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Verônica Lima

Deputada estadual pelo Rio de Janeiro, eleita em 2022 com 55.738 votos, e atualmente exerce seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), onde preside a Comissão Permanente de Cultura.

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O negócio do ódio: como a misoginia da internet alimenta a violência contra mulheres

Tratar a misoginia com a gravidade que ela merece é reconhecer que o ódio contra mulheres produz consequências concretas

O negócio do ódio: como a misoginia da internet alimenta a violência contra mulheres (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
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O Brasil começou 2026 com um dado que deveria indignar todo o país. Apenas em janeiro, 142 mulheres foram vítimas de feminicídio. São 142 vidas interrompidas pela violência de homens que acreditaram ter o direito de controlar, agredir e matar mulheres. Não estamos diante de casos isolados. Estamos diante de uma estrutura de violência sustentada diariamente pelo machismo e pela misoginia.

O feminicídio não começa no momento do crime. Ele começa muito antes, na violência psicológica, na humilhação cotidiana, no controle sobre os corpos e as escolhas das mulheres, na perseguição, nas ameaças e também na cultura que normaliza o ódio contra nós.

Hoje, essa cultura encontra terreno fértil nas redes sociais. Enquanto as mulheres seguem sendo assassinadas, cresce uma verdadeira indústria digital da misoginia. Influenciadores, canais e páginas transformam o discurso de ódio contra mulheres em entretenimento, audiência e lucro. Vendem a ideia de que mulheres são manipuladoras, inferiores ou inimigas dos homens. Transformam violência simbólica em produto.

Uma pesquisa do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro identificou 137 canais no YouTube com conteúdos explicitamente misóginos. Juntos, eles acumulam cerca de 3,9 bilhões de visualizações e mais de 23 milhões de inscritos. O mais grave é que mais de 80% desses canais lucram diretamente com esse conteúdo por meio de anúncios, mentorias, cursos e monetização das plataformas.

Isso não pode ser tratado como simples polêmica de internet. Quando jovens passam horas consumindo conteúdos que ensinam que mulheres devem ser controladas, humilhadas ou odiadas, estamos formando uma geração atravessada pela naturalização da violência de gênero. O ambiente virtual influencia comportamentos reais. O discurso de ódio não fica restrito à tela do celular. Ele atravessa relações, legítima agressões e fortalece uma cultura que mata mulheres todos os dias.

No estado do Rio de Janeiro, os dados mostram que políticas públicas de proteção podem gerar resultados concretos, mas também revelam que ainda estamos longe de vencer essa batalha. O estado registrou 20 casos de feminicídio no primeiro trimestre de 2026, uma queda de mais de 37% em relação ao mesmo período do ano anterior. Este é o menor índice para um primeiro trimestre desde 2020, segundo dados do Instituto de Segurança Pública. A redução é importante e mostra que investimentos em acolhimento, proteção e atuação integrada entre assistência social e segurança podem salvar vidas.

Mas números positivos não podem nos levar à falsa sensação de que o problema está resolvido. Alguns municípios fluminenses, como Macaé, Nova Iguaçu, Belford Roxo, Niterói e Tanguá, estão há pelo menos um ano sem registrar feminicídios consumados. Ainda assim, as tentativas de feminicídio continuam acontecendo e escancaram uma realidade preocupante. Nova Iguaçu registrou 19 tentativas no período, Belford Roxo 10, Macaé nove e Niterói seis. Cada tentativa representa uma mulher vivendo sob ameaça constante. Cada tentativa mostra que a violência continua presente e que muitas mulheres sobrevivem diariamente ao medo.

Por isso, o debate sobre o Projeto de Lei nº 896/2023, conhecido como PL da Misoginia, é tão importante. O projeto, aprovado por unanimidade no Senado e atualmente em discussão na Câmara dos Deputados, propõe tipificar a misoginia como crime equiparado ao racismo.

A proposta prevê penas de reclusão de dois a cinco anos para práticas relacionadas a discursos de ódio, discriminação e violência motivadas pela crença de superioridade masculina. Também altera a Lei do Racismo e o Código Penal para incluir crimes de injúria e incitação ao ódio contra mulheres.

Tratar a misoginia com a gravidade que ela merece é reconhecer que o ódio contra mulheres produz consequências concretas. Produz violência, exclusão, silenciamento e morte.

Não existe combate ao feminicídio sem enfrentar a cultura que alimenta essa violência. Não existe proteção às mulheres enquanto plataformas digitais continuarem lucrando com conteúdos misóginos sem qualquer responsabilização. Não existe sociedade democrática possível quando metade da população vive sob ameaça constante.

Combater o feminicídio exige leis mais duras, redes de proteção fortalecidas, educação, acolhimento e responsabilidade das plataformas digitais. Mas exige, acima de tudo, que a sociedade pare de tratar a misoginia como opinião, piada ou exagero. Misoginia mata. E continuar normalizando esse discurso custa vidas todos os dias.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.