O neutro_golpe da omissão

Ser neutro agora é dar espaço para os Cunhas da vida. Nutro mais simpatia pelos que lutam por algo, acreditam em algo, mesmo do outro lado da margem, do que pelos que se resignam ao luto infindável

"Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor."
(Desmond Tutu)

O Neutro I:

Sobre o neutro: esse imparcial, essa imunidade. Por medo de ser chamado de petralha ou de coxinha – digamos que essa discussão não se resume em um esquema binário, como muitos presumem –, e não reconhecer um golpe em plena luz do dia, o panelaço do escracho ao vivo e a cores, o neutro se preserva do impreservável. Só que nesse momento, omissão é ação.

"Ah, mas eu não acredito em nada", resumem alguns. Não acreditar em nada é cômodo. Medo de se expor? De perder o emprego? O problema é que já estamos perdendo. E muito. E não será apenas o emprego. Existe um coletivo nisso. Existe uma história trágica e recente em vias de se repetir. Vamos esperar? Vamos aguardar? Vamos nos poupar?

Ser neutro agora é dar espaço para os Cunhas da vida. Nutro mais simpatia pelos que lutam por algo, acreditam em algo, mesmo do outro lado da margem, do que pelos que se resignam ao luto infindável.

Não acreditar em nada e em ninguém é a mesma coisa que acreditar em tudo. São duas faces da mesma moeda.

A sua neutralidade abre espaço para o fascismo. E destrói algo que tanto lutamos pra conseguir: a democracia. É pouco?

Apatia agora, sinceramente, é a ação mais abjeta.

O Neutro II:

Quanta admiração pelo neutro. Esse invencível. Nada o arranha, ele paira acima de todos nós com um sorriso no canto do rosto. Um sorriso de soslaio, pois que não encara. Nada o atinge. Nada o atravessa. E se atinge, passa de raspão. O importante é se manter protegido pela neutralidade.

O neutro é o indubitável especulador em retrospecto. É o profeta do passado. Tudo antecipou, nada disse. Tudo pressentiu, e calou. Tudo sugeriu, em silêncio. E mais tarde será o reclamão do ato consumado. O protestante sem protesto.

O neutro, esse herói! Acha normal ser decretado sigilo nas planilhas da Odebrecht pelo juiz popstar, e na falta dos nomes de Lula e Dilma, ele dá de ombros. Afinal, para o Neutro tudo é igual. E nada é igual.

Por querer agradar a todos, ele não agrada a ninguém. Porque no fundo, ninguém admira o pusilânime. O fofo do neutro é a plateia mais desencorajada de si mesmo. É um inofensivo que golpeia por omissão. É blasé até no naufrágio.

O neutro não é contra e nem é à favor. Está muito acima disso. É um deus e nada poderá atingi-lo.

Só a inépcia.

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