O novo imperialismo de Donald Trump
O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio como espaço vital, enquanto Trump busca um império global que impeça forças regionais
Temos apresentado a conjuntura mundial contemporânea como caracterizada pelo caos sistêmico, que se estabeleceu hodiernamente a partir da ruptura da política externa estadunidense com o imperialismo informal e a globalização neoliberal, desde a eleição de Donald Trump em 2016.
Essa ruptura possui causas profundas e já avançava molecularmente durante o mandato de Barack Obama, com o crescimento da economia política de sanções e o seu direcionamento para a Rússia, buscando impedir o desenvolvimento geoeconômico da Eurásia, onde Moscou aporta território, localização e recursos estratégicos. A isso somam-se as guerras híbridas que atingiram a Ucrânia e a América do Sul, em especial o Brasil — além do Norte da África —, afetando espaços vitais da multipolaridade emergente, do poder embrionário do BRICS e de sua área de influência.
Foi Donald Trump, todavia, quem afrontou o neoliberalismo, pretendendo subordiná-lo a um capitalismo de Estado que submetesse o mercado mundial ao poder estatal dos Estados Unidos, abrindo espaço para o estabelecimento de um império global e de uma nova etapa do imperialismo, que chamamos de imperialismo tout-court para designar o emprego aberto da violência estatal no sistema-mundo que não alcança uma ordem estável e aprofunda os conflitos internacionais, gerando situações disruptivas.
Donald Trump reconheceu o declínio estadunidense e a necessidade de redefinir as prioridades estratégicas e os interesses vitais. Partindo da percepção de escassez relativa de força, descartou o universalismo liberal em favor do excepcionalismo norte-americano e de seus interesses econômicos e de exercício de poder. Diferentemente de Barack Obama, que pretendeu liderar uma ordem multilateral capaz de incorporar potências emergentes, Donald Trump afirmou o retorno da era de rivalidades entre as grandes potências.
Declarou a China e a Rússia potências revisionistas que ameaçariam a ordem, a prosperidade, os interesses e valores estadunidenses. Nomeou Pequim o principal inimigo externo a ser contido e o liberalismo político e o socialismo os maiores inimigos internos.
Descartou os principais paradigmas da política externa norte-americana: o internacionalismo emergente no pós-Guerra Fria e a sua pretensão de exportar regimes políticos liberais e substituir autocracias; e as políticas de hegemonia, iniciadas no pós-Guerra, que financiaram alianças políticas por meio de assistência militar e econômica, principalmente na Europa e no Leste Asiático.
Paralisou a Organização Mundial do Comércio, retirou Washington do Acordo de Paris e de inúmeras organizações internacionais, negou o aquecimento global, rejeitou as regulações ambientais, rechaçou os déficits comerciais, iniciou uma ofensiva tarifária contra a China e um conjunto de sanções e embargos extensivos a terceiros países para isolá-la e afastá-la da corrida pelo domínio da vanguarda do paradigma microeletrônico.
Reivindicou o restabelecimento do poder industrial estadunidense, a repatriação de capitais e estendeu a ofensiva tarifária tanto aos países superavitários em relação aos Estados Unidos quanto àqueles cujas diretrizes políticas e sociais afetavam seus interesses.
Donald Trump inverteu a aposta de Richard Nixon e Henry Kissinger de incluir a China na ordem internacional estadunidense para isolar a URSS. Ele negocia as reivindicações territoriais de Putin na Ucrânia para afastá-lo de Xi Jinping e da resistência às ações de expansão do unilateralismo norte-americano.
Fragiliza a OTAN, ameaça a Europa, reforça a sua balcanização, dá suporte a forças nacionalistas, alimenta as tensões com a Rússia para evitar o fortalecimento de um poder regional e atuar como poder estabilizador, transformando a assistência militar em exportação de armas e serviços de defesa e em exploração de recursos estratégicos.
