O país dos 56 povos

Como um dos exemplos mais antigos de Estado laico e plural, muito antes do Brasil ou mesmo dos Estados Unidos (o qual, há 50 anos, ainda recorria a pretextos religiosos para discriminar negros e brancos, por exemplo), a China constitui um dos exemplos mais bem lapidados de diversidade étnica existentes no mundo

As oportunidades abertas pela China com o Cinturão e Rota
As oportunidades abertas pela China com o Cinturão e Rota (Foto: Richard Sharrocks)

Talvez nenhum país no mundo tenha tantos povos endógenos como a China. Ao contrário do que muitos imaginam, a China não é um país dominado por uma só etnia, embora uma delas seja, sim, amplamente numerosa. Hoje, segundo números oficiais locais, os han, aqueles famosos chineses estereótipo, de “pele amarela e olho puxado”, representam 92% da população do imenso país asiático. Entretanto, são ao todo 56 etnias dispersas por todo o seu território, algumas das quais, como os coreanos, os cazaques e os russos, provenientes de regiões que constituem outros países, mas presentes na China em quantidade suficiente para formarem um povo endógeno reconhecido e, assim, gozarem de algumas peculiaridades legais que respeitem as suas características culturais específicas.

Ante a impossibilidade de se discutir todas as 56 etnias da China, algumas das quais não chegam a 10 mil pessoas, este espaço apresenta algumas das que hoje são as mais conhecidas, em grande parte em razão de querelas políticas atuais ou que foram importantes na história recente. 

A começar pelos han, a etnia mais numerosa da China. Os han, por serem o povo mais numeroso, são a cara política, econômica e cultural do país, ocupando todas as principais cidades, de norte a sul, de leste a oeste, mas fundamentalmente mais importantes nos centros orientais do país, onde está o coração de sua economia. Pequim, Shanghai, Nanjing, Guangzhou, Shenzhen, Hong Kong, Taipé e outros centros importantes para a política e a economia chinesas são amplamente dominados pelos hans. Na história chinesa, quase todos os grandes líderes foram deste povo, desde as dinastias que se sucederam até a dinastia Ming no século XVII, até, depois da revolução Xinhai de 1912, a República da China e, mais tarde, a República Popular da China. Do povo han provêm os dois idiomas majoritários no país, o oficial, mandarim, aqui chamado hanyu (ou a língua dos hans) e o cantonês, variação encontrada no sul do país, especialmente na província de Guandong e a região administrativa especial de Hong Kong. Dos hans vêm também os elementos mais tradicionais da cultura chinesa, como o Tai Chi Chuan, o Kung Fu, o taoismo, o Feng Shui, a culinária local e outros, que, reza a lenda, teriam sido fundados pelo Imperador Amarelo, Huang Qi, o primeiro de todos os hans, há milhares de anos.

Se há mais de cem anos o protagonismo da cena cultural e política chinesa é dos hans, não foi, no entanto, sempre assim. Foi diferente entre os séculos XVIII e XX, quando, por quase trezentos anos, a China foi governada pela dinastia Qing, a última linha imperial da história chinesa. Os Qing eram manchus, isto é, de uma etnia proveniente do nordeste do país, a Manchúria, onde estão hoje as províncias de Liaoning, Jilin e Heilongjiang. Fica perto da fronteira com a atual Coreia do Norte, região que os chineses chamam de “a cabeça da galinha”, em referência ao fato de o mapa do país lembrar a ave. Numa olhada rápida, são muito parecidos aos hans, sendo mais diferentes por seu hábitos culturais. Mas, para os locais, já lembram mais os coreanos e, principalmente, os japoneses, que chegaram a invadir a região por ver na semelhança étnica uma razão para reivindicá-la. 

Os imperadores manchus chegaram ao trono através da revolução camponesa de Taiping, que alijou os Ming do poder, devido à degradação das condições sociais do Império. São considerados marcantes por mostrarem ao país o primeiro ciclo revolucionário que marcaria os séculos seguintes, convulsionados por revoluções e revoltas que mudariam o panorama político chinês. Figuras hoje celebradas pela literatura e o cinema, portanto fundamentais na cultura local, como a imperatriz “de facto” Cixi e o último imperador, Pu Yi, eram manchus.

Por sinal, neste período, quando os Qing dominavam a política do país, a região que hoje é ocupada pelo país Mongólia integrava o Império chinês. Por sua vez, séculos atrás, os mongóis já haviam governado a China na figura de seus imperadores, os Khan. Ainda que, após as transformações no mapa político da Ásia, a Mongólia tenha se transformado numa nação independente, diversas populações de etnia mongol ainda habitam a China, em territórios próximos ao Estado vizinho do norte. Essas populações possuem a cara mais arredondada que os hans, assim como a pele mais clara, indicando traços étnicos miscigenados com povos das estepes siberianas. Por isso, a elas é reservada uma região autônoma, isto é, que segue as leis e os sistemas político e econômico de Pequim (diferentemente das especiais, Hong Kong e Macau), mas que possui particularidades de gestão dada a cultura diferente daquela das regiões han. A chamada Mongólia Interior é uma das cinco Regiões Autônomas da China, com Tibete, Xinjiang, Ningxia e Guangxi, todas povoadas por minorias étnicas.

