O padroeiro dos bolsonaristas e a papização da política

O trabalho do The Intercept, pouco a pouco, tem minado a imagem do padroeiro dos bolsonaristas. Basta ver a fraca audiência que Moro proporcionou no programa do Ratinho na terça-feira (18), a pior do ano

(Foto: José Cruz - ABR)

Há muitas maneiras de se construir um bom argumento. A melhor delas é criar premissas fortes_ baseadas em fatos e evidências _ que conduzam a uma conclusão coerente. É assim que se constrói um debate de ideias. Ideias. É preciso insistir neste termo “ideias” porque o que tem acontecido no Brasil, nos últimos dias, é uma tentativa de evitar o confronto argumentativo e se atacar pessoas. O ataque ao proponente do argumento e não ao argumento em si, é o que se chama de falácia. Para ser mais técnico, falácia ad hominen

Outra maneira de se construir um argumento é apelando a uma autoridade. Neste segundo caso, pouco importa as premissas_ se os fatos e evidências são frágeis. O que importa é a conclusão proposta por uma autoridade. Se esta autoridade chegou a uma conclusão X, deve ser verdade, afinal, é a autoridade que está dizendo. Falou está falado. Segundo o Dicionário Online, autoridade é: “Direito que determina o poder para ordenar; poder exercido para fazer com que (alguém) obedeça”. 

Não há problema em obedecer às autoridades. Quando criança, as primeiras autoridades que conhecemos são nossos pais, depois os professores e diretores na escola, quando crescemos, vamos conhecendo as autoridades religiosas, policiais e, assim, aprendendo a compreender e respeitar as instituições que funcionam hierarquicamente, sob o comando de autoridades. 

O problema está quando estas autoridades ultrapassam suas funções, tornando-se autoritárias, atropelando direitos fundamentais dos demais cidadãos, tendo condutas suspeitas. Ao longo da História, muitas autoridades que surgiram na figura do homem forte, vestiram a máscara do falso moralismo e aparentavam “combater a corrupção”. Porém, com o tempo, se insurgiram contra o povo, perseguindo minorias e tratando adversários políticos como inimigos, cassando, até mesmo, os direitos políticos deles. De acordo com o filósofo americano Jason Stanley: “A democracia, ao permitir a liberdade de expressão, abre espaço para que um demagogo explore a necessidade que o povo tem de um homem forte; o homem forte usará essa liberdade para se aproveitar dos ressentimentos e medos das pessoas”.

Nos últimos anos, o ex-juiz Sérgio Moro se arvorou como autoridade. Não autoridade jurídica, que, de fato, era. Mas uma espécie de autoridade moral, superpoderosa, que surgiu “milagrosamente” para “limpar o Brasil da corrupção”. E na condição de “autoridade moral”, o ministro passou, então, a ser inatingível, as decisões que tomou como juiz da Operação Lava Jato, eram dogmas inquestionáveis pela direita. 

Acontece que reportagens do The Intercept Brasil levantaram questionamentos sobre essas condutas de Moro, enquanto era juiz da Operação. Segundo as matérias, havia uma colaboração entre Moro e os procuradores, ele orientava e até mesmo pautava as notas à imprensa, preocupado com a preservação de sua imagem. Além disso, sugeriu não investigar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), um apoio que considerava importante. 

Em audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) desta semana, ficou evidente que o ministro Sérgio Moro tem fraco poder argumentativo, sua retórica cansava, porque, reiteradamente, tentava relativizar o conteúdo das mensagens, banalizava a gravidade das informações contidas nelas. Sua aposta foi, justamente, no apelo à autoridade, tentou defender as instituições e se ancorar no “título de herói” que recebeu. Sua imagem imaculada tentava se sobrepujar aos fortes indícios de interferir politicamente nas eleições de 2018, tirando o ex-presidente Lula da corrida presidencial (que liderava as pesquisas na época) e, assim, ajudar a extrema-direita a chegar ao poder. 

A questão que fica é: até quando o ministro conseguirá se sustentar nesta imagem de autoridade suprema? Moro é o que eu chamaria de “papização da política”. Sua infalibilidade papal no suposto julgamento imparcial da Lava Jato faz com que parte da população o veja como inquestionável, acima de qualquer suspeita. O dogma da infalibilidade papal_ na teologia católica_ afirma que o papa está sempre correto em suas declarações. Os bolsonaristas seguem moro e o presidente Jair Bolsonaro, de forma religiosa e fidedigna. Não é relevante se a condenação de Lula foi por “atos indeterminados”, a papização em torno de Moro impede que os adeptos do bolsonarismo questionem ou tentem compreender o que seriam estes tais atos. 

Mas o trabalho do The Intercept, pouco a pouco, tem minado a imagem do padroeiro dos bolsonaristas. Basta ver a fraca audiência que Moro proporcionou no programa do Ratinho na terça-feira (18), a pior do ano. A população já está abrindo os olhos e se distanciando dessa papização da política. Até porque, o verdadeiro papa, o Francisco, já deixou bem claro em carta, de qual lado está: “o bem vencerá o mal, a verdade vencerá a mentira e a salvação vencerá a condenação”. 

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