Donald Trump reapropriou a Doutrina Monroe, originalmente destinada a condenar a reconquista colonial dos países americanos pela Santa Aliança, para usá-la contra as decisões soberanas dos países latino-americanos e caribenhos de escolherem sua política externa e os Estados e formações sociais com que cooperam nos planos econômico, político, social e diplomático.
Trata-se, em verdade, da retomada da Doutrina do Destino Manifesto, estendendo-a a todo o Hemisfério Ocidental para expulsar a presença chinesa e russa da região e estabelecer protetorados e governos títeres dos interesses estadunidenses, independentemente de sua orientação política e de seus valores, desde que sejam cooperativos por adesão ideológica ou por sujeição às ameaças de emprego do poder militar norte-americano.
O Hemisfério Ocidental substitui o Oriente Médio na condição de espaço vital estadunidense, mas o projeto de poder mundial de Donald Trump não delimita zonas de influência: é o de construir um império global que impeça o surgimento de qualquer força regional capaz de ameaçar o poder estadunidense.
Apoia o subimperialismo sionista para criar uma alternativa à Rota da Seda que una a Índia ao Mediterrâneo europeu e respalda a sua ingerência além dos limites bíblicos da Grande Israel para atingir o Irã. A meta é produzir uma mudança de regime, controlar o Estreito de Ormuz com um governo pró-estadunidense e ameaçar a China, colocando em risco o seu abastecimento energético.
A incapacidade de Israel para cumprir esta missão tem levado ao crescente envolvimento militar dos Estados Unidos no Irã, com o bombardeio do seu projeto nuclear, deslocamento de porta-aviões para as suas imediações e um ataque e campanha militar.
No entanto, Donald Trump acentua as vulnerabilidades estruturais dos Estados Unidos. As ameaças e violações que lança sobre as soberanias estatais no mundo agregam-se ao crescente parasitismo financeiro e ao declínio tecnológico para impulsionar uma corrida global contra o dólar. No século XXI, o ouro elevou o seu preço em relação ao dólar mais de 15 vezes e, desde janeiro de 2024, 2,4 vezes.
Em 2000, o dólar representava 60% das reservas monetárias mundiais, patamar muito semelhante ao de 2016 (56%), quando Donald Trump se elegeu presidente da República pela primeira vez. Desde então, a participação do dólar despencou para 43,8% em 2025 e a do ouro aumentou de 10,9% para 24,2%. Um dos principais determinantes desse processo é a compra do metal pela China: em 2008, suas reservas, que eram de 599 toneladas, passaram para 1054 (2009), 1658 (2016), 1948 (2022) e 2030 toneladas em 2025.
Há fortes evidências de que estamos próximos de uma grave crise financeira nos Estados Unidos, que deverá colocar em questão o último pilar de sua hegemonia: o protagonismo do dólar. Ela possivelmente se desdobrará ao longo da quarta grande queda do índice Dow Jones em relação ao ouro.
A primeira queda, de 90%, ocorreu entre 1929 e 1933, com a trajetória de recuperação iniciando-se em 1941, a qual se converteu em prosperidade até atingir o limite em 1967; o segundo tombo, de 95%, deu-se entre 1967 e 1979, com a retomada a partir de 1981 prolongando-se até 2001; a terceira grande baixa, de 85%, ocorreu entre 2001 e 2011, sendo revertida de 2013 a 2022 — ano em que se inicia a quarta grande inflexão negativa, um processo que já derrubou o marcador em 50%.
A capacidade de o imperialismo norte-americano fazer frente a isso é muito limitada. Desde 2008, os Estados Unidos ingressaram em uma fase recessiva do ciclo de Kondratieff iniciado em 1994, o que reduziu o crescimento anual do PIB per capita entre 2008 e 2024 para 1,2% — quase metade da taxa registrada entre 1994 e 2007 (2%). Se a imensa expansão do déficit público e da dívida pública foi crucial para elevar o coeficiente Dow Jones/ouro, a taxa de lucro, a rentabilidade dos investimentos e defender o dólar entre 2013 e 2022, tais instrumentos parecem agora insuficientes para elevar o preço dos ativos e enxugar a moeda: não apenas pelo tamanho dos estoques, mas principalmente pela dimensão da pressão do mercado mundial.
