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Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo

Economista, professor e consultor editorial da revista Carta Capital

4 artigos

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O novo Plano Condor do século XXI em disputa

Imperialismo, petróleo e a agressão à soberania da Venezuela

Nicolás Maduro (Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Por Cleonildo Cruz e Luiz Gonzaga Belluzzo, Diretores da Série de TV Operação Condor

Os acontecimentos de 3 de janeiro, que envolveram ataques armados em território soberano da República Bolivariana da Venezuela e o sequestro do presidente constitucional Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, por agentes estatais dos Estados Unidos da América, expressam, de forma inequívoca, uma ação de caráter imperial, cujo objetivo real jamais foi o combate ao narcotráfico ou a defesa da democracia, mas sim o controle geopolítico e econômico das riquezas estratégicas venezuelanas — em especial suas vastas reservas de petróleo, gás e recursos naturais. A retórica oficial utilizada por Washington funciona, mais uma vez, como pretexto ideológico para legitimar a violação da soberania de um Estado e a submissão forçada de um povo a interesses externos.

O que está em curso é a reatualização de um Plano Condor no século XXI, não mais sustentado exclusivamente por ditaduras militares clássicas, mas por operações híbridas, que combinam sanções econômicas, bloqueios financeiros, guerra jurídica, desestabilização política, manipulação discursiva e, agora, intervenção armada direta e sequestro de autoridades eleitas. Trata-se de uma estratégia coerente com o histórico de intervenções norte-americanas na América Latina, sempre orientadas pela defesa de interesses econômicos e estratégicos externos, jamais pela autodeterminação dos povos.

Sob a ótica do Direito Internacional Público, os atos praticados pelos Estados Unidos configuram grave violação da Carta das Nações Unidas, em especial dos princípios da soberania dos Estados, da igualdade jurídica entre as nações, da proibição do uso da força e do direito dos povos à autodeterminação. O sequestro de um chefe de Estado em exercício, em território soberano, sem qualquer autorização multilateral legítima, caracteriza ato ilícito internacional de extrema gravidade, passível de responsabilização internacional.

A privação ilegal da liberdade do presidente Nicolás Maduro e de Cília Flores não apenas rompe a ordem jurídica internacional, mas viola diretamente a ordem constitucional venezuelana, compromete a estabilidade regional e estabelece um precedente perigoso: o de que potências estrangeiras podem destituir governos e capturar lideranças políticas pela força, sempre que seus interesses econômicos assim o exigirem.

A insistência no argumento do narcotráfico e da democracia revela-se, portanto, retórica vazia. Nenhuma dessas justificativas encontra respaldo jurídico ou empírico capaz de legitimar bombardeios, sanções, bloqueios econômicos ou sequestros de autoridades. O que se busca, em última instância, é submeter um Estado soberano ao controle externo de seus recursos naturais, desmontando sua capacidade de decisão autônoma e seu projeto nacional de desenvolvimento.

A democracia, vale insistir, não se impõe pela força. Tampouco pode ser invocada como pretexto para a apropriação de riquezas nacionais ou para a violação sistemática da soberania de um povo. A experiência latino-americana é clara: intervenções imperiais produziram ditaduras, dependência, violência e subdesenvolvimento — nunca liberdade.

O que está em disputa não é apenas o futuro da Venezuela, mas o próprio princípio da soberania na América Latina. O novo Plano Condor avança à medida que o direito internacional é sistematicamente violado e relativizado. Resistir a esse projeto é defender a paz, a autodeterminação dos povos e a construção de uma ordem internacional verdadeiramente multipolar.

Nesse contexto, apresentaremos o projeto da Série de TV Operação Condor no 35º Congresso Nacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que ocorrerá de 15 a 18 de janeiro de 2026, em Brasília (DF), reunindo mais de dois mil educadores de todo o país. Não apenas apresentaremos o projeto ao público, às entidades e às instituições parceiras, como também marcaremos formal e publicamente o início oficial da produção e das filmagens da obra, reafirmando sua relevância pedagógica, cultural e política e fortalecendo o vínculo indissociável entre educação, memória histórica e democracia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.