoados. E, ao contrário dos tempos de Oliver Twist, os novos “artistas do furto” não trabalham para um Fagin de esquina, mas para redes globais que exportam lucros e impunidade.
A economia subterrânea do toque
As recentes operações da Scotland Yard revelaram que o roubo de celulares deixou de ser microcriminalidade e passou a operar em escala industrial. Um armazém próximo ao aeroporto de Heathrow guardava mil iPhones prontos para embarcar rumo a Hong Kong, disfarçados sob rótulos de “baterias”. Em outras palavras: o lixo tecnológico de um país vira ouro em outro. A cadeia criminosa vai do ladrão de bicicleta ao intermediário que compra o aparelho em lojas de segunda mão, até chegar ao exportador que despacha contêineres cheios de tecnologia roubada.
Os números impressionam. Desde o fim de 2024, cerca de 40 mil celulares saíram do Reino Unido com destino à China e à Argélia. Lá, cada aparelho de ponta, bloqueado no Ocidente, é desbloqueado com facilidade, pois as operadoras locais não aderem à lista internacional de dispositivos roubados. Resultado: um iPhone furtado em Londres por £300 pode ser revendido por US$ 5.000 em Xangai. Uma engenharia perfeita entre brechas tecnológicas e fronteiras complacentes.
Há, porém, um agravante: o celular é hoje o cofre da vida financeira. Com ele, acessamos bancos, investimentos, chaves Pix, carteiras digitais, tokens e assinaturas eletrônicas. Quando o aparelho cai nas mãos erradas, não se perde apenas um item caro: abre-se uma porta para o roubo de identidade, transferências-relâmpago, empréstimos fraudulentos e sequestro de contas por engenharia social. O crime salta do valor do hardware para o saque invisível do patrimônio pessoal — em minutos.
Cortes, descuidos e a anatomia da impunidade
O colapso da segurança pública britânica tem endereço político. Na década de 2010, sucessivos governos conservadores cortaram orçamentos e reduziram o número de policiais nas ruas. Em 2017, a própria corporação anunciou que não investigaria “crimes de baixo impacto”. O sinal foi dado: pequenos delinquentes descobriram que podiam agir com liberdade. E agiram. De 64 mil roubos em 2023, o número saltou para 80 mil no ano seguinte. Apenas 495 casos resultaram em prisão ou confissão. Um índice de punição de 0,5% — ou, em bom português, a certeza de que o crime compensa.
A crise também é estrutural: os ladrões não são apenas jovens de periferia, mas parte de um ecossistema que inclui comerciantes, despachantes, falsificadores e hackers. É a globalização da delinquência em sua versão 5G — veloz, articulada e difícil de rastrear.
Bicicletas elétricas, balaclavas
Em cena, a cidade se tornou palco de uma coreografia de alta velocidade. Os ladrões sobem nas calçadas com bicicletas elétricas alugadas, escondem o rosto sob capuzes e, em segundos, arrancam das mãos um bem que concentra vida, dados, afetos, identidade e — agora — patrimônio financeiro. O policial que tenta persegui-los enfrenta o dilema contemporâneo: arriscar vidas por um aparelho de mil libras?
“Vale o risco?”, perguntam-se as autoridades, enquanto os números continuam a subir.
A estética do crime mudou. O assalto deixou de ser o ato brusco do revólver para ser o gesto rápido de um dedo que arrasta, uma bike que avança, uma cidade que assiste. O celular tornou-se o ponto fraco mais exposto da rotina. Perdê-lo é perder o centro de uma existência digital: fotos, senhas, conversas, trajetórias e o dinheiro que circula por aplicativos.
Do Itaim Bibi ao Plano Piloto: o retrato brasileiro
No Brasil, o problema assumiu contornos trágicos recentes. Em São Paulo, o ciclista e empresário Vitor Felisberto Medrado, de 46 anos, foi morto em 13 de fevereiro de 2025, em frente ao Parque do Povo, no Itaim Bibi, quando dois homens em uma moto o abordaram durante um assalto e levaram o celular. O caso gerou comoção e, meses depois, o Ministério Público denunciou dois suspeitos por latrocínio; a polícia atribuiu o crime a uma quadrilha especializada que também receptava e revendia aparelhos.
Na capital federal, a violência atingiu uma comunidade inteira. Em 17 de outubro de 2025, o estudante Isaac Augusto de Brito Vilhena de Moraes, 16 anos, foi esfaqueado na entrequadra 112/113 Sul, enquanto jogava vôlei com amigos, após o grupo ser abordado e ter celulares levados. Isaac correu para tentar recuperar o aparelho e recebeu um golpe fatal no tórax. Adolescentes foram apreendidos e o caso, classificado como latrocínio, desencadeou vigílias, protestos e um velório comovente.
A fotografia do momento dispensa metáforas: São Paulo registrou 146,2 mil roubos e furtos de celulares entre janeiro e agosto de 2025, segundo dados oficiais da SSP-SP consolidados pela imprensa — uma média de um aparelho levado a cada três minutos.
As delegacias se enchem de vítimas, enquanto aplicativos de rastreamento — Find My iPhone, Google Find My Device — ajudam a mapear rotas de fuga, sem devolver a sensação de segurança. De cada dez amigos próximos, quatro tiveram seus aparelhos roubados nos últimos dezoito meses. E não faltam relatos de pessoas que, após o assalto, viram contas esvaziadas e perfis sequestrados por golpes que combinam credenciais salvas, SMS interceptado e engenharia social com dados vazados.
A pedagogia do descuido
Há algo de trágico na imagem cotidiana dos pedestres caminhando com os olhos colados à tela. Somos a sociedade que desaprendeu a checar o entorno. O criminólogo Lawrence Sherman, da Universidade de Cambridge, condensa a contradição: “Você não contaria seu dinheiro andando na rua. Por que, então, caminha exibindo um telefone de mil libras?”.
A resposta é simples e incômoda: o celular deixou de ser só objeto. É extensão de quem se é — agenda, documentos, chaves bancárias, memórias.
E assim seguimos, de São Paulo a Londres, de Nova York a Argel, tentando equilibrar-nos entre a necessidade de conexão e o medo da perda. Entre a promessa de proteção dos aplicativos e a realidade das esquinas onde o crime se profissionalizou.
No fim, o que essa epidemia tecnológica revela é mais do que um problema policial. É um retrato de época. Vivemos cercados de dispositivos inteligentes, mas distraídos demais para perceber o que realmente se perde: tempo, atenção, presença — e, cada vez mais, dinheiro.
Roubaram-nos o celular — e, junto com ele, o controle sobre a vida digital. O crime do século XXI não está apenas nas ruas: está na crescente distância entre o que somos e o que fingimos ser atrás de uma tela.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