Os Estados Unidos estão perdendo a corrida tecnológica para a China de forma irreversível: foram ultrapassados em número total de patentes e em patentes per capita, em 2012 e 2018, respectivamente; responderam por 9,9% do crescimento do PIB global em 2025, contra expressivos 26,5% da China; e viram a potência asiática expandir o seu saldo comercial para US$ 1,2 trilhão, ante US$ 538 bilhões em 2024.
Sem o respaldo do dólar como moeda forte, o poder militar do imperialismo perde grande parte da sua capacidade de atuação. Donald Trump sabe os custos econômicos, sociais e políticos da guerra para os Estados Unidos e quer evitá-los: as intervenções no Iraque e Afeganistão custaram US$ 8 trilhões, a vida de 7 mil soldados e de 8 mil contratistas, sem mencionar os 30 mil veteranos de guerra que se suicidaram. Sua estratégia é contorná-los, construindo um império coercitivo global baseado na extorsão e em ações de demonstração capazes de promover o medo e garantir conquistas sem maior resistência.
Essa estratégia, todavia, está ancorada em uma grande dose de blefe, terá problemas para se sustentar se houver conflito prolongado e traz consequências de difícil controle a médio prazo: acentua a insegurança mundial, deteriora o poder financeiro dos Estados Unidos, agrava o desgaste interno e internacional, acelera o caos sistêmico e a organização da resistência mundial.
O assassinato de Ali Khamenei e seus assessores mais próximos mostra o enfoque radicalmente elitista que Donald Trump quer aplicar às relações internacionais. Para ele, os Estados são dirigidos pelas elites e não pelo povo e, caso se as neutralize por extermínio, sequestro ou ameaça, coopta-se o Estado e o submete ao hegemon em expansão. Ele não quer lutar contra exércitos ou povos, mas espalhar o terror nos tomadores de decisão e vencer guerras com algumas dezenas ou centenas de mortos, baixos custos financeiros, políticos e militares.
É a nova versão da Blitzkrieg nazista: guerra de assalto vinculada a uma tecnologia militar e informacional de alta precisão. Mas, se funcionou na Venezuela, não significa que vá funcionar no Irã, que possui uma estrutura estatal de 47 anos, sólidos aparatos militares e paramilitares, uma ampla população xiita espalhada no Oriente Médio e uma ideologia política religiosa que valoriza o martírio.
O objetivo de Trump é controlar o Estreito de Ormuz ao provocar a mudança de regime no Irã, criar uma grande vulnerabilidade energética para a China com impactos gerais sobre sua economia e debilitar a Rússia na frente ucraniana com a subtração ou reorientação — para a sua adversária — da exportação de tecnologia militar persa. O propósito final de Donald Trump é impor a mudança de regime na Rússia e na China e garantir um século XXI sob domínio de um império global estadunidense.
A China, por sua vez, prefere a estratégia de ascensão pacífica. Ela continuará a retaliar economicamente os Estados Unidos acelerando a substituição do dólar pelo ouro como moeda de reserva. A cotação do ouro deverá disparar, acelerando a crise do dólar.
A sua aposta é paralisar a máquina de guerra dos Estados Unidos com a crise do padrão monetário, evitando um conflito militar indireto ou direto com a potência norte-americana. Todavia, provavelmente terá que recalibrar a sua estratégia para aumentar o seu poder de dissuasão, fortalecer a sua liderança e a densidade de suas parcerias internacionais.
O tempo corre contra os Estados Unidos que, com a agenda neofascista de Donald Trump, fazem uma aposta política altíssima de ultrapassá-lo para reverter as tendências estruturais da economia mundial.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