As duas primeiras são as mais importantes, visto ocuparem o imaginário ocidental sobre os problemas políticos da China, muitos dos quais superdimensionados. Dos tibetanos, já tratamos neste espaço em artigo especialmente dedicado ao tema. São um povo de pele mais morena que os hans e manchus. Grosso modo, é como se fossem algo entre os hans e as etnias indianas. Ainda assim, são um povo que integra a trajetória histórica da China como nação e nunca pleitearam deixar o país, exceto pela turbulência gerada por minorias locais, porém incentivada por potências internacionais desde um levante político derrotado em 1959, quando ainda engatinhava o Governo de Mao Tsé Tung. 

Fundamentais para a integração cultural da China pelo oeste, os tibetanos contribuíram com uma das maiores riquezas da cultura chinesa, o budismo tibetano, que produziu joias culturais como o Templo Patas de Cavalo e o monastério de Labrang, ambos na província de Gansu, os quais o Brasil 247 visitou no mês de julho. Isso além do Templo dos Lamas de Yonghe, em Pequim, anualmente visitado por milhões de fiéis e turistas. É uma falácia do Ocidente dizer que a China reprime a prática do budismo, visto esta forma de religiosidade, também discutida em artigo anterior, é tratada como um dos principais patrimônios imateriais do país. Desde que seus líderes sigam as normais estabelecidas pelo Estado para a harmonia religiosa, fugindo ao proselitismo e à ingerência política, os budistas, bem como muçulmanos e cristãos, não encontram problemas. Em suma, líderes A ou B podem ter problemas na China, ao violarem leis. Religiões, como entes abstratos, são livres. 

Grande parte da polêmica envolvendo como a China supostamente trata suas religiões vem do imaginário criado pelos ocidentais no período da Revolução Cultural, processo fundamental na formação de consciência para o socialismo lançado pelo presidente Mao nos anos 1960, mas cujos excessos reconhecidos pela China incluíam o banimento da cultura tradicional e das religiões, tidas como instrumentos de dominação burguesa. A leitura marxista precária foi, com o tempo, aperfeiçoada e ganhou formas mais bem delineadas no curso do tempo, passando a uma estrutura legal que permite e, ao mesmo tempo, regula os excessos da prática religiosa.

O que, ao fim e ao cabo, é hoje um dos principais problemas da outra região onde habita uma minoria famosa da China, os uigures, predominantes na região autônoma de Xinjiang. Lá, a fronteira com os países da Ásia Central, como Paquistão e Afeganistão, proporcionou ao país outro fator de suma importância em sua diversidade cultural: a entrada do Islã. Em Xinjiang a China lembra muito um país árabe, com suas mesquitas, os homens com shashia e as mulheres com hijab, as populações sem os olhos puxados e com a pele morena dos centroasiáticos. Foram, igualmente, grandes responsáveis pelas rotas comerciais Oriente-Ocidente que integravam China e Europa durante a Idade Média, conhecidas como a “Rota da Seda”. Portanto, a cultura uigure está em um dos mais importantes episódios da história econômica chinesa, numa época em que o islã já era predominante naquela região. 

A China integra os muçulmanos ao país, inclusive com apoio para a criação de associações, construção de mesquitas e mesmo o financiamento de peregrinações a Mecca. Entretanto, o intercâmbio com a Ásia central, nos últimos 30 anos, passou a ameaçar a China com o mesmo problema que dominou os países árabes e o Ocidente: o fundamentalismo islâmico. Na fronteira com territórios marcados pela atuação de grupos terroristas, como o Talebã no Afeganistão e a Al Qaeda neste e também no Paquistão, a China foi obrigada a, recentemente, proteger-se de incursões ideológicas extremistas que buscam alijar o Xinjiang de seu território, sob o pretexto de criar “um país para os uigures”, ideia fundamentada unicamente no ideal do Estado religioso, jamais condizente com os padrões civilizacionais da sociedade moderna. Entretanto, dar visibilidade a um ou outro problema político chinês com o fundamentalismo islâmico uigure é algo que esconde a integração e a importância deste povo, que responde por 50% de toda a população de Xinjiang.

Como um dos exemplos mais antigos de Estado laico e plural, muito antes do Brasil ou mesmo dos Estados Unidos (o qual, há 50 anos, ainda recorria a pretextos religiosos para discriminar negros e brancos, por exemplo), a China constitui um dos exemplos mais bem lapidados de diversidade étnica existentes no mundo. O que passa, sim, pela autoridade do Estado, o que pode nem sempre ser simpático, como já advertia Thomas Hobbes no século XVII. O Estado é o “Leviatã” poderoso, porém necessário, para conter os excessos do egoísmo humano e garantir liberdade com igualdade para todos. Entretanto, mesclando este conceito moderno de Estado com seus valores filosóficos de paciência temporal para encontro do ponto de harmonia, bem como a transformação para reestabilização, prezados pelo taoismo e pelo confucionismo, a China tem encontrado a medida mais correta e suave para aplicação da autoridade estatal ante a diversidade étnica, cultural e religiosa, visando ao bem estar de seus cidadãos.

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