O nome da rosa

Tudo ali, as mortes, a investigação, a censura, as disputas, o sexo, girava em torno de um tesouro supremo, que a tudo une e a tudo atribui significado. O conhecimento. Precisamente, na alegoria de Eco, o conhecimento sobre a alegria, algo há muito sonegado das gentes, difamado como algo pequeno, menor, talvez como pecado

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Na primeira vez que tentei ler "O Nome da Rosa", desisti na primeira página. Bastaram seis ou sete palavras em latim para que eu deixasse o livro de lado. Devo ter lido umas três vezes o primeiro parágrafo, duas vezes o segundo, e mesmo assim nada fazia sentido. Eu tinha provavelmente 11 ou 12 anos na ocasião.

- É um livro sobre igreja - concluí.

Uma coisa me intrigava. Não havia fotos nem ilustrações. Mas uma página exibia um esquema da incorporação do mosteiro, uma espécie de planta baixa, com suas galerias, entradas e saídas, as torres e a biblioteca. Demorei-me um pouco mais naquele desenho. Alguém me explicou, não sei se meu pai ou minha mãe, que o livro narrava uma série de mortes de religiosos, e que a ilustração ajudava o leitor a localizar cada um dos crimes, acompanhando a investigação conduzida por um frade de fora, em visita ao local. Fã de Conan Doyle e Agatha Christie aos 12 anos, entusiasmado com os assassinatos em série narrados em "O Caso dos Dez Negrinhos", que mais tarde seria rebatizado no Brasil, entendi que "O Nome da Rosa" contaria a mais impressionante investigação da qual eu já tomara conhecimento.

- É um livro de detetive - percebi.

Nos anos que se seguiram, eu ainda não me sentia à vontade para enfrentar o latim e as digressões sobre filosofia e religião que suas centenas de páginas encerravam. Mas vi o filme. Mais de uma vez. Ali, o Poirot de Umberto Eco era interpretado por um Sean Connery de batina e cucuruto raspado, tão inteligente quanto o texto que o inspirara. A atmosfera noturna do longa, o clima de desconfiança, o risco iminente, tudo isso conduzia para uma aflição permanente: esse frade vai deixar que todos morram antes de solucionar o mistério?

Da primeira vez que vi o filme, iniciando o Ensino Médio, ficou a lembrança do sexo escondido, cheio de culpa, feito às pressas pelo jovem noviço com uma sedutora garota que, anônima, representava tudo aquilo que um aspirante deveria evitar: o desejo, a liberdade, os hábitos profanos, a hipótese de bruxaria. O rapaz, narrador do filme, lamentava, depois de velho, jamais ter conhecido seu nome.

- É um livro sobre a paixão - decidi.

Na segunda vez que vi o filme, pouco depois, talvez aos 17, foi o aspecto político que eclodiu. Inquisição, censura, intrigas, poder, disputas e, principalmente, hipocrisia. Religiosos anunciavam o Evangelho e, nos bastidores, abraçavam o capeta. Quem ardia na fogueira? O mais fraco, é óbvio. O feio, o tonto, o pobre, o grotesco, os desajustados. A puta. A bruxa. Ou seja: a mulher. Difícil a tarefa de investigar o que não deve nunca ser investigado, denunciar o que ninguém jamais deveria saber. Difícil a tarefa de cortar a própria carne, dar os anéis para preservar os dedos, punir os membros podres de uma igreja decrépita para preservar a instituição e ajudá-la a renascer melhor, mais limpa. Um enredo que diz muito sobre a política brasileira de 2016.

- É um livro sobre resistência.

Quando finalmente li "O Nome da Rosa", aos 20 e poucos anos, aflorou diante dos meus olhos o mais fascinante dos segredos sobre aquele livro tão comentado, algo que o filme jamais conseguiu mostrar de forma clara, e que tornava ainda mais mágica a obra daquele monstro sagrado da literatura e da semiologia chamado Umberto Eco. Tudo ali, as mortes, a investigação, a censura, as disputas, o sexo, girava em torno de um tesouro supremo, que a tudo une e a tudo atribui significado. O conhecimento. Precisamente, na alegoria de Eco, o conhecimento sobre a alegria, algo há muito sonegado das gentes, difamado como algo pequeno, menor, talvez como pecado. A alegria que em tudo deveria permanecer como regra e norte, costurando como laço o sagrado e o profano.

- "O Nome da Rosa" é um livro sobre o riso.

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