O negacionismo e a explosão da pandemia

A estabilidade divulgada oficialmente é relativa e frágil, podendo romper-se a qualquer momento como indicam algumas tendências verificadas na Espanha com aumento de novos casos e mesmo na China que não se livrou totalmente do vírus

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Abrir a internet no final da tarde e ver os números da Covid-19 tornou-se uma quase rotina. No dia 29/07 a UOL publicou a manchete “Covid: Brasil ultrapassa marca de 90 mil mortes e 2,5 milhões de casos”. Um baque! Dois dias depois o número pulou para mais de 92 mil, e chegará aos 150.000 como previsto por alguns estudiosos, meta que poderá ser modesta. Os 2,5 milhões de infectados podem ser ampliados para 10 milhões, já que a estratégia dos testes como controle epidemiológico foi abandonada logo no início da pandemia, ainda na gestão do ministro Mandetta.

No momento a epidemia apresenta diferentes estágios e os números são variados, reduziram no Nordeste e subiram no Sul e assim vai essa gangorra que não invalida a possibilidade de termos uma segunda onda em vários locais do país. Neste sentido o uso da palavra estabilidade, mantendo altos índices de infecção e de óbitos, é uma falácia ameaçadora à segurança de quem não tem atestado de imunidade contra o coronavírus. O resguardo, a cautela e uma certa desaceleração, podem ser benéficos a todos nesse momento. Há a “onda” do sair e agarrar tudo como antes e se sujeitar à infecção passando pelos horrores da internação hospitalar, prejudicial a todos, a quem se infectou e às pessoas que conviveram no seu entorno.

Heroísmo

Estamos há bastante tempo com índices de transmissão acima de 1.0, confirmando expansão na transmissão da Covid-19. O índice de infecção de 1.0 quer dizer estável, abaixo desse valor está em declínio e acima está em ascensão. A pandemia no Brasil está fora de controle com transmissão acelerada elevada. Ainda que tenhamos importantes baluartes da saúde pública do Brasil, a exemplo da Fiocruz (que produzirá vacinas contra a Covid-19), o SUS, os institutos de pesquisa, todos vinculados ao Estado, o drama sanitário continua grave no país.

Com todas as limitações, temos um sistema único de saúde exemplar, mundialmente referenciado, senão um dos mais abrangentes em que seus trabalhadores e trabalhadoras vêm enfrentando a pandemia com bravura e heroísmo, muitos entregando a vida à causa. Isso é comovente e duro, mas ao mesmo tempo acalentador porque caso tivéssemos um sistema se saúde privado como o dos EUA estaríamos em pior situação.

No fio da navalha

Agora muitos foram chamados a saírem de casa para assumirem seus postos de trabalho, enfrentando sensações como a de estar sobre uma corda bamba, a vida caminhando sobre o fio da navalha. A estabilidade divulgada oficialmente é relativa e frágil, podendo romper-se a qualquer momento como indicam algumas tendências verificadas na Espanha com aumento de novos casos e mesmo na China que não se livrou totalmente do vírus.

Sustentamos média superior a 1.000 mortes diárias há pelo menos 30 dias. Em primeiro de julho tínhamos 60 mil mortos, no dia 16 foram para 70 mil e no dia 29/07 chegou a mais de 90 mil. Esperava-se uma curva similar à da Itália, que subiu, chegou ao pico e desceu, sem ficar estacionada num patamar elevado de alta transmissão e muitos casos fatais.

O Brasil é vasto e multifacético em vários aspectos, sejam culturais, demográficos, geográficos ou econômicos e políticos, mas mesmo com nossas adversidades tivemos tempo suficiente para nos prepararmos para a batalha. O capitão foi o primeiro a fugir e foi seguido por seus comparsas que como ratos se meteram para dentro dos bueiros e abandonaram o campo de batalha, largando seus comandados à deriva. A debandada ocorreu logo após serem dados os primeiros tiros. 

Política genocida

O atestado que o abandono foi consciente pode ser confirmado pela ausência de planos e estratégias para atacar e se defender do coronavírus. Fugiram e se encastelaram em Brasília, como sempre, apequenando-se, brigando pelo direito de publicar fake news e pela defesa de seus interesses corporativos. Indignos de ocuparem cargos públicos da nação, têm a desfaçatez de não liberaram as verbas necessárias para combater a epidemia. O Estado brasileiro, militarizado em boa parte, notadamente em seus postos chave, foi incapaz de enfrentar essa guerra e com isso vem promovendo uma política genocida que atinge sobretudo as camadas mais pobres e vulneráveis da população brasileira. 

Vivem escudados no negacionismo das evidências da ciência. Os negacionistas em ciência sempre existiam. Até o sábio Giordano Bruno foi queimado na fogueira da inquisição! Quando o surto epidêmico da peste bubônica se instalou em Santos em 1899, alguns políticos e até médicos minimizavam ou negavam a importância da doença, foi necessário Adolfo Lutz, pai da medicina tropical no Brasil, escalar dois jovens médicos para darem cabo da ameaça: Vital Brazil e Emilio Ribas, que posteriormente se juntaram a Oswaldo Cruz e deram um fim rápido ao surto. 

O negacionismo na história

Exemplo gritante do negacionismo ocorreu em 1918 quando eclodiu a chamada Gripe Espanhola, causada pelo vírus Influenza. Embora haja alguma discordância em relação à origem da gripe, sabe-se que os primeiros casos ocorreram em bases militares nos EUA. Como a primeira guerra mundial ainda estava em curso, o presidente estadunidense Woodrow Wilson proibiu a divulgação de informações a respeito da doença para não baixar a moral das tropas compostas em sua maioria de jovens, as principais vítimas, que espalharam a doença pelas trincheiras da Europa. Os demais países em guerra censuraram informações a respeito da pandemia da mesma forma.

Apenas a Espanha, que estava fora da guerra e tinha uma imprensa mais livre, publicava constantemente a respeito da pandemia e, por isso, pagou o pato, a doença ganhou o título de Gripe Espanhola. Esta trama do silêncio, da ocultação dos fatos e da disseminação das mentiras custou a vida de ¼ da população mundial. 

Remover Bolsonaro

A epidemia de meningite em São Paulo, no início da década de 1970, foi encoberta pelo regime militar enquanto as filas de crianças se multiplicavam nos hospitais e as enfermarias pediátricas transbordavam com inúmeros casos graves. Atitudes estas que propiciam a desinformação pública e uma certa cegueira frente ao inimigo invisível, assim florescem deixando as epidemias sem controle pela ausência da ação e da presença do Estado.

Está claro que nos marcos do atual governo o futuro que nos aguarda é assombroso. É imperioso remover de uma vez por todas o governo Bolsonaro e seus parceiros sangue sugas do povo brasileiro. Ainda que nosso raio de ação pareça curto, nos restando não muito mais que o resguardo de cada um e as ações de caráter coletivo e solidário, ainda é possível sonhar com o dia em que a vacina vai chegar e as pessoas irão sorrir, a humanidade irá se aliviar e não haverá como negar as graças da ciência.

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