Emir Sader avatar

Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

1023 artigos

HOME > blog

O nosso futebol realmente existente

Mesmo com a primeira vitória no Mundial, a seleção expõe fragilidades preocupantes e mostra estar distante das tradições do futebol brasileiro

O nosso futebol realmente existente (Foto: REUTERS/Dylan Martinez)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

O Brasil ganhou. Primeira vitória no Mundial. O oba-oba já se instala em alguns setores.

Mas como foi o jogo? O Brasil jogou bem no primeiro tempo. Como tem acontecido sempre, Vini Jr. foi o melhor jogador. Deu o chute que levou ao rebote do goleiro e ao gol, de Cunha ou contra.

Depois, Cunha fez um belo gol. Até que Vini Jr. marcou o seu, muito bem, como sempre.

Aí veio o segundo tempo. Incrivelmente, o Brasil foi dominado pelo Haiti! O meio-campo desapareceu, eles impuseram um sufoco ao Brasil. Incrível! O Haiti!

No final, então, só nos defendíamos. Suportamos, com dificuldade, a ofensiva do Haiti, que nos dominava.

Ao final da partida, o técnico disse que melhoramos. Nem fez menção ao segundo tempo. Parece que foi uma vitória normal. Afinal, 3 a 0 sobre o Haiti está de bom tamanho.

Mas nada disso esconde que não temos um time ou, pelo menos, que só o temos por um tempo. Seja por desgaste físico — mas foram feitas várias substituições para poupar os mais cansados —, seja por debilidade técnica, a verdade é que o segundo tempo foi uma vergonha para um futebol que pretende chegar longe nesta Copa.

Foi como se o time não tivesse voltado para o segundo tempo. Não existimos. Não jogamos nada na etapa final.

E o fraco Haiti nos dominou, impôs seu ataque sobre nossa defesa e quase fez o gol que merecia.

O que aconteceu? O meio-campo não controlou mais nada. Foi completamente envolvido pelo fraco Haiti.

Esse time pode ir longe? Anuncia-se que, se ficarmos em primeiro lugar no grupo, enfrentaremos o Japão. Não será fácil. Quem sabe joguemos novamente um bom primeiro tempo e consigamos segurar na defesa durante o segundo.

Mas, ao contrário do que diz o técnico — que já tem contrato para dois Mundiais e não precisa se preocupar com as críticas de alguns meios de comunicação —, não estamos em condições de enfrentar qualquer adversário.

Quem viu jogar Alemanha, Estados Unidos, França, entre outros, pode imaginar que seria um sofrimento enfrentá-los. Esperamos que não haja um novo 7 a 1, mas pelo menos que vejamos um jogo de um time só.

Passaríamos por mais um Mundial em brancas nuvens. Com ótimos jogadores, que fazem sucesso pelo mundo afora, mas que não constituem um time, uma equipe.

E já sabemos que teremos o mesmo técnico no próximo Mundial. Quem sabe com Vini Jr., quem sabe com Neymar, com quem o treinador já disse que espera contar ainda neste Mundial.

Este é o futebol realmente existente no Brasil de hoje. Não está à altura das nossas tradições nem das cinco Copas do Mundo que conquistamos. Resta torcer para que nenhum outro país nos alcance.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.